Fórum Náutico da ANB destaca vocação da Bahia para liderar economia do mar
A 2ª edição do Fórum Náutico Internacional da ANB encerrou sua programação em Salvador reforçando a vocação da Bahia para assumir papel estratégico na economia do mar. Realizado em dois dias, o encontro reuniu especialistas, gestores públicos, empresários, atletas e representantes de instituições nacionais e internacionais em uma série de painéis voltados ao desenvolvimento sustentável das atividades ligadas aos oceanos, rios, lagos, portos, marinas, turismo, pesca e indústria naval.
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Ao longo da programação, o evento discutiu temas como integração porto-cidade, esportes náuticos, turismo náutico e religioso, infraestrutura de marinas, pesca e aquicultura, gestão costeira, liderança feminina na náutica, indústria naval, geopolítica dos oceanos e cases de sucesso ligados à economia do mar.
A proposta central do fórum foi mostrar que o mar pode ser muito mais do que paisagem ou lazer: ele é vetor de desenvolvimento econômico, geração de empregos, inovação, inclusão social, turismo e soberania.
Portos integrados às cidades
A abertura dos debates destacou a importância da relação entre portos e cidades para o desenvolvimento sustentável das regiões costeiras. No painel Integração Porto-Cidade, especialistas defenderam que os municípios precisam compreender melhor as atividades portuárias e aproximá-las da população.


A secretária do Mar de Salvador, Maria Eduarda Lomanto, ressaltou a criação da primeira secretaria do tipo no Brasil e lembrou que a capital baiana cresceu a partir do mar. Para ela, a cidade precisa olhar o porto como espaço de desenvolvimento, com governança, gestão pública e comunicação mais eficiente com a sociedade.
O representante da Codeba, Antônio Gobbo, apresentou experiências de integração envolvendo portos administrados pela companhia e citou impactos em Salvador e em cidades do entorno, como Candeias, Ilha de Maré, Simões Filho e Lauro de Freitas. Segundo ele, o desenvolvimento portuário deve considerar sustentabilidade, descarbonização e comunidades que vivem próximas às áreas de operação.
O espanhol Alberto Fuentes Losada, secretário-geral do Porto de Vigo, apresentou o case do porto europeu, que se reconectou à cidade a partir de uma estratégia iniciada em 2014, com comissões colaborativas, especialistas e ações voltadas a pesca, tecnologia e sustentabilidade.
Esportes náuticos como inclusão e superação
O painel sobre Esportes Náuticos: Educação, Saúde, Cidadania e Inclusão destacou o papel do esporte como ferramenta de transformação social, preparação emocional e superação.


A psicóloga espanhola Delfina Vicente Santiago, especialista em alta performance, defendeu que o trabalho mental é tão importante quanto o físico no desempenho esportivo. Ela também ressaltou o chamado “treinamento invisível”, que envolve alimentação, sono, disciplina e capacidade de lidar com ego, sucesso e frustração.
O remador paralímpico baiano Renê Campos, medalhista de bronze em Tóquio e médico, contou sua trajetória de superação após uma lesão medular e defendeu melhores condições de treinamento para atletas do remo em Salvador. Já o velejador Bernardo Peixoto, número 1 do Brasil no ranking SSL e em campanha para Los Angeles 2028, destacou o potencial da Baía de Todos os Santos para a vela.
Turismo náutico, religioso e regional
O fórum também apontou caminhos para ampliar o turismo na Bahia a partir da conexão entre turismo náutico e religioso. O painel mediado por Pedro Costa, presidente do CBTUR, tratou os dois segmentos como vetores de desenvolvimento regional.


A ex-secretária de Turismo da Galícia, Nava Castro, apresentou o case do Caminho de Santiago de Compostela e mostrou como a região conseguiu duplicar sua atividade turística em uma década. Ela também destacou a criação de uma rota marítima ligada ao caminho, com etapas litorâneas que se transformaram em novos produtos turísticos.
Representantes do Sebrae e da Secult apresentaram dados sobre o crescimento turístico da Bahia. O secretário Maurício Bacelar ressaltou que o estado pode explorar mais de 50 segmentos turísticos sem depender apenas da alta temporada, com investimentos em capacitação e infraestrutura em cidades com potencial para o turismo religioso.
Marinas e crescimento ordenado
A expansão da infraestrutura náutica foi outro ponto central do fórum. No painel Investimentos em Infraestruturas Náuticas, Marinas e Afins, os participantes defenderam que a Bahia tem condições de crescer de forma ordenada, desde que os projetos sejam acompanhados por estudos técnicos, ambientais e estratégicos.


O especialista Mário Bandeira alertou que a maior parte da estrutura náutica tem impacto ambiental e, por isso, exige estudos de viabilidade detalhados. Ao mesmo tempo, destacou o potencial de geração de empregos e de fortalecimento de atividades como passeios de escuna, lanchas, pesca esportiva e avistamento de baleias.
O economista José Zacarias, do Sebrae Bahia, apresentou um mapeamento de oportunidades náuticas no estado e defendeu a criação de bases de apoio a cada 30 ou 50 milhas para estimular a navegação. Já Bianca Colepicolo, gestora de projetos estratégicos para o desenvolvimento náutico, ressaltou que o turismo náutico deve ser pensado como destino integrado, e não apenas por municípios isolados.
Pesca, gastronomia e sustentabilidade
A relação entre pesca, aquicultura e gastronomia também ganhou destaque. A professora de gastronomia Fabiana Mortimer Amaral defendeu que a diversidade de saberes e sabores do Brasil precisa ser valorizada com formação, respeito aos ecossistemas e educação ambiental.


O diretor da Bahia Pesca, George da Hora Jr., apresentou dados sobre a produção de tilápia e reforçou a importância do rastreio, do manuseio adequado e da responsabilidade socioambiental antes de o pescado chegar à mesa.
A chef Angeluci Figueiredo, do restaurante Preta, na Ilha dos Frades, levou ao debate a experiência prática de quem depende do barco, da maré e dos ciclos da natureza para operar. Ela defendeu cardápios que respeitem o período de defeso e práticas de redução de resíduos.
O consultor português Nuno Antunes Nobre alertou para a sobrepesca em escala global e defendeu políticas públicas que valorizem a pesca artesanal, o bem-estar dos peixes na aquicultura e a participação das comunidades em projetos de educação ambiental.
Gestão costeira e planejamento do uso do mar
No painel Gestão Costeira: Lagos, Rios e Oceanos Sustentáveis, os participantes destacaram que práticas sustentáveis e controle de poluentes são condições essenciais para a economia azul.


O coordenador-geral do Gerenciamento Costeiro e Marinho do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Nicolodi, lembrou que o Brasil tem legislação sobre gerenciamento costeiro desde 1988, mas que a adesão depende de estados e municípios. Ele defendeu o Planejamento Espacial Marinho como ferramenta para organizar os diferentes usos do mar e reduzir conflitos.
A advogada Núbia Costa afirmou que políticas públicas precisam nascer no território e valorizar o protagonismo das comunidades. O pesquisador e instrutor de mergulho Maurício Carvalho apresentou o potencial dos naufrágios para o turismo subaquático no Brasil, enquanto o geógrafo Camilo Botero destacou a relevância econômica e social do turismo de praia.
Mulheres na liderança da economia náutica
O painel A Náutica por Elas mostrou a presença crescente de mulheres em posições estratégicas da economia do mar.


A gerente de projetos da Semar, Eliana Dumet, apresentou o projeto Águas da Bahia, que mapeia 53 municípios, 46 ilhas, oito bacias hidrográficas e 500 pontos de conexão ao longo de 1.200 km de costa.
A empresária Leilane Loureiro, proprietária da Bahia Marina, lembrou a história do empreendimento e afirmou que marinas integradas à cidade podem ser sinais de desenvolvimento e revitalização urbana. A gestora da Clipper Race, Flávia Goffi, apresentou os números da regata de volta ao mundo, que movimenta turismo, manutenção, hotelaria, gastronomia e eventos nas cidades por onde passa.


A velejadora e empresária Cecilia Avena, sócia da Aloha Náutica, compartilhou experiências de travessias oceânicas entre França e Brasil e destacou a importância do conforto e da segurança em embarcações de longa distância.
Indústria naval e geração de empregos
A vocação brasileira para a indústria náutica e naval foi debatida em painel mediado por Marcelo Sacramento. Os participantes apontaram gargalos e oportunidades para transformar o setor em vetor de desenvolvimento econômico e social.


Miguel Andrade Filho, do SENAI CIMATEC MAR, apresentou informações sobre o novo campus dedicado à economia do mar, ligado à pesquisa, monitoramento e operações no pré-sal. Mário Moura, da Enseada Paraguaçu, falou sobre o potencial da indústria naval brasileira e citou a demanda por novas embarcações de apoio offshore.
A secretária Mila Paes, da Semdec Salvador, defendeu que o mar seja tratado como plataforma econômica e citou cases de cidades como Itajaí, Angra dos Reis e La Rochelle. Já Leandro “Mané” Ferrari, da Acatmar, mostrou o crescimento do setor náutico em Santa Catarina, onde o número de empresas saltou de 94 para mais de mil em uma década.


O representante da SDE Bahia, Marcelo Sampaio Oliveira, reforçou a necessidade de políticas públicas integradas, com incentivo, crédito e qualificação funcionando como uma única estratégia de desenvolvimento.
Amazônia Azul e soberania
O painel Oceanos, Economia e Geopolítica Mundial defendeu que o Brasil precisa resgatar sua vocação marítima para fortalecer sua soberania. A discussão teve como foco a importância da Amazônia Azul para o posicionamento estratégico do país.


O economista Eduardo Athayde, do Worldwatch Institute, afirmou que a economia do mar começa no município e que Salvador, como primeira capital do Brasil e capital da Amazônia Azul, tem papel importante nesse processo.
O comandante do 2º Distrito Naval, vice-almirante Carlos Henrique Zampieri, destacou a importância da defesa da soberania nacional e citou avanços recentes da Marinha, como navios-patrulha e as fragatas classe Tamandaré. Ele também alertou para novos desafios, como drones, combates autônomos e navios mercantes autônomos.
Cases de sucesso encerram programação
O fórum foi encerrado com a apresentação de cases ligados à economia do mar em São Paulo, Salvador e Recife.


José Manoel de Oliveira Reis, da SPTrans, apresentou o Aquático SP, primeiro modal hidroviário integrado ao Bilhete Único em São Paulo. O sistema transporta atualmente 2.500 pessoas por dia e já ultrapassou um milhão de passageiros em fase experimental.


O diretor da Mazure Saneamento, Marcelo Sacramento, apresentou a trajetória da empresa baiana, com projetos de dessalinização, tecnologia de limpeza de membranas, reuso de água e meta de neutralidade de carbono até 2030.
Já Antônio Fazio, da Recife Marina, mostrou o processo de revitalização do Recife Antigo com o projeto Porto Novo Recife, que recuperou áreas portuárias, restaurou galpões, atraiu restaurantes, hotel, centro de eventos e estrutura voltada ao turismo náutico.
Bahia no centro da economia do mar
Ao reunir diferentes áreas da cadeia náutica, o 2º Fórum Náutico Internacional da ANB mostrou que o desenvolvimento da economia do mar depende de planejamento, integração e visão de longo prazo.


A Bahia aparece nesse cenário com atributos estratégicos: extensa costa, baías, ilhas, tradição marítima, potencial turístico, vocação esportiva, patrimônio religioso, indústria naval, pesca, gastronomia, marinas e posição geopolítica relevante.
O resultado dos debates aponta para um caminho comum: transformar o mar em política pública, negócio, cultura, educação e desenvolvimento sustentável. Para isso, especialistas defenderam governança, qualificação profissional, infraestrutura, preservação ambiental e articulação entre poder público, iniciativa privada, academia e comunidades costeiras.
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Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.
O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!
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