Antigo iate do ex-presidente líbio Muammar el Gaddafi ganhará repaginada sustentável

Por: Redação -
01/04/2021

Durante os 43 anos de governo na Líbia, o ex-presidente Muammar el Gaddafi acumulou uma verdadeira frota de automóveis. Com um repertório que vai desde carros de luxo à aviões e superiates, a lista não para de crescer.

O que Gaddafi nunca escondeu foi a predileção por uma certa embarcação: um Sunseeker Predator, do ano de 2004, com 28 metros de comprimento (ou 91 pés) e quatro camarotes, apelidado de “Che Guevara”.

hydrogen viking

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A admiração por Che Guevara era tão grande que até a poltrona do posto de comando foi estilizada a caráter. Nela, o pedido foi para reproduzir uma imagem do ídolo na parte traseira. De acordo com algumas fontes, o local era tão apreciado que o governante nem liberava o assento para outras pessoas.

Com o passar dos anos, Gaddafi não parece ter mantido esse favoritismo pelo iate. Ao sofrer uma série de colisões sob o comando de um dos filhos do ex-presidente, o Che Guevara acabou abandonado em uma marina maltesa, sem reparo algum.

O designer Rory Coase, do estúdio Coase Design, é o responsável pela repaginada no barco depois de um novo estaleiro adquiri-lo. O relato é de que o modelo estava “uma bagunça” e “sendo vendido pelos mais próximos e queridos de Gaddafi por uma pechincha”, até ser resgatado pela iniciativa da Green Yacht.

“Havia muita água na quilha e nos porões”, explicou. “Não era nem mesmo uma tela em branco.”

hydrogen viking

O estaleiro Green Yacht deu uma nova vida ao iate ao decidir repaginá-lo sob a proposta sustentável. Em parceria, os diretores do estaleiro Bergen, também norueguês, o repensaram por completo, e querem torná-lo o primeiro barco a hidrogênio capaz de navegar a 30 nós.

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O objetivo é realizar uma viagem sem emissões de CO2, ao instalar células de combustível de hidrogênio, aliadas a uma unidade de propulsão elétrica sob o casco.

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Primeira imagem do projeto de reconstrução

A responsável pela propulsão do modelo é a empresa Corvus Energy, pioneira em armazenamento de energia. Ela desenvolverá e fornecerá a engenharia de célula de combustível de hidrogênio usando uma tecnologia já conhecida da marca Toyota.

Os tanques que armazenam hidrogênio comprimido serão colocados ao lado dos sistemas de reabastecimento. Módulos de células de combustível e baterias de alta capacidade fornecerão energia elétrica, impulsionando a embarcação, silenciosamente, na água. A única emissão desse sistema de energia será a água, que pode ser usada para beber posteriormente.

Depois do iate ser rebatizado de Hydrogen Viking e ganhar uma nova proposta, Coase recebeu a tarefa de redesenhar totalmente o exterior e interior da embarcação e, segundo ele, foi um trabalho que ressignificou totalmente a proposta do barco. A equipe de grandes investidores e parceiros técnicos decidiu por desmontá-lo totalmente e reconstruí-lo cômodo por cômodo.

O que antes era o espaço das antigas máquinas do navio, tornaram-se suítes com acesso direto à área de banho. E quanto à poltrona no posto de comando, nada muda! “Mesmo quando não era mais seu iate, ninguém mais tinha permissão para se sentar naquela cadeira. Há pedaços de história que são interessantes de manter porque é uma história muito envolvente do proprietário anterior”, explica o designer.

A esperança é que a Hydrogen Viking possa provar a viabilidade para adaptar a tecnologia do hidrogênio aos iates existentes, em vez de construir conceitos específicos para o hidrogênio. A previsão é que a embarcação volte a navegar na próxima temporada de 2022, após testes completos em mar aberto que reafirmam a segurança do projeto.

Por Naíza Ximenes, sob supervisão da jornalista Maristella Pereira.

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    Quem fala pela náutica?

    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

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