Opinião: em vez de “esticar” os cascos, não seria mais sensato projetar barcos novos?

Por: Redação -
30/08/2018

Por José Mauro Cavalcanti*

O mundo náutico tem um apelo irresistível. Você começa com um barquinho e logo passa a pensar grande. Os estaleiros são os grandes cúmplices nisso, ao lançar (ou, o que é bem mais frequente, remodelar) seus barcos, dotando-os de novos atrativos.

Até tempos atrás os projetistas preocupavam-se apenas com a navegabilidade. A aparência dos barcos podia ser espartana, mas, se eles navegassem bem, tudo bem. Com a evolução do conceito de bem-estar a bordo e a necessidade mais intensa de lazer com a família, os barcos mudaram, especialmente porque a atividade náutica deixou de ser um programa exclusivamente masculino.

Mulheres e crianças passaram a frequentar cada vez mais os barcos e, hoje, têm voz ativa na escolha do modelo a ser comprado. E as lanchas tiveram que se adequar à nova realidade. Em função disso, três novidades relativamente recentes vieram para ficar: a configuração do casco com capota rígida, o chamado “hardtop”, o crescimento das plataformas de popa e a inserção de minicozinhas, ou “espaço gourmet” nelas.
São boas novidades, sem dúvida. Mas, quando adaptadas a um projeto de barco já existente, nem sempre trazem tantos benefícios assim.

Na verdade, quase sempre geram prejuízo. E o primeiro aspecto a ser comprometido é justamente a navegabilidade. O hardtop, por exemplo, reduz a ventilação natural no cockpit, o que, num país tropical como o nosso, é essencial para o conforto a bordo. Ao optar por esta configuração, muitos estaleiros foram obrigados a equipar seus barcos com aparelhos de ar-condicionado e gerador, equipamentos pesados que são instalados na casa de máquinas, ou seja, na popa. Na prática, isso significa um peso extra, que, por consequência, acaba levando à instalação de motores mais potentes e igualmente mais pesados. O acréscimo de peso passa, assim, a ser quádruplo, ocasionado pelo próprio hardtop, pelo ar-condicionado, pelo gerador e pela motorização mais forte.

O que mais se ouve é que tal “novo” modelo é “derivado” do anterior, que, por sua vez, foi uma “evolução” do original. E tome peso na popa…

Já as plataformas de popa aumentaram barbaramente de tamanho, deixando os barcos naturalmente mais pesados na parte de trás do casco. Com as atuais superplataformas, muitas delas ainda equipadas com elevadores hidráulicos, surgiu um acréscimo quíntuplo de peso nos barcos. E sempre concentrado na popa. Como se não bastasse, surgiram os “espaços gourmets”, que se tornaram itens de série na grande maioria das novas lanchas. Por serem massudas estruturas na própria plataforma, acrescentam ainda mais peso à popa da embarcação — e, assim, o aumento passa a ser sêxtuplo.

Não haveria nenhum problema nisso tudo se os barcos já fossem projetados levando em conta este peso na popa. Mas, infelizmente, nem sempre é o que acontece. Ao contrário, via de regra, os “novos modelos” têm sido meras adaptações em barcos já existentes. São remendos. Os estaleiros têm se limitado a esticar os barcos e acrescentar-lhes peso, desequilibrando os cascos. O que mais se ouve é que tal “novo” modelo é “derivado” do anterior, que, por sua vez, já fora uma “evolução” do original. Com acúmulo de peso na popa, os cascos têm seu equilíbrio comprometido e deixam de ser trimados. O resultado é que passam a navegar empopados. E mal.

Nada contra os modismos e as novidades no setor naútico, é claro. Mas é preciso ter em mente que lanchas continuam sendo barcos e, como tal, devem, acima de tudo, navegar direito. Do contrário, estão condenadas a ficarem paradas nas marinas, como simples (mas bem equipados) deques flutuantes.

*JOSÉ MAURO CAVALCANTI é mestre amador, velejador e navegante há quase 40 anos

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