Volvo Ocean Race Itajaí atrai quase 440 mil pessoas nos 18 dias de evento

Por: Redação -
25/04/2018

As 439 876 mil pessoas que passaram pela Vila da Regata, em Itajaí, comprovam em números o sucesso desta terceira edição da Volvo Ocean Race realizada na cidade. Entre 5 e 22 de abril, o evento teve um impacto econômico estimado de R$ 82 milhões, segundo expectativa dos organizadores do Itajaí Stopover. “Foi um grande desafio, porém muito positivo. As outras edições já tinham sido muito bem avaliadas pela organização internacional e, com isso, tínhamos que atender a estas expectativas. Agora é esperar pelo andamento das próximas tratativas. Há uma grande possibilidade de, mais uma vez, recebermos a Volvo Ocean Race”, celebra o presidente do Itajaí Stopover, Evandro Neiva.

O diretor da Volvo Ocean Race, Antonio Bolaños afirma estar muito feliz com o resultado da parada brasileira, principalmente pela participação do público e êxito comercial obtido pela regata. Ele comenta que somente com a definição final de percurso e novidades previstas é que será informado oficialmente quais cidades farão parte da próxima edição da competição. “Provavelmente em julho de 2019 é que teremos este anúncio oficial”, relata Bolaños.

Na Vila da Regata, nos últimos 18 dias, o que se observou foi um público brasileiro e estrangeiro acompanhando as diferentes atividades oferecidas em uma programação que contemplou educação ambiental e náutica, lazer e gastronomia. Neste último item, destaque para a grande aceitação do cardápio oferecido pelos restaurantes da área gastronômica, com diversas opções, incluindo pratos locais que resgatam a festa típica da cidade, a Marejada.

Rômulo Pedrolho Lora participou do evento com uma equipe de nove pessoas. Pela terceira vez participando de uma Volvo Ocean Race no Brasil, ele se diz satisfeito com o movimento. “Não temos ainda os números exatos, mas vendemos bem. Só para se ter uma noção, se falarmos do camarão à milanesa ultrapassamos em um único final de semana 300 porções, algo bem acima do que esperávamos”, comenta.

Grande procura e agilidade para não deixar o tempo na fila acima do aceitável também foram desafios da equipe do Chef Ricardo Pereira. Ao todo, 12 profissionais tiveram a missão de servir receitas saborosas, entre elas os risotos. “Em todo o evento eu esperava, por exemplo, servir 1,5 mil porções do Risoto de Camarão e Lula. Mas chegamos a 3 mil porções e a certeza de que queremos estar de volta na próxima edição da Volvo Ocean Race Itajaí”, destaca Pereira.

Ações de sustentabilidade focaram um futuro promissor

Com a participação de 500 pessoas, o seminário técnico-científico O Futuro dos Oceanos: Combate ao Lixo do Mar teve um importante marco que foi a assinatura da Carta Compromisso de Mares Limpos. O documento firma parceria entre a Organização das Nações Unidas (ONU) e o município, primeira cidade brasileira a assumir o compromisso. O documento prevê quatro pontos de atuação: trabalhar no sentido de publicar novas leis, em conjunto com os municípios vizinhos, para criação de uma política regional de combate ao lixo no mar; informar os cidadãos de Itajaí sobre a importância deste tema, através de campanhas de educação ambiental, palestras, seminários e workshops; encorajar e fomentar a iniciativa privada para que realizem práticas sustentáveis que visem a redução do lixo marinho, especialmente o plástico; e minimizar o uso de plástico nas atividades do executivo municipal.

Foram mais de 20 ações de sustentabilidade ao longo da programação. Outro destaque foi a Hortinha dos Pequenos Heróis, realizada pelo Itajaí Shopping. Com a distribuição de 1,5 mil mudas de hortifrúti, o projeto teve como objetivo conscientizar crianças de quatro a 12 anos sobre novas possibilidades de reuso do plástico, incentivando a criação um vaso com muda, a partir de uma oficina com dicas sustentáveis. As garrafas pets usadas neste projeto foram recolhidas da praça de alimentação do empreendimento e também foram doadas.

Ainda como parte das ações educativas promovidas na Volvo Ocean Race Itajaí, teve o  Programa de Visitação de Escolas, que atendeu mais de 9 mil alunos em dez dias, e contou com a colaboração de 60 voluntários.  Todas as crianças participantes neste projeto receberam copo ecológico e material informativo. Foram mais de 20 atividades do roteiro, muitas ações de sustentabilidade e mais de 100 escolas que fizeram a visita guiada. “Diariamente, 20 escolas passaram na Vila da Regata, e conseguimos atender 50 grupos a mais do que o previsto”, comenta o presidente do Itajaí Stopover, Evandro Neiva.

Nesta edição trabalharam 380 voluntários que atuaram em diferentes áreas do evento: nos team bases, atrações, área náutica, media center e nas visitas guiadas com as escolas.

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    Quem fala pela náutica?

    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

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