Hélices


Se uma lancha navega devagar ou inadequadamente, a culpa é do motor, que não tem potência suficiente? Muitas vezes, o problema não está na cavalaria do motor e sim na maneira como ela chega à água. Ou seja, através do hélice. É ele que transforma toda a potência do motor em impulso para navegar. Sem o hélice adequado, de nada adianta ter potência de sobra no motor, porque o barco renderá mal do mesmo jeito. O hélice impacta tanto na velocidade quanto no consumo, porque permite que o motor atinja (ou não) a sua rotação máxima. Se o hélice for inadequado, forçará o motor e não permitirá que ele libere todo o torque que poderia gerar. O resultado disso será um desempenho insatisfatório e consumo maior. Ter o hélice adequado é, também, a maneira mais rápida — e barata — de melhorar o rendimento de qualquer barco a motor. E sem precisar trocar o motor. Confira algumas dúvidas mais frequentes sobre este equipamento, que é tão fundamental num barco a motor quanto os pneus em um automóvel.
1 – O que é passo?
Passo é o deslocamento, em polegadas, que um hélice gera na água — como o avanço de um parafuso ao
ser girado. Ele representa a distância teórica percorrida pelas pás, ao dar uma volta completa. Passo e diâmetro são as duas medidas básicas de qualquer hélice. O passo tem influência direta na velocidade que o hélice é capaz de imprimir à lancha. Quanto maior o passo, mais rápido será o barco. Mas sempre há uma perda de cerca de 50% de eficiência, por conta do “deslizamento” (slip) do hélice na água. Portanto, um hélice passo 14 polegadas, por exemplo, permitirá um avanço teórico de apenas 7 polegadas na água. Com o passo certo, o motor trabalha mais aliviado e gasta menos combustível.
2 – Como acertar o passo?
Se, na aceleração máxima, um motor não atingir (ou ultrapassar) a rotação máxima, é sinal que o passo do hélice está errado. Ou seja, se ele chegar ao limite de rotações sem que o acelerador esteja no máximo é sinal de que algo está errado com o passo. Giros a mais sugerem passo curto demais; giros a menos indicam passo longo além da conta. Mas acertar o passo não é nada complicado. Observe o contagiros
e acelere até o fim, com o trim regulado para a velocidade máxima e o barco com carga normal e, de preferência, tanque cheio. Se a rotação máxima ficar abaixo do indicado pelo fabricante do motor, substitua o hélice por outro de passo menor. Como regra geral, cada polegada de passo corresponde a uma rotação de 150 a 200 rpm no motor, mas, normalmente, os hélices são comercializados com
variação de duas (e não uma) polegadas. Neste caso, fique com o passo que deixar o motor mais
próximo do que ele pode render.
3 – É melhor hélice de alumínio ou de aço?
A eficiência de um hélice depende, também, muito do material do qual ele é feito. Os hélices de alumínio custam menos, são mais leves, mais baratos e usados nos motores de baixa potência. Mas, como o alumínio é um material relativamente macio, ele sofre uma deformação natural, o que provoca perda de rendimento. Por isso, só devem ser usados em motores com menos de 115 hp. Já o aço inox é bem resistente e permite pás mais finas, que “cortam” melhor a água. Por isso, hélices deste material duram mais e têm melhor desempenho. Mas são mais pesados e mais caros.
4 – O peso do hélice importa?
Sim, porque quanto mais pesado, mais o hélice exigirá do motor. E quanto mais leve ele for, mais rapidamente será atingido o planeio, situação em que todo barco navega melhor e com mais velocidade.
4 – Quantas pás? Três ou quatro?
Hélices de três pás têm a melhor relação entre tamanho, eficiência, vibração e custo. Em geral, proporcionam mais velocidade. Já hélices de quatro pás provocam menos vibração. Mas, por outro lado, têm menos eficiência. Como regra geral, hélices de três pás têm desempenho melhor em rotações médias
e altas, enquanto os de quatro pás têm mais empuxo nas baixas e médias rotações, além de menor risco de cavitação. Outro detalhe importante é a espessura das pás. Quanto mais finas, melhor elas “cortarão” a água e criarão menos arrasto.
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Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.
O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!




