Em clima de show, tem início a Semana de Vela de Ilhabela 2017
Depois de uma abertura memorável na noite de ontem, com direito a show pirotécnico e a maciça presença de moradores e turistas na Race Village, além de autoridades — entre as quais o prefeito de Ilhabela, Márcio Tenório, e o comodoro do Yacht Club Ilhabela, José Yunes –, têm início hoje as provas da 44ª Semana de Vela de Ilhabela. Os competidores (são 123 barcos inscritos e cerca de 900 velejadores, divididos em oito classes) largam com vento nordeste de 6 a 8 nós, em um domingo ensolarado, com a temperatura amena de 21 ºC, para disputar a regata Alcatrazes por Boreste Marinha do Brasil. O maior evento de vela oceânica da América Latina segue até o próximo sábado, dia 15, quando serão conhecidos todos os vencedores.
“A abertura da Semana de Vela, ontem, ultrapassou a nossa expectativa. Tivemos a vila completamente lotada em um final de semana que colaborou para isso. E, uma vez que a nossa cidade tem esse potencial turístico, fomentar eventos desse porte tem levado Ilhabela para o Brasil e o mundo, já que a competição de vela é o maior evento náutico da América Latina”, avaliou Márcio Tenório, esta manhã, antes de embarcar no barco Zorro, que pertence ao Yacht Club Ilhabela, organizador da competição, e cuja tripulação é toda formada por velejadores da cidade.
As regatas acontecem após o tradicional desfile de barcos, que atrai centenas de pessoas ao píer da vila, também no centro da cidade. São três tipos de regata: as de percurso longo, médio e barla-sota. As primeiras acontecem neste domingo e exigem mais dos velejadores. A Alcatrazes por Boreste Marinha do Brasil tem 55 milhas e pode ser disputada pelos maiores veleiros. A Toque-Toque por Boreste tem 25 milhas náuticas e a Renato Frankenthal (só para HPE25), 10 milhas náuticas. As classes que compõem a competição são ORC, IRC, Clássicos, RGS e Bico de Proa, nas regras de rating, e HPE 25, HPE 30 e C30, entre os de design único. Na saída, os barcos foram acompanhados de perto pelo navio Garcia D’Avila (G-29), da Marinha.
“Foi um compromisso assumido durante a campanha resgatar a Semana de Vela para o centro da cidade, para que ela possa fomentar a economia e também para que a população de Ilhabela interaja com os turistas que nos visitam e possam acompanhar a programação cultural e de entretenimento”, frisou o prefeito, acrescentando que a expectativa é receber 30 mil visitantes durante o mês, que prevê, ainda, outro grande evento após a Semana de Vela — o Ilhabela Boutique Show, a ser realizado entre os dias 20 e 23, no Saco da Capela, com entrada gratuita.
Atletas que disputaram a Rio-2016 estão confirmados na 44ª Semana de Vela de Ilhabela, entre eles Samuel Albrecht e Fernanda Decnop, que competiram nas classes Nacra e Laser Radial, respectivamente, além de André Fonseca, o Bochecha, único representante do Brasil na Volvo Ocean Race. Confira uma galeria especial de fotos do desfile de barcos e também da largada da competição.
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Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.
O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!
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