Entre João Pessoa e Ubatuba: Edu Guedes e sua lancha de 19 pés já estão em Sergipe

15/03/2022

Após um longo e minucioso trabalho de preparação, o paraibano José Eduardo Coutinho Guedes (ou Edu Guedes, como é conhecido) deu início neste domingo, 13 de março, à primeira etapa de uma pra lá de ousada expedição: a travessia João Pessoa-Ubatuba, no litoral Norte paulista. Serão 1300 milhas em uma lancha a motor de apenas 19 pés, uma aventura e tanto, em se tratando de uma embarcação desse porte, construída por ele mesmo, com compensado naval, e equipada com um motor de popa de 150 hp.

A largada, rumo ao Cabanga Iate Clube, em Recife (sua primeira escala), foi um acontecimento. Edu foi cercado pelo carinho da família e dos muitos amigos, que compareceram em massa à Jacaré Marina, na Cidade de Cabedelo, para desejar boa sorte ao navegador, que nasceu na capital paraibana, há 66 anos, mas está radicado no litoral Norte de São Paulo, onde é gerente da Marina Ubatuba.

Sob o signo da emoção, ele acionou o motor de popa da Maryas — o nome do barco é uma homenagem à avó de Edu, Maria Alice, às suas netas Maria Eduarda, Maria Clara e Yasmin (daí o “Y”)  e à Nossa Senhora — e ganhou as águas de Cabedelo escoltado por várias lanchas locais.

Na viagem, vai também o capitão amador e mecânico de barcos Luís Peixoto. Na primeira etapa, porém, a dupla contou com um tripulante inesperado: o filho de Edu, que decidiu navegar até Recife, para dar uma força para o pai.

Quatro horas depois, o trio era só alegria ao desembarcar na capital pernambucana, por ter nas mãos uma lancha que se provou bastante confiável. “Para percorrer 82 milhas, gastamos 72 litros de gasolina. Saiu tudo como o esperado, sem intercorrência nenhuma”, conta Edu. “O mar estava um pouco agitado, mas o casco cortou as ondas sem nenhum susto. Até aqui, comportamento do barco é nota dez”, avalia o comandante.

Depois de pernoitar no Cabanga Iate Clube, na manhã de segunda-feira, 14, o comandante apontou a proa do Maryas para o litoral de Alagoas. A ideia era desembarcar em Barra de São Miguel, 30 quilômetros ao sul de Maceió. Porém, por conta da maré estar muito baixa, Edu Guedes e Luís Peixoto decidiram pernoitar na capital alagoana, deixando para percorrer o trecho mais bonito da costa estado no dia seguinte. Já na madrugada de terça, dia 15, após o café da manhã na própria lancha, a dupla seguiu viagem, com direito a navegar algumas milhas pelas águas do Rio São Francisco, na fronteira de Alagoas com Sergipe, onde foi recepcionada por pescadores. Próxima parada: Praia do Mosqueiro, em Aracaju.

Da Praia do Mosqueiro, em Aracaju, o Maryas segue para a Praia Mangue Seco, cenário da novela Tieta, veiculada pela Rede Globo em 1989; dali, ao ritmo de 18 a 20 nós, pega o rumo de Salvador, a ensolarada capital baiana. Vamos continuar acompanhando.

O plano é navegar cerca de 100 milhas por dia, afastando-se da costa de 3 a 8 milhas e reservando pelo menos um dia para conhecer e curtir cada uma das escalas. Assim, a dupla planeja cumprir todo o percurso em 22 dias (de 13 a 29 de março). Tudo isso pelo simples prazer de realizar um cruzeiro a motor, provando que é possível viajar de lancha pelo Brasil. Mais do que isso, que é muito bom.

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    Quem fala pela náutica?

    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

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