Investimentos em marinas e infraestrutura náutica foram debatidos em fórum da ANB

Painel discutiu viabilidade ambiental, geração de empregos e políticas públicas para impulsionar o crescimento ordenado do setor náutico na Bahia e no Brasil

Por: Redação -
17/09/2026
Leilane Loureiro, Bianca Colepicolo, Mário Bandeira e José Zacarias. Foto: Márcia Luz/ Revista Náutica

“Investimentos em Infraestruturas Náuticas, Marinas e Afins” foi o painel que encerrou a programação do primeiro dia do 2º Fórum Náutico Internacional da ANB. Mediado por Leilane Loureiro, diretora da ANB e proprietária da Bahia Marina, o encontro trouxe informações e discussões sobre a implantação de novas marinas e políticas públicas adequadas para fomentar o crescimento ordenado do setor, abordando aspectos técnicos, ambientais e legislativos.

O painelista Mário Bandeira alertou que 98% da estrutura náutica impacta em questões ambientais, e por isso exige estudos de viabilidade minuciosos antes da implantação. Por outro lado, os benefícios disso para uma comunidade são grandes, a começar pela geração de emprego.

Foto: Márcia Luz/ Revista Náutica

Ele lembrou que cada barco emprega no mínimo de quatro a sete pessoas. Além disso, o potencial do setor no Brasil — com o crescimento de atividades como passeios de escuna, lanchas, avistamento de baleias e pesca esportiva — justificam os projetos de novas marinas em diferentes regiões. “Tudo depende de estudar a capacidade dos locais”, ressaltou.

 

O economista José Zacarias (Sebrae/BA), por sua vez, apresentou um mapeamento de oportunidades náuticas na Bahia. Entre as potencialidades competitivas, destacou os 1.200 km de costa, baías e condições climáticas diferenciadas que permitem boa navegação.


Ele defendeu ainda o projeto que prevê a instalação de uma base de apoio a cada 30 ou 50 milhas para navegação noturna, e enfatizou que 70% dos visitantes das marinas não têm barco, mas são pessoas que apreciam frequentar um restaurante de frente para o mar — o que potencializa os municípios e faz a economia girar.

 

Especialista em turismo, Bianca Colepicolo, frisou que quando se fala em destino náutico, é diferente de pensar em território. “O turista compra um pacote, um passeio, e não um município”, explicou. Para ela, uma visão estratégica do negócio, por exemplo, busca criar roteiros e conectar marinas para gerar crescimento conjunto.  Segundo a palestrante, a Bahia tem uma estrutura náutica menor do lugares como São Paulo, mas isso é vantagem pois o crescimento pode ser ordenado, considerando essa conexão.

Salvador Boat Show 2026

A agenda de conteúdo náutico também seguirá em Salvador ainda este ano. De 5 a 8 de novembro, a Bahia Marina recebe a 3ª edição do Salvador Boat Show, maior evento náutico da Bahia. Realizado na Baía de Todos-os-Santos, o salão reunirá embarcações, marcas, equipamentos e serviços ligados à navegação, aproximando o público de negócios, turismo náutico, lazer, inovação e experiências no mar.

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    Quem fala pela náutica?

    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

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