Domingo de ouros! Brasil é campeão dos Europeus de 49er FX e Star
A vela ganhou neste domingo (19) mais duas medalhas de ouro para o Brasil. Com uma campanha brilhante ao longo da semana, as campeãs olímpicas Martine Grael e Kahena Kunze conquistaram o Campeonato Europeu da classe 49er FX, em Weymouth, na Inglaterra. E em Riva del Garda, na Itália, Robert Scheidt e Henry Boening, o Maguila, ganharam o Europeu de Star de forma emocionante, ultrapassando a dupla francesa Rohart/Ponsot nos metros finais da regata decisiva.
“Eu estava tão cansado que ele (Maguila) foi quem me disse que nós vencemos. Eu perguntei: ‘Nós realmente ganhamos?’ E ele disse: ‘Sim, ganhamos.’ Foi uma regata incrível desde o começo. Os franceses fizeram um bom trabalho, estavam bem rápidos. Mas nós nos mantivemos perto e tivemos a chance de entrar por dentro e vencer na linha de chegada”, descreveu Robert Scheidt, em entrevista ainda no barco para a equipe de comunicação do evento.
Dono de cinco medalhas olímpicas — sendo duas na Star, que não faz mais parte do programa dos Jogos —, Robert Scheidt agora volta suas atenções para sua campanha rumo a Tóquio 2020. A partir de 3 de julho, o velejador participa do Campeonato Mundial da classe Laser, que será disputado na raia olímpica.
Já Martine e Kahena conquistaram neste domingo seu terceiro título em 2019 na 49er FX, depois dos triunfos na etapa de Miami da Copa do Mundo, nos Estados Unidos, e no Troféu Princesa Sofia, na Espanha.
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O Europeu de 49er FX foi disputado na mesma raia dos Jogos Olímpicos de Londres 2012. Martine e Kahena assumiram a liderança da classificação geral na quarta-feira e não a perderam mais. A dupla chegou à regata da medalha deste domingo com o ouro praticamente garantido. Sem arriscar e sem atrapalhar as adversárias que lutavam por classificação para Tóquio 2020, as brasileiras subiram no topo do pódio com 76 pontos perdidos, mesmo terminando em décimo lugar na prova decisiva. Em segundo lugar ficaram as atuais campeãs mundiais, as holandesas Annemiek Bekkering e Annette Duetz (79 p.p.).
“Estamos felizes por conquistar nossa primeira vitória em um Europeu! Foi um campeonato mais longo do que estamos acostumadas. Foram sete dias. No final da semana, o vento foi diminuindo e ficou um pouco mais difícil manter nossa média do início. Estamos muito contentes com nosso resultado aqui e estamos em busca de sempre melhorar”, disse Kahena.
“Começamos a semana bem fortes. E graças a esse começo conseguimos nos manter na frente mesmo com os resultados dos últimos dias”, afirmou Martine.
Os dois ouros deste domingo foram a coroação de um ótimo fim de semana para a vela brasileira. Na sexta-feira, o país garantiu classificação para os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 na classe Finn, graças do bom desempenho de Jorge Zarif no Campeonato Europeu de Atenas. O brasileiro terminou a competição na sétima colocação no geral (111 pontos perdidos).
Ao todo, a vela brasileira já está garantida em Tóquio 2020 na Laser, Nacra 17, Finn e 49er FX. Nas demais seis classes do programa olímpico, o país ainda busca vaga nas competições internacionais deste ano.
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O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!
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