Quer saber por onde navegar? Conheça o paraíso chamado Ilha Fantasma


“Eleger um lugar favorito na faixa litorânea que se estende da paulista Cananéia à paranaense Pontal do Sul – que eu costumo explorar, com minha família, a bordo de uma lancha Diamar-22 Tempest, já com quase 40 anos de mar – é um desafio. São tantos canais, ilhas, praias belas, enseadas lindas para jogar âncora nesse trecho, de cerca de 60 milhas, que fica difícil eleger apenas um sem ficar com remorso por preterir os outros. Sem contar que se trata da maior extensão de águas abrigadas do mundo e uma das três Reservas da Biosfera mais importantes do planeta, conforme elegeu a Unesco.
Uma boa pedida é ir de Cananéia até a barra do Ararapira, no extremo sul do Estado de São Paulo, divisa com o Paraná, um roteiro de 30 milhas. Essa barra abriga um lugar maravilhoso: um banco de areia conhecido como Ilha Fantasma. Na parte interna desse banco de areia forma-se um remanso com dois metros de profundidade, um ótimo lugar para se ancorar. A praia, linda e deserta, fica voltada para o mar. Como se isso não bastasse, quando em maré baixa, formam-se piscinas naturais e uma longa faixa de areia até a arrebentação. As crianças adoram. Os adultos também!
Na margem sul dessa barra fica o povoado de Ararapira, pequena vila de pescadores onde aparentemente o tempo parou. São cerca de 100 famílias de caiçaras vivendo em poucas dezenas de casas. Só tem uma pousada. Você pode passar a noite ouvindo modas de viola. Saindo de Cananéia — cidade que oferece aluguel de barcos, combustível, água e suprimentos, além de uma ótima culinária, especialmente para quem gosta de frutos do mar, e muitas opções de hospedagem —, a viagem até a barra tanto pode ser feita tanto em cerca de 75 minutos quanto demorar horas. Só depende da sua pressa e da vontade de explorar as atrações que vai cruzar pelo roteiro. Dele faz parte, por exemplo, Marujá, vila de pescadores onde se encontram bons lugares para comer e linda praia deserta. Outra atração é São José do Ararapira, vilarejo fundado em 1776 que se transformou em uma cidade fantasma após a abertura do Canal do Varadouro, em 1952, quando as casas passaram a ser derrubadas pelo regime de marés. A casa da derradeira moradora permanece intacta e fechada desde o dia de sua morte. A Igreja de São José, construída no fim do século 19, ainda conserva os bancos de madeira e as imagens no altar singelo. Mas não há missas, nem padres, nem fiéis, exceto no dia 19 de março, quando se cultua o padroeiro São José com uma grande festa.
Se a pedida é comer bem, vale a pena fazer um pequeno desvio do nosso caminho e, em cinco minutos, chegar à vila do Ariri, onde existem boas opções. Próximo dali, num lugar conhecido como Melão, existe uma pequena ilha onde impressiona a todos a facilidade e a fartura com que se encontra um pequeno molusco com o nome de “vôngole” – ótimo programa para se fazer na volta da barra do Ararapira.
Navego nesta região há mais de 20 anos. Uma experiência extremamente desafiadora e emocionante, proporcionada por um lugar que reúne natureza quase intocada, golfinhos nos quais quase se pode tocar, pesca farta, piscinas naturais, praias, cachoeiras e várias cidades e povoados. Nesse cenário, já naveguei mais de 15 mil milhas, passando maravilhosos fins de semana, como comprova o hodômetro de minha velha lancha”.
O leitor Tullio Bevilacqua, concedeu esta entrevista à revista Náutica, em Junho de 2014.
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Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.
O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!
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