Zigue-zague entre dois mares


Há alguns anos, subi na garupa de uma Harley Davidson Heritage Classic para encarar mil milhas de um trecho longilíneo emoldurado ao oeste pelo oceano Pacífico e ao leste pelo Mar de Cortés. Percorrer a península da Baja California, no México, na D1, ou Transpeninsular, é uma experiência única. Ainda mais de moto, com o vento no rosto. Traçamos um zigue-zague entre dois mares e o deserto, um cenário árido e desolado salpicado por cactos gigantes, típicos pueblos e, claro, praias estupendas. A aventura foi deliciosa e melhor ainda foi o desfecho e um merecido repouso para limpar a poeira no Las Ventanas al Paraíso, um luxuoso resort em Cabo San Lucas.
O melhor deste tipo de viagem é que você não precisa virar escravo do gps. E, se fugir dele, acaba descobrindo cantinhos que mal constam do mapa. Um deles foi por intuição e pura sorte. A cerca de 200 quilômetros de Loreto, entre Santa Rosalia e Mulegê, existe uma baía em forma de ferradura. O mar é de uma mansidão impressionante, e se torna um ancoradouro ideal para pequenos veleiros. Beirando a praia de areia branca e fina, há mansões e casas cujo estilo arquitetônico é uma mescla entre o moderno e o colonial mexicano. Este oásis de tranquilidade chama-se Punta Chivato e não corre nenhum risco de perder seus encantos naturais, pois é tombado pelo Patrimônio Mundial.
Embora seja o reduto de veranistas abastados, o acesso é (felizmente) precário: 16 quilômetros de estrada de terra e areia o segregam do asfalto, e ainda assim não é qualquer veículo que consegue se desvencilhar dos trechos mais traiçoeiros. Mas, vale tentar chegar até lá, pois o esforço é recompensado pelo cenário irresistível: a água azul cobalto do mar de Cortés, os contornos da ilha vulcânica de Santa Inês no horizonte, as praias deliciosamente desertas, os pelicanos empoleirados nas pedras — tudo é cativante. O ideal é se planejar para passar a noite no charmoso Posada de las Flores, único hotel butique de Punta, pé na areia, com vistas deslumbrantes da maioria das suítes, uma piscina acolhedora… Num ambiente mega descontraído, janta-se al fresco à luz de velas num terraço projetado para o mar.
Na manhã seguinte, antes do sol virar um maçarico, aproveite para explorar a pé duas praias contíguas, absurdamente desertas, perfeitas para nadar ou mergulhar. Ao retomar a Transpeninsular, prepare-se para um dos trechos mais cênicos da Baja, um traçado curvilíneo tão rente ao mar que por pouco não dá vontade de se atirar literalmente nas águas plácidas e reluzentes. Impressiona a presença constante dos imensos cactos retorcidos que se erguem, soberanos, à beira do mar, numa paisagem que mescla deserto com pequenas enseadas, num mar de cores que oscilam entre o verde esmeralda e o azul turquesa.
San Ignazio: pueblo adormecido
Conhecido em toda a península como um pueblo absurdamente silencioso, San Ignazio sempre suscitou piadinhas. Falam que os ignazianos passam a faca nas cordas vocais de seus galos para silenciá-los; que seus telefones não tocam, mas fazem shhhhhhhhhh!; e que untaram as folhas das palmeiras para que apenas sussurrassem quando esbarradas pelo vento. É verdade que à primeira vista, parece mesmo uma cidade fantasma. Totalmente imersa em silêncio. Uma das razões para tamanho torpor pode ser o calor, sufocante até mesmo na primavera. Ao meio dia, com o sol a pino, a plaza principal está deserta, a igreja fechada, e a impressão é que todos os habitantes da vila estão dormindo em suas casas. Nem restaurante abre e para saciar a fome só mesmo uma birosca onde é preciso apelar para os pastéis cujo recheio de tâmara é uma especialidade local. Nada muito gastronômico, mas é com este recheio que preparam suas quiches, tacos… O pueblo é uma das missíons mais conhecidas da Baja, fundada pelos jesuítas em 1728, e a principal atração turística local são as baleias cinzas que atravessam o Mar de Cortés entre novembro e abril. Se você estiver pelas paragens nesta época, é um espetáculo com entrada franca que vale a pena ser admirado. A cerca de cinco horas de Loreto, San Ignazio é uma parada interessante a caminho de algum outro destino, principalmente devido a atmosfera característica de um lugar que estagnou no tempo.
A jornalista e fotógrafa carioca Antonella Kann é uma travel expert em viagens que combinam atividades esportivas com quesitos de luxo
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