Conesul e Vale do Ivinhema: o novo horizonte do turismo náutico brasileiro
Com planejamento e cooperação regional, rios do Mato Grosso do Sul abrem caminho para novos destinos náuticos e oportunidades de desenvolvimento sustentável


O turismo náutico brasileiro está vivendo uma importante expansão. Se durante muitos anos o setor concentrou seus investimentos no litoral e nos grandes reservatórios, uma nova fronteira começa a ganhar forma no Mato Grosso do Sul. Em abril, tive a oportunidade de participar do 1º Workshop de Turismo Náutico do Conesul e Vale do Ivinhema, realizado em Naviraí, a convite do Sebrae/MS, para apresentar a palestra “Náutica como Estratégia de Desenvolvimento Econômico”.
Turismo náutico e educação precisam andar lado a lado para um futuro sustentável
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O encontro reuniu gestores públicos, empresários, representantes da Marinha do Brasil, Fundação de Turismo de Mato Grosso do Sul, IMASUL, universidades e lideranças regionais com um propósito bastante claro: transformar um patrimônio natural extraordinário em um produto turístico estruturado, competitivo e sustentável.
Mais do que um evento, o workshop representou o início de um programa regional de desenvolvimento. Ao final das atividades, foi assinada uma ata que estabelece o chamado “Marco Zero” da governança do turismo náutico na região, envolvendo dezenas de instituições públicas e privadas comprometidas com a construção desse novo destino.


Uma região privilegiada pelas águas
Naviraí, embora não esteja às margens do Rio Paraná, ocupa posição estratégica como principal polo urbano e econômico do Conesul sul-mato-grossense. A partir dela, o visitante encontra acesso a uma das mais impressionantes redes hidrográficas do país.
Os rios Paraná, Ivinhema, Amambai e Iguatemi formam um mosaico de ambientes que reúne águas preservadas, extensas áreas de Mata Atlântica, várzeas, ilhas, rica fauna silvestre e paisagens praticamente intocadas. Trata-se de um território com enorme vocação para atividades náuticas de lazer, contemplação e ecoturismo.
Poucos lugares no Brasil reúnem simultaneamente tamanha disponibilidade hídrica, biodiversidade, facilidade logística e possibilidade de integração entre diferentes municípios.
Turismo náutico é desenvolvimento econômico
Durante minha apresentação procurei mostrar que o turismo náutico vai muito além das embarcações.
Quando uma região decide investir nesse segmento, toda uma cadeia econômica passa a ser estimulada: marinas, rampas públicas, estaleiros, manutenção náutica, hotéis, restaurantes, operadores turísticos, comércio, guias especializados, transporte, postos de abastecimento e inúmeros pequenos empreendedores passam a fazer parte desse ecossistema.
É um setor capaz de gerar empregos qualificados, atrair investimentos privados, aumentar a permanência dos visitantes e distribuir renda por diferentes municípios.
Ao contrário do que muitos imaginam, não é necessário criar grandes atrações artificiais. O maior ativo já está presente: os rios, a natureza e as experiências que eles proporcionam. O desafio é organizar a oferta, garantir segurança jurídica, estruturar a governança e transformar recursos naturais em produtos turísticos comercializáveis.


Uma diversidade de experiências
O potencial regional é amplo.
A pesca esportiva encontra rios reconhecidos pela ocorrência de espécies emblemáticas como dourado, pintado, jaú e pacu.
Os passeios embarcados podem explorar paisagens preservadas, praias fluviais, pôr do sol e observação de fauna.
Há espaço para caiaque, canoagem, stand up paddle, remo, turismo de aventura, birdwatching, fotografia de natureza, turismo científico e roteiros voltados à gastronomia regional e às comunidades ribeirinhas.
Esse conjunto permite que a região opere durante praticamente todo o ano, diversificando seu público e reduzindo a dependência da sazonalidade.
Governança como ponto de partida
Talvez o aspecto mais importante do workshop tenha sido a compreensão de que o sucesso de um destino náutico depende, antes de tudo, da cooperação entre diferentes instituições.
Marinha, órgãos ambientais, municípios, empresários, universidades e entidades de apoio precisam compartilhar objetivos e construir soluções conjuntas para infraestrutura, ordenamento territorial, licenciamento, qualificação profissional e promoção turística.
Essa visão integrada foi um dos grandes diferenciais do encontro promovido pelo Sebrae/MS.
Um modelo que pode inspirar o Brasil
Ao longo dos últimos anos tenho acompanhado iniciativas de turismo náutico em diferentes estados brasileiros e percebo que existe uma mudança importante em curso. Cada vez mais regiões de águas interiores passam a enxergar seus rios como ativos estratégicos para o desenvolvimento.
O Conesul e o Vale do Ivinhema possuem todos os elementos necessários para se consolidarem como um dos principais destinos brasileiros de turismo náutico de natureza.
O workshop realizado em Naviraí foi apenas o primeiro passo. Mas foi um passo firme, baseado em planejamento, governança e visão de longo prazo.
Quando diferentes atores trabalham de forma coordenada, os rios deixam de ser apenas paisagem e passam a ser verdadeiros corredores de desenvolvimento econômico, geração de oportunidades e valorização do patrimônio natural.
Tenho convicção de que, nos próximos anos, ouviremos falar cada vez mais dessa região. E será muito positivo ver o turismo náutico cumprindo, mais uma vez, seu papel como ferramenta de desenvolvimento sustentável para o interior do Brasil.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.
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O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
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