São Paulo Boat Show bate recordes e se consolida como principal palco de negócios náuticos da América Latina
Ao todo, 40 mil pessoas passaram pelo evento, onde mais de 700 barcos foram vendidos em seis dias


Com registro de números recordes, o São Paulo Boat Show terminou no último dia 24, reafirmando seu título de principal palco para o mercado náutico na América Latina. Durante os seis dias de evento, mais de 700 barcos foram comercializados, enquanto cerca de 40 mil visitantes passaram pelo salão.
Lancha que pertenceu a Ayrton Senna emociona visitantes do São Paulo Boat Show
Evolução dos jets é destaque no Museu da Moto Aquática, no São Paulo Boat Show
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Para alcançar números expressivos, o salão deste ano foi ampliado. Em um espaço de 32 mil m² no São Paulo Expo, na zona sul de São Paulo, mais de 170 embarcações foram expostas, sendo 50 lançamentos.
As ofertas atenderam a consumidores de diferentes perfis econômicos, já que o evento exibiu desde cotas compartilhadas de barcos a partir de R$ 25 mil e motos aquáticas de R$ 65 mil, até iates de luxo avaliados em mais de R$ 15 milhões.


Além das embarcações, os visitantes encontraram uma ampla gama de produtos, como motores, brinquedos náuticos, equipamentos de segurança, decoração, serviços e até cursos de pilotagem e apólices de seguros.
Entre as inovações apresentadas no evento, destaque para o jet que vira prancha, um futurista carro que navega sobre as águas e um barco em formato de casa. Isso sem falar do sorteio de uma lancha Fibrafort equipada com motor Yamaha, avaliada em mais de R$ 200 mil.


Mais do que uma exposição, o São Paulo Boat Show se tornou o destino preferido para quem deseja adquirir embarcações ou realizar upgrades, inclusive, com uma mudança no perfil dos consumidores, que agora aguardam a realização dos salões ao longo do ano para fechar suas negociações. Vale destacar que em 2024 já foram quatro Boat Shows, e mais dois estão por vir — em Salvador e em Foz do Iguaçu.
“O São Paulo Boat Show deste ano confirmou uma tendência que temos observado: o público náutico cada vez mais espera pelos Boat Shows para realizar suas compras. O feedback dos expositores foi extremamente positivo, com vendas sendo concretizadas durante todos os dias do evento. Esse comportamento tem causado oscilações no mercado ao longo do ano, com um aumento expressivo nas vendas coincidindo com os eventos”, afirma Thalita Vicentini, diretora geral da Boat Show Eventos.
O sucesso deste ano, não apenas em São Paulo, mas também nos outros Boat Shows do calendário, deve contribuir diretamente para que o setor encerre 2024 com saldo positivo, já que cerca de 70% das vendas de barcos no Brasil ocorrem por conta desses eventos– completou a diretora
Essa mudança no comportamento dos consumidores também foi percebida por Eduardo Colunna, presidente da Acobar. “Observamos uma oscilação nas vendas do setor náutico em 2024, mas o saldo para o ano será extremamente positivo, superando os números de 2023”.
Atingiremos a marca de 150 mil postos de trabalho, um crescimento de 25% em relação ao ano passado, quando tínhamos 120 mil– ressaltou Colunna
O presidente da Acobar destacou ainda que “esse aumento de emprego abrange todo o setor, desde a construção de embarcações até serviços de manutenção, marinas e outras áreas relacionadas”. Para ele, “a indústria náutica brasileira atingiu um nível de excelência construtiva, com mão de obra qualificada e produtos que se tornaram referência internacional, reforçando nossa competitividade global”.
Expositores também reforçaram a importância dos Boat Shows como o principal cenário para a concretização de negócios náuticos no país. Márcio Schaefer, CEO da Schaefer Yachts, foi um dos que celebrou os resultados obtidos.


“Alcançamos nossa meta, que desde o início foi bastante ousada. O público presente foi extremamente qualificado e conseguimos superar com folga as expectativas do ano passado. Isso reforça a importância do evento para o setor e o nosso compromisso com a excelência”, comentou Schaefer.
A Ventura Experience compartilhou dos resultados positivos. Para a marca, “este é o maior evento náutico da América Latina, que vende, atrai público e transforma empresas. Todos os anos, o salão se supera, e este ano não foi diferente. Lançamos um produto de pequeno porte que se tornou o mais vendido de toda a nossa história”.


Fábio Bisolatto, sócio da WellCraft, igualmente destacou o impacto positivo do São Paulo Boat Show. “A feira cresce a cada ano e o público está extremamente qualificado. Recebemos muitos clientes de alto nível e o evento superou nossas expectativas. Este ano já é nosso recorde de vendas desde 2021, quando começamos a participar. Só temos a agradecer ao Boat Show”, revelou.


José Carlos Barros, diretor comercial da Sessa Marine, compartilhou a expectativa de resultados contínuos após o evento: “O São Paulo Boat Show sempre gera uma expectativa muito alta em termos de visitação qualificada e em volume de negócios. Algumas vendas já foram realizadas, mas muitas negociações ainda estão em andamento e acreditamos que o evento trará resultados ainda melhores à medida que essas negociações se concretizem nos próximos meses”.


Ainda em 2024, a Boat Show Eventos realizará mais dois eventos náuticos. De 6 a 10 de novembro ocorre o inédito Salvador Boat Show, na Bahia Marina. Já de 28 de novembro a 1º de dezembro será realizada a segunda edição do Foz Internacional Boat Show, no Lago de Itaipu.
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Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.
O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!




