Desafio do tempo


As condições de vento exigiram novamente que a Comissão de Regatas buscasse todas as opções para realizar ao menos uma prova nesta quinta-feira (9). Foram duas horas e meia de espera, recompensadas por uma regata de percurso triangular que se tornou muito técnica diante das dificuldades impostas pela variação do vento, percurso reduzido e correnteza.
Na classe ORC Geral, a vitória no tempo corrigido foi do Itajaí Sailing Team, do Iate Clube de Santa Catarina. “Em regata de percurso a gente tem de cuidar muito da tática e da velocidade do barco. É muito difícil de gerenciar e qualquer erro é fatal. Vamos aguardar as regatas barla-sota (entre boias) que nivelarão mais as disputas”, contou o comandante da equipe de Florianópolis, Marcelo Gusmão.
Na classificação geral da ORC o barco catarinense ocupa a quinta colocação. A liderança é do Seu Tatá (RJ), seguido pela tripulação uruguaia do Cristabella. A situação passou a indicar a possibilidade de um duelo equilibrado na classe C30. O Loyal CA Technologies chegou em segundo, atrás do vencedor +Realizado, resultado que leva o barco de Ilhabela à liderança do Campeonato Brasileiro e da Ilhabela Sailing Week, com dois pontos de vantagem sobre o Caballo Loco em ambas as disputas.
“Fizemos as três boias em primeiro lugar e no final, de contravento, o +Realizado chegou antes do que a gente no vento e venceu a regata. A CR salvou mais um dia com uma bela regata”, relatou o timoneiro do Loyal, Marcelo Massa, atual campeão brasileiro de C30. “Tudo ainda pode acontecer, mas a tendência a partir de agora é de que a briga fique entre nós e o Caballo Loco. Não partiremos para match race, vamos continuar velejando com tranquilidade. Existe respeito na água e amizade fora dos barcos entre as duas tripulações”, assegurou Marcelo.
O dia também foi favorável ao Asbar II, do Yacht Club de Ilhabela (YCI). O veleiro de Sérgio Keplacz venceu a única regata da quinta-feira e assumiu a liderança na classificação geral da RGS. “A regata foi excepcional. Na largada todos foram para o lado da CR e nós optamos pela boia, de vela à direita. Velejamos à frente dos adversários de ponta a ponta”, comemorou o comandante do Asbar II.
O Inaê Transbrasa aproveitou a oportunidade para permanecer entre os primeiros colocados da RGS. O outro barco do YCI é o líder na divisão A e quarto colocado na geral. “Fizemos manobras casco a casco com o Kalymera numa regata de ventos muito rondados. Nosso barco é pesadão e o percurso foi encurtado. Não deu para abrir muito tempo em relação aos adversários”, relatou o tático do Inaê, Gereba Carvalho.
Na estreante classe HPE 30, Renata Bellotti assumiu o leme no lugar do irmão Marcelo, que passou a competir de Star. A velejadora levou o Capatosta à primeira vitória em Ilhabela. “Foi meio na sorte. Os outros dois barcos nos ultrapassaram e achei que tudo estava perdido. Mantivemos a calma, conversamos muito a bordo e conseguimos fazer as regulagens necessárias. A chegada foi estonteante. Vencemos o Tahiti Nui por alguns centímetros”, respirou Renata, aliviada.
Para completar o vitorioso dia em família, Marcelo Bellotti estreou na classe Star com duas vitórias em duas regatas ao lado de Pedro Bolder. A dupla paulista lidera a competição, seguida pelos argentinos Torkel Borgstrom e Juan Pablo, com os campeões sul-americanos Marcelo Fuchs e Ronald Seifert em terceiro lugar. A HPE 25 também correu suas duas primeiras regatas com vitórias de Atrevido, com Fábio Bocciarelli, e Repeteco Take Ashawer, com Marcos Ashawer. Entre os barcos de oceano, pelo segundo dia seguido o Magia Energisa com Lars Grael e família foi o fita azul, primeiro a cruzar a linha de chegada.
Líderes de cada classe até esta quinta-feira
ORC Geral e ORC A – Seu Tatá (Paulo Cesar Haddad.)
ORC B – Santa Fé (Nelson Avila Thomé Jr.)
ORC C To Nessa (Renato Faria)
IRC – Santa Fé (Nelson Avila Thomé Jr.)
C30 – Loyal/CA Technologies (Marcelo Massa)
Brasileiro de C30 – Loyal/CA Technologies (Marcelo Massa)
HPE 30 – Thaiti Nui (Juninho de Jesus)
HPE 25 – Atrevido (Fábio Bocciarelli)
Clássico – Cangrejo (Ricardo Carvalho)
Mini – Jacaré (Pedro Fukui)
RGS Geral – Asbar II (Sérgio Klepacz)
RGS A – Inaê/Transbrasa (Bayard Umbuzeiro Filho)
RGS B BL3 Urca (Pedro Rodrigues)
RGS C De Boot (Robert Van Horn)
RGS Cruiser Boccalupo (Claudio Melaragno)
Bico de Proa A – Viveree (Atanawe Boechat)
Bico de Proa B Cocoon (Luiz Caggiano)
Star – Marcelo Bellotti/Pedro Bolder
Fotos Marcos Méndez/SailStation e Fred Hoffmann
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Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.
O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!
















