Em dois anos, Rio Pinheiros estará pronto para receber barcos, garantem secretários

20/11/2020

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Durante o primeiro dia do São Paulo Boat Show 2020, o presidente do Grupo Náutica, Ernani Paciornik, propôs ao secretário de Infraestrutura e Meio Ambiente, Marcos Penido, e ao secretário de Turismo do estado de São Paulo, Vinicius Lummertz, um debate sobre a despoluição das águas do Rio Pinheiros.

O objetivo era saber em que pé andam as promessas do governador João Dória de entregar o Pinheiros até dezembro de 2022, para ser explorado turisticamente e como meio de transporte público e de lazer.

O encontro aconteceu no estúdio flutuante instalado na Raia Olímpica da USP, com mediação da jornalista Millena Machado. Durante a transmissão, barcos de todos os tipos e pranchas circundavam a sala envidraçada, num cenário de cidade náutica americana ou europeia.

As revelações soaram como música para os nossos ouvidos. E música das boas. De acordo com Marcos Penido, as obras de recuperação dos 25 quilômetros de extensão do rio Pinheiros e de suas margens estão sendo tocadas em ritmo acelerado, dentro do cronograma inicial, com todos os cuidados com os trabalhadores encarregados de sua execução em tempos de Covid-19.

“Já passamos pelas fases de planejamento e elaboração de projetos e pela fase de contratação das obras. Nesse momento, estamos na fase de execução, já com todos os contratos dos 16 coletores troncos que levarão o esgoto para tratamento nas unidades recuperação de qualidade da água contratados”, diz o secretário, referindo-se às obras de infraestrutura. “Isso significa que estamos perto de transformar o sonho de despoluir o Pinheiro em realidade”, garantiu Marcos Penido.

Até aqui, segundo ele, já foi retirado o equivalente a mais de 34 mil caminhões de sedimentos, o maior desassoreamento da história do Pinheiros. “Sem contar as seis mil toneladas de lixo que retiramos apenas no último trimestre. E não se trata de sedimentos, mas de pneus, garrafas pet, pedaços de roupa, pedaços de madeira, móveis etc., o que reflete o descaso com que tratamos os nossos rios”, acrescentou o secretário da Infraestrutura e Meio Ambiente.

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A revitalização do rio prevê também o plantio de 30 mil mudas de árvores em 13 quilômetros de suas margens. “Estamos investindo cerca de R$ 2 bilhões, gerando 4 200 empregos, sendo 2 300 empregos diretos”.

Por sua vez, o secretário Vinicius Lummertz apresentou imagens de famosos rios do mundo que foram despoluídos, depois de terem sido apontados como mortos, como o Tâmisa, em Londres, e o Sena, em Paris. “É assim que o Pinheiros vai ficar. E, ao fazer isso, o turismo vai ser o grande beneficiário. Vamos resgatar o meio ambiente, promover qualidade de vida e reequipar espaços de cultura e lazer. Tudo vai mudar”, garantiu.

A expectativa é de que 3,3 milhões de pessoas sejam diretamente beneficiadas pela despoluição do Pinheiros. “E a cidade de São Paulo vai ser descoberta pelo turista internacional”, destacou o Vinicius Lummertz.

O projeto prevê a instalação de estações de embarque e desembarque a cada quilômetro do Rio Pinheiros. Para isso, o governador pretende construir um ponto turístico na Usina São Paulo (antiga Usina de Traição), com tela de cinema, exposições de arte, bares e restaurantes. “Será o desabrochar de São Paulo para uma nova realidade”, acredita o secretário Marcos Penido.

Pelo lado da navegação, Ernani Paciornik afirmou que sempre acreditou na possibilidade de São Paulo usar seus rios como opção de transporte, lembrando as ações promovidas pelo São Paulo Boat Show nos últimos anos, dentro projeto “Por uma Cidade Navegável”. Segundo ele, o transporte fluvial será uma ótima solução para desafogar as avenidas Marginais de São Paulo e melhorar o trânsito, além de oferecer uma nova possibilidade de lazer ao paulistano.

A despoluição do Pinheiro será também um importante gerador de recursos para a indústria náutica, com o aumento da demanda por barcos. Porém, para que isso aconteça, será necessário que os autores do projeto não se esqueçam da infraestrutura, com a oferta de rampas de acesso para os donos de barcos e construção de marinas. “Sem infraestrutura, o setor náutico não tem como se desenvolver”, alertou Ernani. “Fique tranquilo”, respondeu o secretário de Infraestrutura e Meio Ambiente. “Estamos com apenas 14% do trabalho realizado. Imagine com 100%”.

São Paulo Boat Show 2020

Quando? De 19 a 24 de novembro
Dias de semana das 15h às 22h
Finais de semana das 13h às 22h
Onde? Raia Olímpica Universidade de São Paulo
Mais informações: www.saopauloboatshow.com.br

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    Quem fala pela náutica?

    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

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    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

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