Sonar dianteiro torna mais fácil e segura a navegação dos barcos de lazer
Saber a profundidade e o relevo do fundo onde navegamos é algo muito simples com os ecobatímetros, sondas e fishfinders comuns, mas estes úteis equipamentos não mostram se há algo à frente do barco — perigos como um banco de areia ou um tronco de árvore semissubmerso. Isto está mudando rapidamente, com a adoção cada vez maior do “sonar dianteiro” (forward sonar) pela indústria de equipamentos de navegação eletrônicos para barcos de lazer. Antigamente usada apenas para fins militares em submarinos e, até poucos anos atrás, em alguns instrumentos de uso civil, essa tecnologia permite visualizar não apenas o fundo, mas o que está avante do barco, abaixo da linha d´água. Como funciona você confere aqui, nas explicações do engenheiro Nicola Getschko a cinco questões básicas sobre equipamentos que oferecem esse recurso.
Como os sonares dianteiros operam?
O princípio é o mesmo dos ecobatímetros e fishfinders. Um transdutor instalado no casco emite um pulso de ultrassom, que é refletido parcialmente quando encontra um obstáculo sólido (o fundo, um peixe, rocha, tronco etc.). Este eco é captado pelo mesmo transdutor e o sonar então calcula a distância até o obstáculo pelo tempo decorrido entre a emissão do pulso e o retorno do eco.
Fishfinders e sonares dianteiros usam o mesmo transdutor?
Não. Sonares dianteiros usam transdutores especiais, com varredura em torno de 90 graus no plano vertical e a informação captada por eles permite formar uma imagem do fundo e à frente do barco. Modelos mais sofisticados podem operar em 3D, com varredura horizontal entre 30 graus e 60 graus mostrando uma imagem mais completa do fundo e, até mesmo, formar linhas isobatimétricas à frente.
Qual o alcance máximo do sonar frontal?
O alcance depende do tipo de fundo, de obstáculo e da profundidade. Fundos e obstáculos mais “duros” dão um resultado melhor. Normalmente, o alcance máximo, em condições favoráveis, gira em torno de 100 m, chegando a 130 m ou 150 m para fundos rochosos ou de coral. Mesmo com este alcance, o uso do sonar exige navegar com cautela e baixa velocidade para o piloto ter tempo de evitar um perigo.
Sonares que operam em tempo-real são melhores?
A vantagem desses aparelhos é a maior segurança para evitar eventuais obstáculos. Eles atualizam a imagem na tela mais rapidamente, porque têm maior capacidade de processar e mostrar as informações captadas pelo sensor de ultrassom. Assim, o piloto tem mais tempo para evitar os perigos. Por exemplo, se a demora para processar e exibir a informação for de 3 segundos, um barco que esteja navegando a 10 nós já terá percorrido 15 m nesse tempo, ou seja, estará bem mais perto do perigo do que a tela indica.
É possível adaptar um fishfinder comum para operar como sonar frontal?
Não. Teoricamente, esses aparelhos funcionam pelos mesmos princípios, mas diferem no modo de processar as informações, exibi-las no monitor e, principalmente, na velocidade que fazem isto. O sonar frontal exige equipamento mais sofisticado, preciso e rápido para ser eficiente, e isto faz seu preço ser bem mais alto que dos fishfinders e ecobatímetros comuns.
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Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.
O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!
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