Em família
É comum na Ilhabela Sailing Week as tripulações serem formadas por alguns amigos e familiares. Neste ano, por exemplo, Lars Grael comanda o Magia Energisa, ao lado de esposa, filha e cunhada. O veleiro Áries III, que pertenceu à tradicional família Zarif, compete em Ilhabela entre os Clássicos, comandado por Alex Calábria, com tripulação 100% familiar.
O Frers de 43 pés (13 metros) construído em 1972 se tornou lendário sob comando de João Zarif, pai do velejador olímpico Guga Zarif e avô do mais jovem campeão mundial de Finn, Jorginho, classificado para os Jogos Rio 2016. Hoje com o casco azul-marinho, o atual comandante manteve um fio amarelo próximo ao convés para remeter à cor amarela, principal marca do veleiro do seo João.
“O barco está envolvido por energia muito positiva por ter pertencido à família Zarif, sempre dedicada à vela. Não tive contato com o João, mas lembro-me dele, quase sempre sozinho, no barco ou na varanda do Iate Clube de Santos. Sinto a raça e a determinação dele a bordo”, revelou Alex. “Poderia correr em Ilhabela com uma tripulação formada, mas optei pela família e está sendo gratificante”, disse o comandante.
A tripulação do Áries III é formada por cinco familiares, sendo apenas dois adultos e três crianças: Alex, a esposa Roberta, dois filhos de 10 e 7 anos e um sobrinho com 12 anos. “Na regata de abertura, sábado (4), Ilha de Toque-Toque, os meninos foram guerreiros. Com o vento aumentando e o mar crescendo, cogitamos desistir por uma questão de segurança. Eles ficaram super bravos. Mesmo preocupados, fomos cautelosos e praticamente obrigados a seguir até o fim”, contou Roberta.
O Áries III ficou em terceiro lugar no tempo corrigido entre os Clássicos e cruzou a linha de chegada atrás apenas do Atrevida. “A inclusão da classe no evento ofereceu uma grande oportunidade para velejarmos em família. Além de divertido, a briga está muito boa. Todos fazem de tudo na equipe. Os meninos estão trabalhando muito. Regulam as velas, caçam os cabos e encaram qualquer tarefa. Ontem, um deles queimou a mão ao tentar segurar um cabo. Passou um gel no ferimento e hoje vai para a regata”, enalteceu o timoneiro.
O incidente, considerado normal em regatas, foi um dos temas da preleção do dia seguinte, organizada diariamente às 10h na própria embarcação. “Eles ainda estão aprendendo. Recorremos sempre às experiências vivenciadas na véspera para corrigirmos os erros. Tudo é aprendizado. Costumamos correr regatas menores em Ubatuba (SP), mas o importante é que agora estão respirando o ambiente de uma competição internacional e, pelo jeito, já se apaixonaram”, orgulhou-se Alex, pai e comandante.
Em competição, o chefe de família e de tripulação, esforça-se para manter o clima a bordo o mais tranquilo possível, mesmo nas situações mais estressantes. “Quando o barco precisa andar mais rápido, dou uns berros, é assim mesmo, mas depois da regata sempre acabo pedindo desculpas. Se começo a gritar, eles entram na pilha e também gritam e a gente perde a harmonia a bordo. Preciso manter o equilíbrio”, considerou Alex.
O timoneiro encontrou-se com o neto do seo João nesta semana no píer do Yacht Club de Ilhabela e garantiu ao representante brasileiro da classe Finn que a energia do avô estará bem perto dele durante as regatas olímpicas. “Disse ao Jorginho que estaremos com o Áries III no próximo ano, no Rio, durante a Olimpíada. Iremos para assistir às regatas de Finn e levar a bordo uma torcida organizada especialmente para o Jorginho. Ele merece. E ficou bem feliz”, exclamou o chefe da torcida uniformizada, Alex.
As condições do vento leste, com rajadas de até 15 nós permitiram pela primeira vez na semana regatas entre boias, barla-sota, conforme desejavam as tripulações. Magia Energisa, na ORC, e Montecristo na RGS dominaram as provas ao norte do Canal de São Sebastião no tempo real. Na C30, Zeus Team e CA Technologies venceram as duas primeiras regatas do dia. Neste sábado (11), as regatas decisivas serão disputadas a partir de meio-dia.
Várias ações desenvolvidas neste ano pela parceria entre o Yacht Club de Ilhabela (YCI) e a Prefeitura Municipal contribuem para aproximar o público da principal competição de oceano do país. No sábado (11), dia das regatas decisivas, os veleiros sairão às 10h do YCI em percurso de ida e volta até o centro histórico do município.
A passagem da flotilha próxima ao píer da Vila será narrada por locutor que levará ao público local e aos turistas as informações sobre a competição, barcos e tripulações. Quem estiver em terra poderá acompanhar e entender a movimentação dos veleiros no Canal de São Sebastião. O desfile de competidores é tradição em cidades do mundo todo que tenham vocação náutica, conforme a Capital Nacional da Vela.
Foto Tito Strambi / Divulgação
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Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.
O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!
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