São Paulo Boat Show 2025 comemora edição histórica com mais de 750 barcos vendidos

Maior salão náutico da América Latina recebeu mais de 40 mil pessoas e teve crescimento de 7,1% em negócios fechados em relação à edição anterior

Por: Nicole Leslie -
08/10/2025
Foto: Victor Santos / Revista Náutica

A 28ª edição do São Paulo Boat Show provou, mais uma vez, que não é o maior salão náutico da América Latina à toa. Nesta semana, a organização do evento divulgou o balanço em números, com direito, inclusive, a recorde de vendas.

Mais de 40 mil visitantes foram recebidos no São Paulo Expo entre os dias 18 e 23 de setembro para o São Paulo Boat Show. Por lá, 120 marcas exibiram produtos de tudo o que envolve o universo náutico, desde embarcações até motores, equipamentos e acessórios.

 

Quase 20% das embarcações eram lançamentos, o que pode ter influenciado nos mais de 750 barcos negociados. O número revela um crescimento de 7,1% em relação à edição anterior, em 2024, que teve mais de 700 negócios fechados.

Foto: RP / Revista Náutica

Segundo a Associação Brasileira dos Construtores de Barcos e seus Implementos (Acobar), os números refletem o bom momento da chamada Economia do Mar, que contabiliza mais de 1 milhão de barcos registrados no Brasil e gera 150 mil empregos diretos e indiretos com a indústria náutica.

Cada barco novo vendido significa empregos gerados em estaleiros, marinas, fornecedores e serviços associados, além de maior arrecadação de impostos que retornam para a sociedade– disse Thalita Vicentini, diretora do Boat Show Eventos

 

Espaço dos Desejos do São Paulo Boat Show 2025. Foto: RP / Revista Náutica

O salão reuniu os maiores estaleiros do país, que também se mostraram contentes com os frutos gerados. Roberta Ramalho, presidente da Intermarine, comentou que o evento é sempre o maior do ano para a marca. Não à toa, nessa edição foi escolhido como palco para o lançamento da Intermarine 25M.

 

Para Barbara Martendal, diretora de negócios da Fibrafort, estar no evento é fundamental para vendas, networking e aproximação com clientes. “Uma oportunidade de conversar, ouvir e entender de perto o público”, como disse. Já Pedro Odílio, CEO da Schaefer Yachts, destacou o alcance internacional do salão, que funciona também como vitrine da indústria brasileira para o mercado global.

Foto: Victor Santos / Revista Náutica

O secretário nacional de Infraestrutura, Crédito e Investimentos no Ministério do Turismo, Carlos Menezes Sobral, avaliou que os resultados do São Paulo Boat Show vão além dos negócios fechados. “O evento promove o desenvolvimento regional de forma sustentável, além de ampliar o fluxo de visitantes nacionais e internacionais”, afirmou.

 

Além de muitos barcos novos e o sorteio, pela terceira vez seguida, de uma lancha Fibrafort com motor de popa Yamaha, a edição de 2025 também apresentou motores de última geração, tecnologias sustentáveis, equipamentos, acessórios, veículos off-road e atrações culturais e educativas, como o circuito de palestras NÁUTICA Talks — que contou com mais de 50 palestrantes.

Essa combinação projeta o Brasil como um mercado com enorme potencial e cada vez mais relevante– comentou Thalita Vicentini


 

Agora, o calendário de 2025 do Boat Show Eventos segue para o Nordeste do país, com o Salvador Boat Show. De 30 de outubro a 2 de novembro, o salão náutico flutuante movimentará a Bahia Marina, na Baía de Todos-os-Santos, com muita cultura, experiências e novos negócios.

 

O Salvador Boat Show 2025 conta com apoio do Ministério do Turismo e patrocínio da Prefeitura de Salvador, por meio da Secretaria Especial do Mar (SEMAR) e da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Emprego e Renda (SEMDEC).

 

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    Quem fala pela náutica?

    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

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