Lars Grael abre programação de palestras no Race Village, em Ilhabela

Por: Redação -
10/07/2018

Lars Grael é exemplo de superação, resiliência, persistência e todo adjetivo que se encaixe em uma história de vitória, como disciplina, força de vontade e garra. O velejador medalhista olímpico e campeão mundial atravessou a ‘tempestade e mares bravos’ após perder a perna direita em um acidente para ‘navegar de vento em popa’ no esporte e na vida. Segue disputando campeonatos no Brasil e no mundo, envolvido em projetos sociais e ministrando palestras. Em Ilhabela, para a disputa do Brasileiro da Classe Star – dentro da 45ª Semana de Vela de Monotipos -, ele falou a uma plateia de 200 pessoas no Race Village, no Centro Histórico da cidade, na noite deste domingo (8).

Em pouco mais de um hora de exposição, Lars Grael contou sobre a influência da família no esporte, as dificuldades no início da carreira na vela, as conquistas das duas medalhas de bronzes olímpicas (Seul/1998 e Atlanta/1996), da luta pela vida após o acidente em 1998 – quando a imperícia e irresponsabilidade do comandante de um iate colidiu com seu barco e decepou sua perna direita – e como deu a volta por cima, encontrando motivação para ultrapassar as barreiras provocadas pela deficiência física e voltar a ter uma vida produtiva, tanto como esportista, como na vida pública em prol do fomento ao esporte.

“Uma palavra que resume minha trajetória é persistência. Entre o meu primeiro título mundial, como proeiro de Snipe com meu irmão Torben, e o segundo, como timoneiro de Star com o Samuca (Samuel Gonçalves), passaram-se 32 anos. Então, quando era menos provável dar certo (já competia com uma perna amputada), a persistência mostra sua importância. É fundamental, quando temos um sonho na vida, lutar por ele, persegui-lo. Não há garantia que vai dar certo, mas só assim, acreditando e batalhando, a gente pode transformar um sonho em realidade. O título em 2015 foi uma realização pessoal em termos de superação”, declarou o velejador, no encerramento de sua palestra em Ilhabela.

A ligação de Lars Grael com Ilhabela gera frutos para o futuro do esporte. Ele empresta seu nome para a escola municipal de vela, que ensina os fundamentos da modalidade para 200 crianças, além de contar com equipes de competição. “Iniciamos a parceria com a cidade em 2002, com o Projeto Navegar. E aqui tudo se desenvolveu com tal intensidade, que ganhou força própria. Hoje, a escolinha municipal tem o meu nome, mas eu apenas represento muitos outros velejadores e é do povo de Ilhabela. Acompanhar sua estrutura e funcionamento é motivo de orgulho. Voltar para cá, um lugar que tão bem me acolhe e acolhe o nosso esporte, é sempre uma alegria e satisfação”, completou Lars, que tem como principais conquistas as duas medalhas olímpicas, dois títulos mundiais, 11 títulos continentais e 29 títulos nacionais, além de vários outros resultados de expressão obtidos desde a estreia em 1972.

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O secretario de Desenvolvimento Econômico e do Turismo, Ricardo Fazzini, abriu o ciclo de palestras e falou sobre a importância da interação com grandes ídolos do esporte. “Eu, caiçara e velejador de Ilhabela, e o Beto (José Roberto de Jesus, secretário de Esporte e Lazer), que é contemporâneo do Lars Grael na classe Tornado, temos grande orgulho em receber um dos maiores nomes da vela nacional e internacional. O intuito é trazer de volta para Ilhabela o conceito de Race Village, que é a integração entre comunidade, turistas e velejadores. Traremos temas do meio náutico e isso vai ocorrer durante todo o mês de julho, com intensa programação de palestras”, afirmou.

A programação de palestras no Race Village terá nomes como o navegador Amyr Klink, o paraquedista Luigi Cani, os velejadores João Hackerott, Juliétty Tesch e Juca Andrade, os jornalistas Carol Barcellos e Clayton Conservani, entre outros convidados dentro da programação da Flai – Feira Literária de Aventura de Ilhabela. Com o tema “Você Pode Voar”, o paraquedista Luigi Cani vai falar dia 21 de julho. No dia seguinte, 22, o navegador Amyr Klink ministra a palestra “Expedições”. O velejador João Hackerott vai tratar de meteorologia no dia 24, enquanto Arlaine Francisco e Júlio Cardoso, do Projeto Baleia à Vista, abordam o tema “As baleias e golfinhos de Ilhabela” no dia 25.

Os velejadores Juliétty Tesch e Juca Andrade se encontram com o público nos dias 26 e 27 e trazem as palestras “Os ventos que trouxeram um mar de oportunidades e vitórias” e “A Travessia Azul: De Ubatuba à Cape Town a bordo de um pequeno veleiro”, respectivamente. No dia 28 é a vez dos jornalistas Carol Barcellos e Clayton Conservani e seus “Desafios Extremos”. Toda a programação começa a partir das 18h30 e é grátis.

Além de palestras, o Race Village tem atividade todos os dias desta semana. Nesta terça-feira (10), a partir das 15h, a Arena Copa instalada no Centro histórico exibe a semifinal entre Bélgica e França. No dia seguinte (11), no mesmo horário, é a vez da partida entre Inglaterra e Croácia. Na quinta-feira (12) e sexta-feira (13), a atração é a Mostra de Dança da Fundaci, sempre às 20h. No sábado (14), a Arena Copa transmite a disputa pelo terceiro lugar na Rússia e, na sequência, às 20h, começa o Desfile dos barcos do Ilhabela Boutique Boat Show, seguido do show da Orquestra Rock, a partir das 20h30. Para o domingo (15), a final da Copa do Mundo tem início às 12h e às 20h tem show da Banda Captadores.

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O Race Village foi inaugurado na noite de sábado (7), com a presença do prefeito de Ilhabela Márcio Tenório, do secretário de Esporte e Lazer, José Roberto de Jesus e do secretario de Desenvolvimento Econômico e do Turismo Ricardo Fazzini, entre outras autoridades. Na sequência veio o show do rapper Gabriel, o Pensador, que contou com cerca de 5 mil pessoas, que lotaram o Centro Histórico da Vila, no maior público desta temporada. O espaço segue com intensa programação até o dia 29 de julho, no Centro Histórico de Ilhabela.

A partir de quinta-feira (12), Ilhabela receberá mais uma edição do Boutique Boat Show, que promete agitar as águas do Saco da Capela — o mais tradicional reduto de barcos da ilha. O evento segue até domingo (15) e reunirá grandes lançamentos e destaques do mercado náutico na Capital Nacional da Vela. A entrada é gratuita e, além da oportunidade de conhecer grandes embarcações do mercado brasileiro, outras atrações estarão a disposição do público, como um telão flutuante de 18m² que exibirá a final da Copa do Mundo.


PROGRAMAÇÃO DE PALESTRAS

RACE VILLAGE (Praça das Bandeiras)

Dia 21 – sábado
18h30 – Palestra “Você Pode Voar”, com o paraquedista Luigi Cani, na Flai – Feira Literária de Aventura de Ilhabela

Dia 22 – domingo
18h30 – Palestra ‘Expedições”, com o navegador Amyr Klink

Dia 24 – terça-feira
18h30 – Palestra com o velejador João Hackerott sobre meteorologia

Dia 25 – quarta-feira
18h30 – Palestra “As baleias e golfinhos de Ilhabela”, com Arlaine Francisco e Júlio Cardoso, do Projeto Baleia à Vista

Dia 26 – quinta-feira
18h30 – Palestra “Os ventos que trouxeram um mar de oportunidades e vitórias”, com a velejadora Juliétty Tesch

Dia 27 – sexta-feira
18h30 – Palestra “A Travessia Azul: De Ubatuba à Cape Town a bordo de um pequeno veleiro”, com o velejador Juca Andrade

Dia 28 – sábado
18h30 – Palestra “Desafios Extremos”, com os jornalistas Carol Barcellos e Clayton Conservani, na Flai – Feira Literária de Aventura de Ilhabela

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    Quem fala pela náutica?

    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

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