Lições da vida a bordo


Esse mês tive uma experiência de voltar a viver a bordo. Muitas lembranças me vieram à mente e fizeram-me ter certeza de que esta é realmente a vida que quero ter. Só quem um dia foi pro mar e viveu no mar e do mar, pode entender o que digo. É como um bichinho que pica e não existe antídoto. Aliás, alguns blogs gringos chegam a mencionar sobre o “sail bug”.
Uma vez escrevi sobre a “doença da sem casa”, ou homesickness, uma crise que pode atacar as mulheres quando se mudam para o mar e não conseguem se adaptar à vida longe da família e do cotidiano que levavam em terra firme, sentindo-se muitas vezes culpadas e egoístas por abandonarem os familiares. Porém, o contrário também pode ser verdadeiro.
Depois de se acostumar com a vida a bordo, voltar para a correria de uma grande cidade, também é bastante chocante e de difícil adaptação. Isso é o que vivo hoje. Constantes questionamentos e comparações são inevitáveis.
Com a maturidade, o medo de dar um salto no vazio aumenta, mas ao mesmo tempo sabemos que a segurança de um emprego fixo é ilusória. Aliás, o acúmulo material também é uma ilusão para chegar a um lugar em que se pode estar AGORA, e sem todos esses bens materiais que tanto corremos atrás quando vivemos em uma cidade grande, querendo e achando que necessitamos cada vez mais e mais. A vida no mar é muito diferente. Os valores materiais são baseados nas necessidades.
Fiquei 10 dias a bordo neste último mês e é incrível como a saudade bate até mesmo nas horas de lavar a louça ou ir ao banheiro. Quando você aprende a viver com pouco e se satisfaz com isso, o prazer é enorme.
Certa vez, comprei uma máquina de lavar roupa “hand machine” e me divertia a cada lavada. A hand machine, ou máquina de mão, é pequena e tudo que você tem que fazer é girar a manivela. Você não gasta energia, usa pouca água e ainda faz um exercício para os braços! Porém, ela passa longe do conforto de uma lavadora convencional. Aliás, vale falar, se você tem grana e pode viver na marina, a vida é outra… Água e energia à vontade, como um apartamento flutuante.
Passei meus dias a bordo de um Tatoosh 42, em Bocas del Toro, Panamá. Um veleiro bastante espaçoso e com uma navegada bem confortável. Em Bocas, existe uma comunidade cruzeirista bem expressiva. O curioso é que toda quarta-feira quem comanda a net (conversa diária e matinal pelo VHF com as novidades do dia) é uma mulher. Toda quarta é dia de “lady´s net”. E não pense que os papos são sobre beleza. A mulherada comanda a rodada com muita participação masculina.
Um dos papos que tenho constantemente com mulheres que vivem a bordo é como garantir a renda. Nessas horas, a criatividade é o que vale. Umas aprendem a cortar cabelo, outras fazem bijuterias para vender, há as que costuram velas e capas de colchões. As mais antenadas trabalham na indústria náutica instalando equipamentos, limpando cascos, fazendo verniz no interior de barcos, trocando teca dos deques… Mas todas têm algo em comum, vivem o AGORA. Mesmo não possuindo renda fixa, preferem arriscar-se em não ter trabalho tradicional do que viver um cotidiano previsível longe do mar.
Porém, viver a bordo não significa passar perrengue ou viver fedida, não! Tudo é uma questão de organização. Nunca abri mão de banho, de perfume, de bijuterias… Questão de escolha. Assim como já falamos por aqui sobre o fato de não precisar cortar o cabelo curto só porque foi morar a bordo.
A simplicidade está presente em todos os dias a bordo e o desperdício de água, energia e espaço não existe. A essência da vida a bordo é a economia e a simplicidade. Viver com pouco, ser feliz e ainda ajudar a salvar o planeta. Tudo se recicla. Orgânicos são jogados no mar. A mesma água que cozinha a batata, pode cozinhar o arroz.
É essa consciência e esse hábito que tanto tem aparecido em campanhas sociais, sustentáveis e nas bandeiras dos politicamente corretos. Não temos dúvidas que aplicando esse exemplo no dia a dia de qualquer um, poderíamos ter uma esperança de um mundo melhor, porém infelizmente muita gente ainda se prende ao “parecer sustentável” e não realmente ser. A maioria realmente só se toca a mudar de hábitos e a se privar de comodidade, quando sente que pode ser prejudicada. Vivemos na cidade, temos tudo à vontade e não nos privamos de nada porque a falta não faz parte do nosso cotidiano.
Por isso acredito que a criança que vive a bordo tende a ser um ser humano melhor, mais humanizado, mais preocupado com o próximo.
Bom voltar a viver a bordo para valorizar o muito que temos em uma cidade grande. Quando voltei a São Paulo, fui tomar banho e senti-me culpada por abrir o chuveiro e ver cair aquela água toda enquanto me ensaboava. Fechei a torneira e pensei, quero ser e não “parecer”. Esse é o segredo, ser consciente dos desperdícios sem necessariamente sentir a falta. Lições que aprendi no mar e levo para minha vida em terra ou onde quer que esteja.
Hoje estou aqui, amanhã não sei.
Obs: Quem quiser ter a experiência de um live aboard no veleiro Brava, o Tatoosh 42, entre em contato com o capitão Manuel Alves pelo e-mail [email protected]. Abaixo um pouco lady´s net por VHF.
Foto: Arquivo Pessoal
Marcela Rocha é instrutora de mergulho, jornalista, locutora de rádio, velejadora nas horas vagas e, acima de tudo, muito feminina
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Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.
O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.



