Tradicional canoa tombada pelo Patrimônio está naufragando no São Francisco

Por: Redação -
27/01/2022

A canoa de tolda Luzitânia, histórica embarcação tradicional e tombada pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, se encontra alagada na Reserva Mato da Onça, Unidade de Conservação às margens do Velho Chico, no alto sertão alagoano do Baixo São Francisco.

Com o casco aberto e aguardando recursos para inadiáveis ações de conservação, a canoa de tolda Luzitânia está alagada desde a tarde do dia 18, quando as vazões da UHE Xingó atingiram a marca de 2 500 m³/s.

Não há informação de ações de emergência para a remoção imediata da embarcação para local seguro, ainda que tenha ocorrido uma inspeção da embarcação por representante do IPHAN na última sexta feira, dia 21.

O atual alagamento da Luzitânia é a quinta situação enfrentada pela embarcação e a segunda desde sua volta às águas do Velho Chico que, sem uma resposta emergencial de socorro, promoverá o comprometimento de um bem cujo valor é incalculável.

A canoa de tolda é um exemplo talvez único de convergência de tecnologias navais planetária da era dos descobrimentos que, em miscigenação com o “DNA” nativo, evoluiu e resultou na mais eficiente embarcação para a navegação a vela no rio São Francisco. A perda de tal embarcação seria uma lacuna sem igual para o patrimônio naval mundial.

Veja abaixo vídeos realizados no dia 22, sábado, quando a vazão da UHE Xingó estava no patamar de 3 500 m³/s.


A situação já era prevista pela Sociedade Canoa de Tolda, proprietária da embarcação restaurada e tombada pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Segundo o responsável pela gestão da embarcação, Carlos Eduardo Ribeiro Jr, tão logo tendo ciência da programação das vazões divulgadas pela CHESF – Companhia Hidro Elétrica do São Francisco, a entidade encaminhou ao IPHAN demanda para equipamentos necessários para manter parcialmente a embarcação em estado de flutuabilidade.

“Infelizmente os itens pedidos, basicamente tambores de 250 l (duzentos e cinquenta litros) e cabos para a atracação, não chegaram até ontem, não sendo mais viável a sua instalação na Luzitânia, o que nos levou a suspender a demanda. Assim não estaríamos incorrendo em uma situação de aquisições com verbas públicas de material que não seria utilizado, o que poderia comprometer o currículo de probidade da Canoa de Tolda”, prossegue Carlos Eduardo.

Para a Sociedade Canoa de Tolda está claro que mais esse quase naufrágio da Luzitânia não pode ser atribuído apenas a um padrão de vazões mais elevadas, uma vez que a vazão de 3 000 em³/s é equivalente a algo semelhante a quando as seis máquinas da UHE Xingó operam. Esse valor é cerca de menos de mil metros cúbicos acima da vazão regularizada de 2 060 m³/s com a construção de Sobradinho.

A organização também entende que o conflito do controle absoluto das águas do rio persiste e continuará enquanto esse for o modelo de uso dos rios com barramentos.

Apesar da imagem da velha canoa completamente inundada e acachapada dentro da água que agora voltou a correr bem no beiço do rio da Reserva Mato da Onça, não há dúvidas de que o panorama do Velho Chico com um pouco mais de água é impossível de ser ignorado. A paisagem dos últimos dias tem proporcionado indiscutível bem estar e está associada ao direito ao meio ambiente saudável garantido pela constituição brasileira.

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