Tietê navegável


Ônibus anfíbio navega pelo Rio Tietê, na altura do Cebolão, em São Paulo, na manhã desta quarta-feira (17). O passeio faz parte da 3ª edição do projeto “Por uma Cidade Navegável”, promovido pelo São Paulo Boat Show. A iniciativa tem como objetivo conscientizar a população e a opinião pública sobre os benefícios de recuperar os rios urbanos. A experiência, inédita em São Paulo, levou moradores de várias regiões da cidade para um passeio improvável. Do ônibus, que navegava tranquilamente pelas poluídas águas do Tietê, era possível ver o aumento do número de carros na marginal, na região da Ponte do Remédios. O ônibus anfíbio foi trazido do Rio de Janeiro para o desafio que foi completado com sucesso. Apesar dos detritos sólidos, como sacolas, terem se agarrado ao eixo e ao hélice da embarcação, os três passeios programados foram realizados sem interrupções.
Alguns dos convidados a bordo voltaram a navegar no rio após muitos anos longe das águas desse símbolo da capital paulista. Ricardo Linares Pereira, Professor de Práticas Esportivas da Universidade de São Paulo e remador, passou boa parte da juventude nessas águas. “O rio já estava um pouco poluído, mas ainda era possível praticar muitos esportes aqui. Com a construção das marginais a poluição piorou muito e os clubes se mudaram para outros locais da cidade”. O professor Ricardo, que rema há quase 50 anos, é um dos poucos paulistanos que tiveram o privilégio de navegar no trecho urbano do Tietê. “No começo da década de 1970 todas as competições aquáticas aconteciam aqui no Tietê, mas agora o único centro de desenvolvimento do remo fica na USP”, conclui Ricardo.
Outra passageira que viveu os bons tempos do Tietê era Marlene Maia Mattos, de 80 anos, ela aprendeu a nadar no Tietê com o pai e também, na juventude, competiu em regatas de remos e provas de natação no rio. “É muito triste ver que o rio está morto. Eu nadava com peixes e quase todas as lembranças da minha infância estão ligadas ao Tietê. Eu espero vê-lo limpo e vivo novamente e quem sabe eu possa competir aqui de novo, já que o remo e a natação ainda são muito presentes na minha vida”, disse Marlene que, triste com a situação do rio, chorou emocionando todos a bordo.
O ônibus anfíbio que navegou no Rio Tietê na manhã fria desta quarta-feira veio do Rio de Janeiro. Na cidade maravilhosa ele leva turistas em passeios pela Baía de Guanabara. “Hoje tive a certeza que este rio pode ser uma ótima alternativa para desafogar o trânsito paulistano. Nosso ônibus foi desenvolvido para o turismo, mas, com essa experiência, pude ver que uma tecnologia similar pode ser usada como meio de transporte”, declarou Paulo Valadares, que comanda os passeios turísticos no Rio de Janeiro ao lado de Elidio Guerra e Lucas Toledo.
O passeio do ônibus anfíbio da ação “Por uma Cidade Navegável” zarpou do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) e percorreu o trecho entre o DAEE e a Ponte dos Remédios, chamando a atenção dos que por ali passaram.
Fotos: Divulgação
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Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.
O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!
















