A região do Vale do Rhône, no Sudeste da França, une três dos maiores (para muitos) prazeres da vida: o de navegar, o de comer e o de brindar alguns dos melhores vinhos do mundo. E todos elevados à enésima potência. Nada como viver uma experiência gastronômica em Lyon (o epicentro mundial da culinária de alta qualidade) e, a partir dali, iniciar uma navegação pelo Rhône, o rio que nasce na Suíça, serpenteia a França e desagua no Mediterrâneo (próximo a Marselha), conectando verdadeiros santuários da enologia, como as cidades de Vienne, Tournon, Tain d’Hermitage, Valence, Montélimar, Bourg-Saint-Andéol, Roquemaure e Avignon.
A ideia é passar o dia experimentando vinhos, depois jantar em restaurantes estrelados, e navegar no ritmo de antigamente, mas em navios modernos, que oferecem serviços de alto padrão. Para isso, basta reservar cabine em uma das embarcações da britânica Emerald Waterways, ou da suíça Scylla AG, duas das empresas que navegam ao longo de um trecho de 250 quilômetros do rio Rhône (ou Ródano, em português), que concentra em suas margens a segunda maior extensão de vinhedos do país, atrás apenas de Bordeaux, com muitos dos produtores de tradição centenária.
No roteiro, cidades históricas, castelos, monumentos da época do Império Romano, restaurantes deliciosos, cenários bucólicos do interior da França, vinhedos e, é claro, as vinícolas, quase todas dotadas de caves irresistíveis, onde se pode degustar tintos, brancos, rosés e outros diversos estilos de vinho e das melhores safras.
“Para quem aprecia vinho de qualidade superior, a região de Rhône é um universo amplo, rico e de uma incrível diversidade de uvas, terroirs, aromas e sabores”, conta a sommelière Jessica Marinzeck, da Evino, a maior importadora brasileira de vinhos franceses e principal e-commerce da América Latina, com mais de 1 milhão de clientes, em cuja lista de rótulos se incluem, naturalmente, alguns dos melhores que o Rhône tem a oferecer.
Segundo a sommelière (o feminino de sommelier, profissional que estuda todos os segredos do vinho para ajudar os clientes a escolher a bebida certa), quando se fala em Rhône tem que ser no plural, porque a região se divide em duas partes: Norte e Sul.
O Rhône Norte (conhecido pelos franceses como Rhône setentrional) é uma faixa estreita e escarpada que começa na cidade de Vienne, logo abaixo de Lyon, e vai até Valence. Nessa parte do Rhône existe uma uva predominante: a Syrah, cultivada na região há mais de mil anos. Seus tintos têm aroma de carne de caça, de pimenta e frutas negras, enquanto os brancos são feitos da uva Viognier, rica em aroma de mel.
O Norte conta ainda com crus (zonas delimitadas com aptidão para produzir vinhos com características originais e de ótima qualidade) ou sub-regiões famosas, como Côte-Rôtie, Condrieu, Crozes-Hermitage, Hermitage e Cornas, e produtores como M. Chapoutier e Xavier Vignon.
Por sua vez, o Rhône Sul (chamado também de Rhône meridional) ocupa uma área bem mais ampla, que segue de Montélimar até a histórica Avignon, que foi sede do papado por volta do século 14 — exilado em Avignon, o Papa João 22 mandou plantar vinhedos; o papado voltou para Roma, mas deixou como legado os vinhedos de Châteauneuf-du-Pape, sub-região de onde saem alguns dos chamados crus do Rhône, cujos rótulos podem ser encontrados na Evino.
“No Brasil, somos os maiores importadores de Châteauneuf-du-Pape”, afirma Jessica, que auxilia na construção do portfólio de vinhos da Evino, além de ministrar cursos e compartilhar seus conhecimentos sobre a bebida nas plataformas digitais da empresa.
Por conta do clima mediterrâneo, mais quente, cultiva-se ali no sul do Rhône predominantemente a uva Grenache, além de um blend (mistura) com variedades como Syrah, Mourvèdre, Carignan e Cinsault. Daí a diversidade de vinhos apontada por Jessica. “Mas a qualidade é muito regular”, ressalva ela.
Alguns desses rótulos são belas expressões da uva Syrah. Outros, elaborados com uma ampla variedade de castas, entre as quais as uvas Grenache, que tem um papel importante na reputação do Rhône Sul, e Mouvèdre, bastante adaptada a climas mais quentes. “Mas, independentemente de seus nichos, os vinhos de entrada do Rhône entregam muito bem pelo preço. Eles raramente decepcionam”, garante Jessica.
Um dos vinhos mais celebrados do Rhône é o Hermitage, ou Ermitage. Segundo a lenda, o nome deve-se a Henri Gaspard de Stérimberg, um cavaleiro que voltou para a casa após a Cruzada Albigense no século 13 e teria se tornado um ermitão.
Entre as sub-regiões famosas do Sul destacam-se denominações como Côtes du Rhone Villages, Châteauneuf-du-Pape, Vacqueyras, e Gigondas e produtores como Xavier Vignon, M. Chapoutier e Castel, cujos vinhos têm sabores frutados, com notas de ervas e uma boa carga tânica. “Em três dias é possível visitar até seis vinícolas, divididas entre as duas regiões”, calcula a sommelière da Evino.
A maioria das caves tem estrutura para receber os turistas, com toda a cordialidade e espontaneidade características do sul da França. Algumas têm uma plaquinha na frente escrito “cave ouverte”, informando que você pode entrar para conhecer e degustar. Porém, em algumas vinícolas é preciso marcar hora antes, especialmente as de produtores menores”, alerta Jéssica.
Além do Vale do Rhône, o mapa do turismo do vinho francês inclui viagens fluviais a vitivinícolas de outras regiões, como Borgonha, Champanhe e Provençal. A França é o país com o maior número de canais navegáveis. Ao todo são mais de 9 mil quilômetros de vias fluviais em todo o país. “Muitas dessas vias serviram para escoar a produção das vinícolas no século passado.
Algumas compravam vinhos de Hermitage, que são tintos encorpados, e adicionavam a seus rótulos, para dar a eles mais complexidade. Não por acaso, as regiões vinícolas mais desenvolvidas são as regiões portuárias”, explica Jessica.
Para os turistas, outra possibilidade original de conhecer essas regiões é a bordo de uma pénichette, versão diminuta das “chatas”, ou péniches. Em toda a França, há cerca de 40 locadoras especializadas nessas embarcações, com capacidade para até 12 pessoas, calefação, sala de estar, cozinha equipada e banheiro com chuveiro de água quente.
A vida a bordo é simples, mas está longe de ser monótona. Além da diversão que é comandar um barco, levando família ou amigos, e fazer o itinerário no seu ritmo, o convés de sua pénichette é como uma sala de cinema, onde você assiste a belos cenários que vão mudando lenta e continuamente.
Não perca nada! Clique aqui para receber notícias do mundo náutico no seu WhatsApp.
Com planejamento e cooperação regional, rios do Mato Grosso do Sul abrem caminho para novos destinos náuticos e oportunidades de desenvolvimento sustentável
Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.
O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.
A NÁUTICA usa cookies para proporcionar a melhor experiência possível em nosso portal. Ao utilizar o nautica.com.br você concorda com a política de monitoramento de cookies. Para mais informações sobre como isso funciona, clique em "Política de privacidade".OkPolítica de Privacidade