No olho do furacão

Por: Redação -
15/06/2015

Um furacão possui uma arquitetura bastante peculiar. Conforme vimos anteriormente, a Tempestade Tropical, já previamente organizada, vai girando e ganhando força, seus ventos ao chegarem à casa dos 63 nós formam o chamado Olho do Furacão (Eye), que fica em sua parte central e pode medir entre 2 e 200 milhas náuticas, mas em média costumam medir cerca de 16 milhas. O olho é a parte do furacão onde praticamente não venta, permanecendo quente e abafada, mas a condição do mar em seu interior continua uma catástrofe com vagas vindo de todas as direções, podendo chegar a impressionantes 40 metros de altura! Este olho pode ou não possuir um “chapéu” de nuvens, podendo ficar encoberto nas fotos tiradas do espaço.

No perímetro do Olho encontramos um anel ou parede vertical de nuvens espessas e chuva torrencial, conhecida por Muro do Olho (Eyewall). Os ventos que giram ao redor do olho convergem para esta região, portanto ali encontramos os ventos mais fortes da tormenta, e é onde realmente mora o perigo! Este Muro é constituído por formações densas de nuvens em forma de torre, chamadas de Torres de Calor (Heat towers), onde ocorrem as precipitações mais fortes e onde o calor do ar sugado se concentra de forma mais sensível.

As nuvens do Muro podem chegar a Tropopausa, que separa a Troposfera da Estratosfera, e que fica aproximadamente a 17 km de altura nas regiões tropicais. Lá o muro se alarga, abrindo como um cogumelo gigante. Devemos lembrar que o processo é extremamente dinâmico, e que muros novos podem se formar externamente aos já existentes, absorvendo-os e alargando sua espessura, gerando uma tempestade cada vez mais forte e estável num ciclo chamado de Ciclo de Reposição do Muro (Eyewall Replacement Cycle)

Concentricamente existem outros anéis como o Muro do Olho, que são formados por nuvens extremamente carregadas que podem ser chamadas de Anéis de Chuva (Rainbands).

O diâmetro de um furacão pode variar bastante e tem relação com a distância do centro onde são encontrados seus ventos mais fortes, mas teríamos de mergulhar em dados científicos que escapam nosso objetivo. Porém, se levarmos em consideração apenas o diâmetro do “cogumelo” ou chapéu de nuvens, os registros mostram que o menor registrado foi o Ciclone Tracy de apenas 60 milhas de diâmetro, e o maior o Tufão Tip, que apesar do nome pequeno, mediu espantosos 1 133 MN ou 2 100 km de diâmetro.

Como se não bastassem os ventos, os ciclones têm ainda um repertório amplo de “efeitos colaterais” que podem representar riscos aos navegadores;

Ressacas (Swells): podem ocorrer a qualquer momento, causadas por furacões, ou mesmo pela passagem de uma frente fria durante o inverno, o que pode tornar um seguro fundeadouro de sotavento, num pesadelo enorme. Conforme uma depressão avança, deve-se acompanhá-la, a fim de identificar o perigo de uma virada brusca nas condições de tempo. Ser apanhado desprevenido pode lhe trazer grandes problemas.

Surge: que podemos compreender como uma maré anormal, ou “cabeça-d’agua”, a massa de água litorânea é pressionada pela aproximação da tempestade e se ergue (brota) muito acima de seu nível normal, assim como a própria baixa pressão do olho faz que a água suba. Estas marés podem cortar as rotas de fuga cerca de três a cinco horas antes da chegada da tormenta, devido à maré poder subir cerca de três metros (9 a 12 pés), no caso de um furacão Categoria III. Sabemos que ninguém amarra um barco da forma convencional para uma maré destas, portanto esteja preparado e procure conhecer os acessórios e métodos para melhor ancorar seu barco.

Lembra dos navegadores bronzeados e barbados do início desta série de textos? Depois que voltaram para seus respectivos barcos, ligaram seus rádios, anotaram todas as posições informadas e depois, abriram uma enorme carta de navegação do bom e velho papel e com auxílio de lápis, régua e compasso começaram a plotar a posição e a possível trajetória da tempestade, a fim de analisar o risco de serem atingidos, começando assim a se preparar para procurar um abrigo ou fugir enquanto é tempo!

Outra medida tomada por todos é estocar água e comida, abastecendo o barco com combustível e mesmo gás de cozinha, para o caso de precisar partir de imediato para o destino que for! Alguns compram pedaços de compensado e lona grossa e praticamente todos procuram por mais cabos de amarração, pesadas âncoras sobressalentes e roupas de mau tempo.

Uma vez que uma tempestade se transforma em furacão, ela ganha um nome e passa a ser monitorada permanentemente pelo National Hurricane Center da Florida (www.nhc.noaa.gov), que emite boletins de previsão a cada seis ou três horas, dependendo da violência do mesmo. Os navegadores da região alertam para que se mantenha o (necessário) rádio AM sintonizado na frequência de 780 kHz, pois a rádio ZBVI das Ilhas Virgens, costuma manter seus ouvintes informados constantemente. Porém, não é a única emissora a fazê-lo, pois praticamente todas as rádios AM, FM e os canais específicos de VHF noticiam a evolução destas tempestades, até quase surtar os ouvintes!

O mais correto é não se aproximar do Caribe durante a Estação de Furacões, pois muitas das companhias de seguros não costumam cobrir avarias em barcos sinistrados entre junho e novembro, mesmo que o acidente nada tenha a ver com a passagem de um furacão, portanto é um risco a mais a se assumir.

Caso não tenha opção de rumar em maio para o Mediterrâneo, Trinidad ou Norte da América do Sul tenha em mente conseguir o melhor abrigo possível para encarar as tormentas que fatalmente lhe atingirão nesta época, pois como vimos não há tempo fácil neste período. Retornar ou rumar para o Brasil a partir do Caribe é péssima opção, pois as correntes e ventos podem transformar esta empreitada em enorme sacrifício para barco e tripulação.

A proteção que um abrigo como um estreito canal no meio do mangue pode lhe proporcionar depende diretamente da trajetória e da violência do furacão. Mesmo que você se proteja dos ventos e das ondas, ainda pode sofrer com as ressacas, com os barcos ao seu redor, com os objetos que podem lhe ser arremessados e ainda pelo surge, que como sabemos pode fazer a maré variar rápida e violentamente, oferecendo riscos à amarração e à sua embarcação.

Prefira, se possível, um bom abrigo em terra, numa daquelas vagas cavadas no solo e com boa amarração, desarme o barco, amarre, prenda, guarde tudo, se tranque e reze. Muitos navegadores preferem enfrentar as tempestades longe de terra, onde um barco costuma estar indefeso e sem possibilidade de reação, mas isto vai de cada um e é muitíssimo raro alguém querer enfrentar a força da natureza de peito aberto. Não é aconselhável de forma alguma!

No Hemisfério Norte, os ventos dos Ciclones circulam no sentido anti-horário, e para fins de segurança, são divididos em semicírculos, onde podemos identificar o de maior periculosidade e ainda adotar estratégias clássicas para fugir de seus perigosos ventos.

A técnica de se enfrentar um furacão dita que ao navegarmos no Semicírculo Perigoso, devemos navegar em um ângulo reto em relação à trajetoria do furacão, recebendo o mar pela bochecha de Boreste, quase capeando, para assim conseguir se afastar do olho. Porém, ao navegar no Semicírculo menos perigoso, conhecido por “navegável”, você deve procurar fugir para o Sul, também em ângulo reto com a trajetória, procurando receber o mar e o vento pela Alheta de Boreste, fugindo ou correndo com o tempo, se afastando do perigo.

É imprescindível plotar numa carta geral a posição do Olho do Furacão a cada boletim que receber, pois as trajetórias podem mudar muito rapidamente e o que parecia ser uma boa posição ou abrigo pode se transformar em uma arapuca letal.

Como já vimos, quanto mais longe do “Muro” melhor!

 

Alvaro Otranto é navegador de longas travessias, um dos mais antigos colaboradores da revista Náutica e criador da Moana Livros, primeira livraria na internet especializada em temas de mar e aventura.

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