O trimarã de 109 pés que circulou o globo em 74 dias está à venda, com o nome de Brigitte Bardot no casco

Por: Redação -
09/09/2020

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Com o nome homenageando a musa do cinema francês dos anos 1950/60 (hoje, uma destacada ativista ambiental), o Brigitte Bardot é um trimarã de 109 pés construído em 1998 pelo estaleiro britânico Vosper Thornycroft para dar a volta ao mundo em menos de 80 dias, quebrando um recorde de circum-navegação.

Não foi sua única missão. Até o início deste ano, a embarcação também fez parte da frota da ONG Sea Shepherd, que luta contra a caça às baleias, e que agora decidiu colocá-la à venda, depois de muitas batalhas contra navios baleeiros ilegais, entre outras ações ambientais.

Originalmente, o nome do barco era Cable & Wireless Adventurer. Foi com ele que entrou para o Guinness ao quebrar o recorde de circum-navegação navegando 22.600 milhas em menos de 75 dias. Depois de cumprir essa missão, já com o nome trocado para Ocean 7 Adventurer, o trimarã mudou-se para a Cidade do Cabo, na África do sul, onde começou uma nova e não menos admirável carreira. Em dezembro de 2007, por exemplo, o 109 pés ganhou as manchetes dos jornais, sites e revistas ao realizar, no Oceano Atlântico, um ousado resgate do iate Delta Dore — que foi rebocado ao longo de 960 milhas, até alcançar a Cidade do Cabo.

brigitte bardot

Três anos depois, em 2010, comprada pela Sea Shepherd e rebatizada de Gojira (que significa Godzilla em japonês), a embarcação passou a ser usada em missões de rastreamento de navios baleeiros japoneses ilegais na Antártica, atuando como grande defensora do ecossistema marinho. Ao localizar o baleeiro Nisshin Maru, no Mar de Ross, o Gojira quebrou mais um recorde: viajou mais ao sul que qualquer outro multicasco na história. Além disso, durante os mais variados percursos, se deparou com lulas chinesas ao largo de Galápagos e enfrentou caçadores furtivos no Mediterrâneo.

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E assim seguia fazendo história, com o nome Gojira estampado no casco, quando os proprietários japoneses da franquia de filmes Godzilla ameaçaram a Sea Shepherd com uma ação pelo uso não autorizado da marca. Assim, a ONG, que também atua muito no combate à caça às focas no Canadá, decidiu renomear o barco e homenagear uma grande atriz e ativista ambiental: sim, a eterna diva Brigitte Bardot (BB).

brigitte bardot

A ex-atriz francesa, que foi uma das primeiras grandes personalidades a apoiar a campanha anti-foca, apareceu com Watson em blocos de gelo no ano de 1979, como parte de um protesto. Ela chegou até a auxiliar no tingimento das focas para tornar suas peles sem valor. Começava assim a sua vida como ativista ambiental.

Desde então, agora com o nome de Brigitte Bardot estampado no casco, o trimarã viajou pelos sete mares. Passou pela Austrália, Nova Zelândia, Ilhas Faroe, pelo Mediterrâneo, Atlântico, Índico, e assim por diante. Com o início da pandemia de Covid-19, o barco foi deslocado da Ilha de Galápagos para o México. Logo em seguida, a ONG tomou a decisão de colocá-lo à venda. “Atualmente, a Sea Shepherd Conservation Society está trabalhando mais com os governos e exigindo embarcações maiores, que possam acomodar militares. Infelizmente, a BB se tornou pequena demais para nossas necessidades”, disse Octavia Carranza, que comandou o trimarã em missões ao Peru em 2018.

Brigitte Bardot

A embarcação, que acomoda até 12 pessoas em seis cabines, está equipada com dois motores diesel Cummins de 500 hp cada, instalados em 2018, que proporcionam uma velocidade máxima de 27 nós. Na autonomia, o alcance é de mais de 3.500 milhas náuticas. O Preço? A Brigitte Bardot dos mares está à venda por US$ 1,499 milhão.

Por Naíza Ximenes, sob supervisão do jornalista Gilberto Ungaretti

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    Quem fala pela náutica?

    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

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