Garda: lancha clássica de madeira da Pelicanno combina visual retrô e tecnologia no Boat Show
Modelo de 23 pés tem casco de fibra, acabamento em madeira e motorização V8 de 350 hp; estaleiro também levou ao salão a Whitehall e peças que resgatam suas origens


Quem visita o estande do Estaleiro Pelicanno no São Paulo Boat Show 2026 encontra uma proposta que foge do padrão predominante das embarcações de fibra. Construída com madeira e acabamento artesanal, a Garda resgata o visual clássico das antigas lanchas, mas combina a estética com soluções construtivas atuais.
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A embarcação faz parte da linha de lanchas clássicas que o estaleiro começou a desenvolver há cerca de quatro anos. Segundo Rodrigo Diniz, sócio-proprietário do Estaleiro Pelicanno, a iniciativa nasceu da experiência da empresa com a madeira e da intenção de levar esse conhecimento para embarcações de uso contemporâneo.


A gente viu que essa especialização que tínhamos na madeira, de saber tratar, lixar, esculpir. Podíamos trazer isso para criar novamente embarcações clássicas de madeira no mercado atual, que hoje é predominante de fibra– explicou Diniz
Na Garda, a proposta aparece em uma construção que combina casco de fibra de vidro com acabamento em madeira. O modelo exposto no salão é equipado com motor V8 a gasolina de 350 hp.


A escolha pelo sistema híbrido entre fibra e madeira também busca facilitar a manutenção. De acordo com Diniz, toda a madeira recebe selagem com epóxi, tanto na parte interna quanto na externa, enquanto o casco de fibra contribui para a proteção estrutural da embarcação.
O casco é fibra, não tem entrada de água. Toda a madeira é selada com epóxi, tanto por dentro quanto por fora– contou o sócio-proprietário
Com os tratamentos atuais, a proposta é manter o aspecto da madeira sem exigir a rotina de manutenção associada aos barcos clássicos construídos integralmente com o material. Segundo o sócio-proprietário, uma Garda mantida em vaga seca precisa passar por lixamento e novo envernizamento aproximadamente a cada dez anos.
Uma lancha para diferentes usos
Com 23 pés, a Garda foi pensada para quem busca uma embarcação menor, prática para passeios e que possa ser transportada com facilidade. O tamanho permite que o modelo seja acomodado em vagas menores de marina e também rebocado por uma carretinha de dimensões reduzidas.


A capacidade é de cinco pessoas, e o modelo também foi desenvolvido para a prática de esportes aquáticos. A Pelicanno oferece acessórios específicos para transformar a embarcação em uma ski boat, incluindo bolsas de lastro na popa e uma torre para a fixação da corda de esqui.
É uma embarcação muito bem construída, feita para durar– garantiu Diniz


Além do uso esportivo, a Garda atende a um público que procura um barco para passeios mais curtos. Segundo Diniz, entre os compradores estão proprietários de embarcações maiores, que utilizam o modelo como tender ou como uma segunda opção para momentos em que não é necessário sair com um barco de 60 ou 70 pés.
Muitas pessoas que acabam tendo uma embarcação grande, um barco de 60, 70 pés, gostam de ter essa lancha como um tender da embarcação deles– disse ele


O nome Garda faz referência ao Lago de Garda, na Itália, onde o conceito da embarcação também encontrou espaço. O modelo exposto no São Paulo Boat Show é de 2026 e, embora não seja um lançamento, já soma dez unidades em operação no Brasil, além de uma embarcação que foi levada por um cliente para o lago italiano.
Madeira como identidade
A presença da madeira no estande da Pelicanno vai além das lanchas. Ao lado da Garda, o estaleiro apresenta a Whitehall, embarcação criada para demonstrar o trabalho da empresa com madeiras nobres.


O barco foi construído com Freijó, Moirapiranga, Jatobá e detalhes em Canela-preta, reunindo diferentes tonalidades e padrões naturais no acabamento. Embora a Whitehall não seja mais comercializada, a embarcação representa uma etapa do trabalho que ajudou a consolidar a especialização da Pelicanno na madeira.
Atualmente, o foco do estaleiro está nas lanchas clássicas personalizadas e nos modelos voltados para esportes aquáticos, como as ski boats. Ainda assim, a empresa mantém a produção de canoas canadenses, todas construídas para navegação e expostas no salão.


Para relembrar as origens da empresa, o estaleiro levou ao evento remos decorativos, que também estão disponíveis para venda.
Nos eventos, eu trago de novo esses remos para vender, para aproximar o público, conversar com as pessoas e mostrar o trabalho de marchetaria da empresa– fechou Rodrigo
São Paulo Boat Show 2026
O maior salão náutico da América Latina leva seus visitantes para uma verdadeira imersão no universo das águas. Mais de 170 embarcações, incluindo botes, lanchas e jets, tomam conta do pavilhão do São Paulo Expo e podem ser vistas de perto.


O público ainda encontra uma ampla variedade de equipamentos, motores, acessórios e serviços náuticos das principais marcas do mercado. Veículos off-road, projetos inovadores e atrações para toda família, como o NÁUTICA Talks, complementam o evento, que traz ainda o Espaço dos Desejos, área de luxo que expõe carros esportivos, helicópteros, relógios de alto padrão e até obras de arte.
Desconto para leitores NÁUTICA
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SÃO PAULO BOAT SHOW 2026
Quando: de 24 a 29 de setembro de 2026
Onde: São Paulo Expo (Rodovia dos Imigrantes, km 1,5 – Vila Água Funda, São Paulo – SP)
Horário: das 13h às 22h; no primeiro dia, abertura às 15h; no último dia, encerramento às 21h
Mais informações: no site do evento
Ingressos: site oficial de vendas
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O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!




