Martine Grael é anunciada pelo time dos Estados Unidos no SailGP

Bicampeã olímpica substituirá Taylor Canfield no comando do F50 americano durante a etapa em Genebra neste final de semana

18/09/2026
Foto: Felix Diemer / SailGP / Divulgação

A brasileira Martine Grael foi anunciada pelo U.S. SailGP Team como piloto da equipe para o Rolex Switzerland Sail Grand Prix, que será disputado neste fim de semana, em Genebra, na Suíça. A contratação é específica para a etapa e ocorre após as lesões de Taylor Canfield e Harry Melges, que estão afastados da competição.

Bicampeã olímpica na classe 49erFX, com ouros no Rio 2016 e em Tóquio 2020, Martine foi a primeira mulher a pilotar um F50 em uma competição do SailGP. Agora, ela assumirá o comando do F50 americano ao lado da também olímpica Anna Weis, Grinder da equipe. Com a escalação, os Estados Unidos serão a primeira equipe da história do SailGP a competir com duas mulheres a bordo.

Foto: Jason Ludlow / SailGP / Divulgação

A chegada ao time norte-americano acontece poucos dias depois da saída de Martine do Mubadala Brazil SailGP Team. A brasileira anunciou que não disputaria o restante da temporada de 2026 pela equipe, da qual fazia parte desde sua criação. A comunicação do Mubadala confirmou posteriormente a reformulação do time brasileiro, com Paul Goodison assumindo a função de Piloto e Kahena Kunze retornando como Estrategista.


A oportunidade de defender os Estados Unidos surgiu de forma inesperada, segundo Martine. Após receber a notícia da lesão de Taylor Canfield, ela chegou a acreditar que o time ainda poderia contar com Harry Melges. Com a segunda baixa, porém, a brasileira foi chamada para substituir os dois pilotos.

Eu não sabia o que faria no futuro e então recebi um telefonema dizendo que Taylor e Harry haviam se machucado. Parecia algo do destino. Uma daquelas coisas que você não pode controlar e, na vela, isso acontece com frequência– revelou Martine

Sobre a mudança para uma nova equipe em um momento decisivo da temporada, a brasileira destacou a necessidade de adaptação rápida. “Quando você chega a uma nova equipe, precisa entender como ela trabalha. Essa é a parte mais importante: tentar trabalhar com esse time, porque eles obviamente estão fazendo um ótimo trabalho. Quero me adaptar à forma como estão velejando e tirar o melhor deles.”

Foto: Jason Ludlow / SailGP / Divulgação

Martine também falou sobre a oportunidade de competir ao lado de Anna Weis, com quem mantém relação de amizade. “Anna é uma dessas grandes atletas e também uma grande amiga. É incrível trabalhar juntas. É uma dessas pessoas que você admira pela ética de trabalho e pela força na busca pela excelência. É muito inspirador velejar ao lado dela.”

Anna Weis e Martine Grael. Foto: Jason Ludlow / SailGP / Divulgação

Segundo Mike Buckley, chefe de equipe, CEO e coproprietário do U.S. SailGP Team, a experiência recente de Martine e sua habilitação para pilotar um F50 foram determinantes para a escolha.

 

A etapa de Genebra será realizada nos dias 19 e 20 de setembro, no Lago Léman. O time americano chega à prova após vencer a etapa de Valência e disputa as últimas regatas da temporada em busca de uma vaga na grande final.

 

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    Quem fala pela náutica?

    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

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