Catamarã 99: como barco menos potente que o de Eike Batista quer quebrar recorde da Santos-Rio
Embarcação de 39,6 pés aposta em fibra de carbono, baixo peso e dois motores Mercury 500 Racing para tentar reduzir a marca atual em quase 1h


Um catamarã de 39,6 pés e apenas 2.500 kg — já com os motores —, está sendo preparado para tentar quebrar uma das marcas mais conhecidas da motonáutica brasileira. O Catamarã 99, apresentado no São Paulo Boat Show 2026, será usado pelo brasileiro Ricardo Rodrigues e pelo estadunidense Randy Sweers na tentativa de superar o recorde da travessia Santos-Rio, estabelecido por Eike Batista em 2006.
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A marca atual é de 3h01min47s, registrada por Eike a bordo do Spirit of Brazil em sua segunda tentativa de realizar a travessia. O catamarã de 46 pés percorreu as 194 milhas do percurso chegando a atingir um pico de 114 nós, o equivalente a 211 km/h.


Agora, a equipe do Catamarã 99 pretende fazer o mesmo percurso em 2h10min — uma redução de mais de 50 minutos em relação ao recorde atual. Para isso, a aposta não está em uma potência maior, mas em uma combinação de baixo peso, materiais de alta resistência, aerodinâmica e tecnologia voltada à alta performance.
Menos potência, muito menos peso
O Spirit of Brazil utilizado por Eike era equipado com dois motores de alta potência e, segundo a edição 209 da Revista Náutica, chegou a utilizar dois propulsores de 1.800 hp cada.
O Catamarã 99, por outro lado, terá dois Mercury 500 Racing, de 500 hp cada, totalizando 1.000 hp. Ainda assim, o conjunto foi projetado para alcançar aproximadamente 150 milhas por hora, ou cerca de 240 km/h.


“Ele é um barco muito leve, um barco muito veloz, que vai atingir aproximadamente 150 milhas”, explicou Marcelo Simonini, da VPR Power Sport, empresa responsável pela montagem, acabamento, partes elétrica e hidráulica da embarcação.
O peso, aliás, é justamente um dos principais trunfos do projeto. Segundo Fabrício Bonaldo, gerente operacional e técnico da R-Sport Powerboats, o Catamarã 99 pesa 2.500 kg já montado e equipado com os motores.
Ele tem 2.500 quilos já montado, com dois motores de 500 hp. Ou seja, a gente tem 1.000 cavalos empurrando praticamente 2.000 quilos– detalhou
Fibra de carbono e resina epóxi
Para alcançar esse desempenho, a construção do Catamarã 99 é baseada em fibra de carbono e resina epóxi. A combinação, segundo Bonaldo, contribui para reduzir o peso sem renunciar à resistência necessária para uma embarcação submetida a velocidades extremas. “Ele é um catamarã feito 100% para velocidade”, frisou.


A própria geometria do casco foi pensada para a competição. O projeto conta com um túnel característico dos catamarãs e steps no fundo do casco, que ajudam a controlar o contato da embarcação com a água. Para ele, os steps contribuem para gerar sustentação e manter o barco em velocidade elevada, reduzindo a trepidação e o risco de a embarcação perder o contato adequado com a água.
Dois Mercury 500 Racing
A motorização prevista para a tentativa é composta por dois Mercury 500 Racing, preparados para aplicações de competição. No São Paulo Boat Show, o Catamarã 99 está equipado com a configuração que deve ser utilizada na tentativa, embora Simonini ressalte que ainda pode haver pequenas modificações nos motores antes da travessia.
Provavelmente serão os Mercury de 500 hp. Talvez tenha uma pequena modificação deles, mas, a priori, vai ser esse motor mesmo, que é o Mercury de linha original– destacou
A combinação entre os motores e o baixo peso é parte fundamental da estratégia para superar uma embarcação que, apesar de contar com potência muito superior, tinha uma relação peso-potência diferente.
Meta é fazer Santos-Rio em 2h10
A equipe pretende realizar a travessia entre Santos e Rio de Janeiro em 2 horas e 10 minutos, contra as 3 horas, 1 minuto e 47 segundos registradas por Eike Batista em 2006. A tentativa está prevista para novembro ou dezembro de 2026, de acordo com Simonini.


A travessia, porém, não será apenas uma questão de velocidade máxima. O percurso envolve condições variáveis de mar e exige que a embarcação consiga sustentar altas velocidades durante todo o trajeto. Na tentativa de Eike, problemas técnicos chegaram a comprometer o desempenho do Spirit of Brazil: um cabo de força se soltou acidentalmente e, posteriormente, um dos motores apresentou problema no sistema de alimentação de combustível.
Ricardo Rodrigues e Randy Sweers serão os pilotos
O Catamarã 99 comporta até cinco pessoas, mas apenas duas estarão a bordo durante a tentativa de quebra do recorde. O brasileiro Ricardo Rodrigues, proprietário da embarcação, será o piloto. Ao seu lado estará o americano Randy Sweers, proprietário da R-Sport, que atuará como throttle, responsável pela aceleração e pelo controle dos trims.
A própria decoração do barco faz referência à parceria entre os dois países. Um dos lados remete ao Brasil e o outro aos Estados Unidos, representando a nacionalidade dos dois integrantes da dupla.
Barco brasileiro, projeto sul-americano
Apesar de destinado ao mercado norte-americano e de a R-Sport ter forte atuação nos Estados Unidos, o Catamarã 99 foi construído integralmente no Brasil, no Guarujá, litoral de São Paulo. Segundo Bonaldo, o processo incluiu a fabricação do molde, laminação, construção, montagem e instalação dos motores, ao passo que a Mercury Brasil forneceu os dois propulsores utilizados no projeto.
Fizemos o molde, toda a parte de laminação, toda a parte de construção. Toda a construção e toda a equipe são brasileiras– ressaltou Bonaldo
O projeto também não é americano, como poderia sugerir o destino das embarcações produzidas pela R-Sport. O responsável pelo desenho é Ricardo Rinaldi, projetista argentino radicado em Santa Catarina.
Não é um projeto americano. É um projeto brasileiro mesmo, é um projeto da América do Sul– detalhou
De olho no mercado brasileiro
A tentativa de recorde também tem outro objetivo: apresentar ao público brasileiro um tipo de embarcação que já encontra mercado nos Estados Unidos. A R-Sport Powerboats já produziu 13 unidades da versão aberta de 39 pés, além de seis unidades de uma configuração center console equipada com cinco motores Mercury de 500 hp. O Catamarã 99 é o primeiro modelo fechado dessa configuração.
Esse é o nosso primeiro barco que vai tentar bater um recorde e depois será exportado para os Estados Unidos para competir– explicou Bonaldo
Para Simonini, a exposição no São Paulo Boat Show 2026 ajuda a aproximar esse mercado do público brasileiro. “Trabalhamos com o mercado de barcos offshore, que são barcos mais rápidos, então isso atrai um pouquinho mais essa curiosidade do público e esquenta esse mercado”, afirmou.
Um barco de projeto como o Catamarã 99 está avaliado em aproximadamente R$ 6 milhões, de acordo com Simonini.
São Paulo Boat Show 2026
O maior salão náutico da América Latina leva seus visitantes para uma verdadeira imersão no universo das águas. Mais de 170 embarcações, incluindo botes, lanchas e jets, tomam conta do pavilhão do São Paulo Expo e podem ser vistas de perto.


O público ainda encontra uma ampla variedade de equipamentos, motores, acessórios e serviços náuticos das principais marcas do mercado. Veículos off-road, projetos inovadores e atrações para toda família, como o NÁUTICA Talks, complementam o evento, que traz ainda o Espaço dos Desejos, área de luxo que expõe carros esportivos, helicópteros, relógios de alto padrão e até obras de arte.
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SÃO PAULO BOAT SHOW 2026
Quando: de 24 a 29 de setembro de 2026
Onde: São Paulo Expo (Rodovia dos Imigrantes, km 1,5 – Vila Água Funda, São Paulo – SP)
Horário: das 13h às 22h; no primeiro dia, abertura às 15h; no último dia, encerramento às 21h
Mais informações: no site do evento
Ingressos: site oficial de vendas
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O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
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