Livro resgata história de 170 anos da Capitania dos Portos de São Paulo

Por: Redação -
21/02/2018

Uma pesquisa detalhada sobre a evolução da Capitania dos Portos de São Paulo, desde a sua criação por decreto imperial de 1857 até os dias atuais está contemplada em livro que é mais que um resgate histórico da mais importante unidade da Marinha do Brasil, instalada no Porto de Santos.

O livro traz registros da época da criação da Capitania e revela detalhes de cada uma de suas sete sedes em Santos, desde a primeira, em área do Arsenal de Marinha até a atual sede própria no cais santista, com farta documentação de imagens, tanto fotográficas como de telas do pintor Benedito Calixto.

Escrito pelo jornalista e pesquisador José Carlos Silvares, o livro conta ainda fatos diferenciados em suas 108 páginas, como o interessante relato do herói nacional tenente João Gomensoro Wandenkolk, filho do capitão dos Portos da época e que morreu ao defender a Esquadra brasileira durante a Batalha de Humaitá, na Guerra do Paraguai e está enterrado em Santos; trata de outros personagens da História do Brasil como José Bonifácio de Andrada e o Almirante Tamandaré e apresenta detalhes com farta iconografia de como eram o Porto e a Cidade de Santos no período de implantação da Capitania.

A relação completa dos capitães dos Portos também faz parte do livro, com as datas de suas gestões. E mostra ainda a dinâmica estrutura atual da Capitania, com suas divisões e departamentos, bem como seu novo distintivo com o pingente do Mérito Naval e o raio de sua jurisdição, abrangendo 379 municípios nos estados de São Paulo e Minas Gerais.

Em formato 30 por 30 centímetros, o livro tem caráter institucional e apresenta excelente qualidade gráfica e foi totalmente produzido pelo designer Paulo Henrique Farias. Os exemplares podem ser encontrados na sede da Capitania dos Portos, em Santos.

“Foi um grande prazer ter realizado esta obra, a convite da Capitania dos Portos de São Paulo”, diz o jornalista José Carlos Silvares. “Foram meses de pesquisas em acervos, jornais, bibliotecas e em pesquisas pessoais anteriores. E o resultado pode ser visto no livro, que tem ainda o depoimento de altas patentes da Marinha”.

Silvares, como jornalista, acompanhou grande parte da história da Capitania, desde 1973, quando iniciou as atividades jornalísticas e fazia a cobertura de ações e eventos no Porto de Santos. Tornou-se a partir daí especialista nas áreas de navegação e de serviços portuários. Sua estreia, em janeiro de 1974, curiosamente no mesmo dia da troca de comando na Capitania, foi a cobertura do incêndio do navio grego Ais Giorgis, um dos maiores acidentes ocorridos no porto santista.

Ele também é responsável pela pesquisa de 25 anos a respeito do maior naufrágio do Brasil em todos os tempos, e que motivou a edição do livro “Príncipe de Astúrias – o Mistério nas Profundezas”. E ainda do livro “Naufrágios do Brasil – uma Cultura Submersa”, com o relato de 35 naufrágios em sete estados brasileiros; “60 anos do Clube Estrela de Ouro”, sobre a colônia japonesa instalada em Santos; “50 anos da Fundação Lusíada”, sobre esta instituição santista.

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    Quem fala pela náutica?

    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

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