Casal vai construir o próprio veleiro elétrico — que terá uso de inteligência artificial

01/09/2022

Marina Rosa, de 29 anos, e Michel Icart, 30, ficaram famosos nas redes sociais desde que passaram a morar a bordo do veleiro MotionMe — inicialmente um Delta 26, depois um Fast 310 — quatro anos atrás. Dali passaram a compartilhar vídeos curtos relatando essa experiência no Instagram, no YouTube e no TikTok, plataformas em que já somam três milhões de seguidores!

Assim como o casal, cada vez mais cedo velejadores trocam a casa por um casco, amparados pela tecnologia que permite trabalhar a bordo e produzir conteúdos para as redes sociais, garantindo um rendimento mensal. Muitas vezes, essa opção é feita até por quem nunca havia velejado antes e que aprende o beabá da vela na prática, começando do zero.

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Uma ideia que reflete também uma mudança de estilo de vida:

“A forma que a gente lida com os veleiros precisa mudar, e isso exige um processo novo”

Quem é que, cansado do corre-corre das cidades, nunca pensou em comprar um barco e sair por aí, saboreando paisagens e conhecendo novos lugares? Na busca por uma melhor qualidade de vida, integração com a natureza e a possibilidade de romper com as rotinas típicas do meio urbano, poucas opções são tão irresistíveis como essa.

Marina e Michel, contudo, não se limitaram a morar em uma casa que se move, em que a piscina é enorme e o quintal muda todos os dias. Diferentemente de outras pessoas que trocaram a casa por um casco e saíram velejando por aí, o jovem casal — quatro anos depois do início dessa jornada —decidiu chacoalhar os conceitos de navegação concebendo, projetando e construindo o seu próprio barco.

“Teremos uma impressora 3D dentro do veleiro para fazer as peças de reparo”

E não se trata de uma embarcação qualquer, mas de uma incrível invenção, com toda tecnologia e o mais próximo da autossuficiência possível.

A começar pela motorização. “Será um veleiro catamarã de 38 pés, equipado com dois motores elétricos alimentados pela energia gerada por painéis solares e pelo vento (energia eólica), sem a necessidade de carregamento externo”, explica Michel.

Isso significa que o barco poderá navegar sem a necessidade de recarregar as baterias em uma tomada, quando em locais ensolarados e ou bem ventilados, como a costa brasileira. Além disso, o comandante poderá recarregar as baterias com a energia gerada pelo próprio barco enquanto estiver velejando.

Apesar do trabalho intenso, o casal curte a vida a bordo:

“Em vez de trânsito, a gente pega umas ondas; as reuniões de trabalho, em vez de chatas, são uma aventura. Sem contar a lua, que assistimos nascer”

O casal também aposta em um casco mais leve e resistente, construído com alumínio. Além isso — e aqui está a cereja do bolo —, investirá em tecnologias inovadoras, como a internet das coisas, para conectar o barco a seus smartphones e realizar uma série de tarefas de modo mais eficiente, levando para o dia a dia a bordo inúmeras possibilidades. Enfim, trata-se de um projeto muito ambicioso.

“Nesses poucos anos de vida a bordo, aprendemos muita coisa. Percebemos que a forma que a gente pensa, que a gente lida com os veleiros precisava mudar. Não adiantava comprar um barco e reformar, como fizemos com o Fast 310. Precisamos de mudanças tão grandes que exigem um processo novo, pensado em cada detalhe para atender a quem faz a opção de viver a bordo de um veleiro”, conta Marina, que é graduada em Design pela Universidade Federal do Ceará, com estudos complementares nos Estados Unidos pelo programa Ciência Sem Fronteiras, na Syracuse University, de Nova York.

“Não era nem uma questão de custo operacional, mas de avanço tecnológico, de trazer o novo”, explica ela. “Não queríamos ficar reféns da manutenção do motor”, acrescenta Michel, graduado em Design de Produtos pela Universidade Federal de Santa Maria, com complementação no programa Ciência Sem Fronteiras na Syracuse University, de Nova York — onde, aliás, os dois se conheceram.

“Nas conversas de velejadores que se encontram em uma marina no fim de tarde, por exemplo, o principal tema são os problemas com os motores e os desentendimentos com os mecânicos. Então, pensamos em testar uma solução alternativa”, diz ele.

Acrescenta-se a isso a preocupação com o meio ambiente. Os motores elétricos são uma solução mais ecológica que os convencionais, de combustíveis fósseis, especialmente quando movidos a eletricidade limpa, como acontecerá no novo MotionMe 3.0.

Para dar forma ao projeto, antes de colocar a mão na massa, os dois decidiram fazer uma pesquisa sobre catamarãs visitando o lugar em que há mais multicascos no Brasil, que é a região Nordeste. “Subimos numa moto e fizemos uma longa viagem pela costa do país, do Paraná até o Maranhão. No caminho, fomos conhecendo os construtores, de grandes estaleiros a projetos artesanais, a fim de reunir inspirações e ideias para montar o nosso próprio barco”, revela Marina.

Para não errar na receita, o projeto está sendo desenvolvido em parceria com a B&G Yacht Design, empresa do Roberto de Mesquita Barros (o Cabinho, que agora divide o estúdio com a filha, a engenheira naval Astrid, o marido dela, Luís Gouveia, e o yacht designer Luís Manuel Pinho). A B&G ficou responsável pela parte de navegação, enquanto Michel e Marina tocam a parte de sistema e inovação no barco como um todo.

O próximo passo foi montar uma oficina para dar início à construção. “Na verdade, será um estúdio de criação e não apenas um pequeno estaleiro, já que vamos lidar muito com tecnologia e sustentabilidade”, esclarece ela. Para isso, o casal comprou um terreno na cidade de Icapuí, no litoral cearense, onde está erguendo o Kaiē Creative Studio, como o ateliê foi batizado.

Entre outras inovações, o lugar terá um laboratório de impressão 3D, comando de voz, móveis multifuncionais e até uma horta hidropônica, que depois serão deslocados para dentro do catamarã elétrico.

“A gente encara nossa jornada no barco como se fosse uma nave espacial. Porque muitas vezes, como em uma travessia oceânica, por exemplo, a gente navega sem dispor de comunicação. Em uma emergência, não dá para simplesmente fazer uma ligação e pedir para alguém ir lá nos socorrer. Por isso, vamos ter uma impressora 3D dentro do veleiro e com ela desenvolver as peças de reparo, de acordo com a necessidade. Em vez de ter várias peças de reposição ocupando espaço, teremos o material que vai produzir esses componentes. Para isso, bastará apertar dois botões”, resume Michel.

“Além disso, vamos imprimir os elementos de decoração do barco, aplicando novos arranjos em uma escala muito variável”, acrescenta Marina. Admirável mundo novo!

Em resumo, não se trata da mudança de uma casa para um veleiro, simplesmente, mas de uma revolução na arte da construção naval, marcada pela inserção dos novos conhecimentos, com uso combinado de uma morada inteligente e internet das coisas, entre outras tecnologias.

Mas, até chegar a essa visão de futuro sobre a navegação, os dois tiveram de começar do zero — porque sequer sabiam velejar.

Tudo começou em 2014, quando ambos moravam nos Estados Unidos.  Antes de formarem um casal, os dois eram amigos e compartilhavam a paixão por conhecer novos lugares. Já namorados, passaram a acalentar o sonho de viver uma vida de nômades.

“A ideia inicial era morar a bordo de um motorhome. Até que o Michel me propôs dividir a cabine de um veleiro, apesar de nenhum de nós saber velejar, e eu decidi embarcar nessa começando do zero”, lembra Marina.

Antes, porém, na volta ao Brasil, eles precisavam superar um problema: a distância que os separava, pois ela (nascida em Diadema, na Grande São Paulo) estudava no Ceará e ele (gaúcho de Santana do Livramento) fazia faculdade no Rio Grande do Sul.

“O Michel tinha mais um ano de curso pela frente, e eu, mais dois”, recorda Marina. Além disso, como nenhum deles dispunha de reserva financeira, o casal teria de fazer caixa para comprar o primeiro barco, que acabou sendo o Delta 26. Para isso, decidiram trabalhar em navios de cruzeiro. Para facilitar que fossem chamados para o mesmo navio, formalizaram uma união estável.

“O Michel foi o primeiro a ser chamado e assinou um contrato de oito meses com a Royal Caribbean para trabalhar como fotógrafo no navio Ovation of The Seas, que seguiu uma rota entre a Grécia e Oceania, passando pela Ásia. No ano seguinte, dei a sorte de ser chamada para o mesmo navio, que então fazia a rota entre o Caribe e o Mediterrâneo, e também entrei para o departamento de fotografia. Por causa da união estável, pudemos ficar na mesma cabine durante os nove meses daquela temporada”, recorda a designer.

No retorno ao Brasil, veio a compra do Delta 26, em Paraty, e com ele a iniciação na vela. “Passamos bastante tempo viajando entre Angra e Paraty, a fim de nos familiarizarmos com o mar. Já tínhamos feito alguns cursos, mas esta era nossa primeira experiência prática. Só depois de quatro meses, já mais confiantes, começamos a oferecer passeios de barco para turistas da região”.

O nome do barco e do perfil nas redes sociais, MotionMe, é uma referência ao plano do casal de viver em movimento pelo mundo, feito dois nômades.

Apesar de ser um ótimo barco, o 26 pés era pequeno demais para quem pretendia morar a bordo, depois de toda uma vida dentro de casas ou apartamentos. “Eu tenho 1,75 metro de altura e tinha que me curvar para ficar em pé na cabine”, diz Michel. Por isso, na primeira oportunidade, em 2019, eles saltaram para um barco maior, um Fast 310, com espaço menos exíguo na cabine: é o MotionMe II.

O problema agora era que o veleiro de linhas muito harmoniosas e cabine fechada na popa exigia uma grande reforma. “Ele estava em uma poita há mais de seis anos, abandonado. Nossa missão era restaurá-lo, enquanto continuávamos fazendo charter com o Delta 26. Mas ele estava tão sujo e mofado que cheguei a ficar doente durante as semanas que fizemos a limpeza”, conta Marina.

“Quase tudo foi feito por nós mesmos, da parte elétrica à parte mecânica. Chegamos a retificar o motor a diesel sozinhos”, garante ele. “Foi um trabalho muito duro, mas que valeu a pena”.

De forma despretensiosa, o casal começou a postar nas redes sociais cada passo da reforma do Fast 310, e cativou o público. Em pouco tempo, o MotionMe e os agora influenciadores digitais Marina e Michel se tornaram um fenômeno da internet, acumulando milhões de seguidores no YouTube, Instagram e TikTok.

Com o Fast 310 pronto, eles apontaram a proa para o Rio de Janeiro, onde passaram uma temporada ancorados na enseada da Urca, de onde saíam para operações de charter. Mas aí veio a pandemia e, com ela, o fim das atividades. Nesse cenário, o casal aproveitou para repensar seus planos e definir novos objetivos. Foi quando decidiram pôr em prática o plano que há anos vinham planejando, de construir o próprio catamarã.

“Vendemos o Fast e embarcamos no novo”, diz Marina, referindo-se à ideia de construir um barco com o máximo de autossuficiência possível. A expectativa é a de que o MotionMe elétrico vá para a água em 2025. Até lá, cada passo da construção será exibido pelas redes sociais do casal, tim-tim por tim-tim. Ainda vamos ouvir falar muito sobre eles.

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