6 perguntas para a nova secretária de Turismo de Ilhabela, Bianca Colepicolo

17/07/2019
Vida natural norteia política da nova secretária de Turismo de Ilhabela, Bianca Colepicolo (Foto Gilberto Ungaretti)

Num país cujos governantes costumam escalar ministros e secretários pelo critério de indicação política (o tradicional toma lá dá cá), ela se destaca por ter sido escolhida para o posto de secretária de Desenvolvimento Econômico e do Turismo de Ilhabela por critérios estritamente técnicos.

A prefeita Gracinha Ferreira bateu o olho em seu currículo e não teve dúvida de que atendia a todos os requisitos para ocupar a pasta, uma das mais importantes do município brasileiro com o maior índice de preservação da Mata Atlântica original. E que currículo! Ex-secretária adjunta de Turismo do Estado de São Paulo, Bianca Colepicolo, 39 anos, é mestre em comunicação, especialista em gestão pública e se preparou adicionalmente com cursos de relações públicas, marketing e design thinking para políticas públicas, sustentabilidade e cultura de paz e planejamento de turismo rural.

Praia de Castelhanos, em Ilhabela

“Sempre fui feminista, ambientalista e ativista. Tenho uma lista enorme de histórias para contar do tipo por não saber que era impossível, foi lá e fez”, se autodefine, mirando o repórter com seus olhos azuis cintilantes. Também foi presidente da Agência de Desenvolvimento Regional do Alto Tietê e diretora de Turismo e Cultura da Prefeitura de Guararema. Sem contar o seu “Lado B”, como ela mesma descreveu em um post no Facebook: formou-se em veterinária, cresceu em cima de uma farmácia, em São Paulo, que pertencia a seus pais, foi de seus avós e, antes deles, do seu bisavô.

Em busca de uma vida mais tranquila para seus três filhos, há 10 anos foi morar na Freguesia da Escada em Guararema. Vida tranquila que ela não vem tendo desde que assumiu a pasta do Turismo e Desenvolvimento Econômico em Ilhabela, dia 6 de junho de 2019, em cima da hora para organizar o Race Village, evento com 23 dias de atividades, paralelo à Semana de Vela, com 102 atrações (entre shows, palestras, peças de teatro, lançamento de livros e oficinas de pintura infantis), além de 97 sessões de cinema. Tudo gratuito. Entre suas prioridades a partir da Semana de Vela, está o foco em uma nova faceta do turismo de Ilhabela: o avistamento de pássaros e baleias, como ela conta na entrevista a seguir:

1 — O que pesou para a senhora aceitar o convite e assumir a Secretaria de Turismo de Ilhabela, que aliás, se chama Secretaria de Desenvolvimento Econômico e do Turismo?
Um dos motivos que me fez vir foi justamente o fato de o turismo ficar junto com o desenvolvimento econômico. Eu digo que a secretaria nem precisaria ter este nome. Porque turismo é desenvolvimento econômico. Então, a abrangência do trabalho me animou. Não dá para fazer turismo sem pensar em trabalhar com os empreendedores. Outro motivo foi o fato de a prefeita ter usado o critério técnico na minha escolha, que é nisso que eu acredito.

2 — A senhora assumiu a secretaria no dia 6 de junho e um mês depois viria a Semana de Vela. Como foi enfrentar esse desafio?
Precisei de uma semana para tomar pé da situação e então fui à luta. O desafio foi um pouco maior do que fazer o evento porque houve um agravante, que foi o fim da cota de patrocínio. Até o mês de abril deste ano, a Prefeitura podia patrocinar eventos. Mas, a 60 dias da Semana de Vela, a lei da cota de patrocínio foi suspensa, corretamente. Então, nós tivemos que organizar o Race Village na raça. O que ajudou foi que a equipe da secretaria, formada só por funcionários efetivos, é muita técnica e muito boa. E fez a coisa acontecer.

“Ilhabela tem praias maravilhosas. Tem também muito verde e mais de 300 cachoeiras. São 84% de área de Mata Atlântica original, preservada. Tudo isso é um convite para o turismo”

3 — O Race Village está mais simples, mas ao mesmo tempo mais agradável…
Ilhabela escolheu a marca “vida natural”. Então, temos que impactar o mínimo possível na paisagem e no modo de vida da população. Acho que ficou bom. As escolhas foram também muito em função de racionalizar os custos.

Race Village, Semana de Vela de Ilhabela, 2019 (Foto Marco Yamin)

4 — Além da Semana de Vela, quais são os melhores motivos para se conhecer Ilhabela?
Ilhabela tem praias maravilhosas. Tem também muito verde e mais de 300 cachoeiras. São 84% de área de Mata Atlântica original, preservada. Tudo isso é um convite para o turismo. A possibilidade de fazer trilhas, de conhecer as cachoeiras, etc. Tudo isso já é bem conhecido. Agora, nós pretendemos estimular novas facetas do turismo ecológico, como o avistamento de pássaros e de baleias. O turista que sente atração pelo avistamento de pássaro é uma pessoa qualificada, com um perfil sócio-econômico interessante, que vem para cá com o intuito de preservar, que fica bastante tempo, que precisa de guias, e muitas vezes vem de fora do país. Nós estamos definindo seis locais onde serão instaladas torres de avistamento. Nada menos que 317 espécies de pássaros podem ser vistas por aqui. Sem contar os pássaros de oceano, um adicional de Ilhabela.

“Em breve, Quem for À praia de Castelhanos poderá viver a experiência de desfrutar uma refeição junto com uma família caiçara”

5 — Por outro lado, a presença das baleias pode reforçar o turismo náutico?
Foi um presente que ganhamos este ano. A gente não tem controle sobre isso, não espera que aconteça, mas aconteceu. Está todo mundo encantado. No último domingo, tivemos a notícia de um filhotinho, que tem grande chance de ter nascido aqui. Estamos pensando em fazer um concurso entre as crianças, na volta às aulas, para dar um nome para essa baleinha. A gente ainda não sabe com certeza por que motivo as jubartes vieram para Ilhabela. Podem estar buscando comida. Ou investigando novos territórios. Mas, segundo os especialistas, é provável que elas voltem novamente no ano que vem. E a gente quer estar preparado para avistar, seja por terra ou, especialmente, pelo mar. Quem estava pensando em ir para Abrolhos ver baleias agora poderá vir para cá. A prefeitura vai iniciar um processo de certificação de guias e barcos para que o avistamento seja técnico. O fato de a gente assumir como uma atividade turística ajuda bastante na preservação, porque a população se envolve mais.

6 — Além do avistamento das baleias, há novidades para quem gosta de navegar?
Sim! Temos um projeto de preservação das comunidades caiçaras, que são as últimas do litoral Norte de São Paulo: o projeto, chamado Comer e Viver. A Fundação Banco do Brasil, junto com o Instituto Ilhabela Sustentável, fez um trabalho com sete famílias que moram em Castelhanos resgatando os pratos e os costumes alimentares locais. Essas famílias têm interesse em divulgar esses pratos. Mas não têm recursos para montar um restaurante. Então foi feito um trabalho de resgate com eles. Um resgate das técnicas da culinária caiçara. O desafio é permitir que eles sirvam essa comida em suas próprias casas — pondo mesas na varanda, por exemplo — de forma regular e legal, com alvará de segurança sanitária. Para isso, fizemos visitas técnicas a essas sete famílias e agora estamos com uma consultora junto a eles fazendo treinamento e a elaboração de um manual de boas práticas, o que vai permitir que elas sejam certificadas pela Vigilância Sanitária. Para algumas famílias, com problema de estrutura nas casas, estamos pedindo o cartão Morar Bem, que oferece R$ 10 mil para a compra de material de construção. Com isso, vamos incluir essas pessoas no cenário econômico, e, ao mesmo tempo, agregar valor ao turismo náutico. Quem for a Castelhanos poderá viver a experiência de desfrutar uma refeição junto com uma família caiçara. Tudo isso faz parte de um conceito de turismo regenerativo, que eu defendo. Esse tipo de turismo consiste em usar as atividades de turismo para restaurar as características geográficas e culturais do lugar. Esse é tom que pretendemos impor ao turismo de Ilhabela daqui para frente, que é a vida natural.

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    Quem fala pela náutica?

    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

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