Quer morar em um navio? Cruzeiro ao redor do mundo custa US$ 30 mil ao ano
Clientes da Life at Sea Cruises podem viver a bordo de um navio durante jornada que visitará 135 países


Os amantes do mar não precisam mais esperar as férias para viajar. Essa é a ideia por trás de um cruzeiro de volta ao mundo apontado como a “lista suprema de desejos”, onde os passageiros poderão viver a experiência de morar em um navio ao longo de um ano inteiro – ou até mais.
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Com um investimento de US$ 30 mil (cerca de R$ 160 mil) ao ano, os clientes da Life at Sea Cruises vão embarcar em uma viagem por todos os continentes do planeta.
Com internet via satélite, os passageiros do navio MV Gemini podem trabalhar remotamente durante o cruzeiro. Tudo isso enquanto desbrava cenários belíssimos, como Maldivas, Antártica, Caribe, Alaska, Madagascar e ilhas gregas, entre muitos outros pontos.


Além disso, o percurso fará visitas a locais icônicos como o Taj Mahal, a Grande Muralha da China e Machu Picchu. A embarcação já está aceitando reservas para o cruzeiro mundial de três anos, que parte de Istambul no dia primeiro de novembro.
No itinerário completo, os passageiros a bordo do Gemini vão navegar mais de 130 mil milhas náuticas e visitar 375 portos de 135 países, incluindo o Brasil. Por aqui, o cruzeiro deve cobrir não só a costa, como também navegar pelas águas do Rio Amazonas.


Serão visitadas 14 cidades brasileiras no total. A lista inclui Manaus, Fortaleza, Recife, Salvador, Rio de Janeiro, Santos e Florianópolis, entre outros municípios. O passageiro que optar por morar no navio estará em águas brasileiras durante o Natal de 2023, inclusive.
O cruzeiro completo, que dura três anos, tem custo de US$ 180 mil (cerca de R$ 950 mil) para duas pessoas. O itinerário completo do cruzeiro de volta ao mundo pode ser conferido no Google Earth.
Com praticamente todas as comodidades incluídas no preço, a ideia da Life at Sea Cruises é oferecer aos seus clientes o “primeiro cruzeiro mundial feito especificamente para hóspedes que desejam fazer um cruzeiro, viver, trabalhar e explorar de sua casa no mar”, afirma a empresa.
Conheça o MV Gemini
Construído em 1992 e pesando 19 mil toneladas, a embarcação foi recentemente reformada. Ela possui 400 cabines, com capacidade para até 1.074 passageiros.


Segundo a empresa, os espaços a bordo foram redesenhados para residências de longo prazo e sensação de luxo, com lounges e deck na piscina, variedade nos estilos de cabine, salão de beleza e até spa — que oferece desde massagens e tratamentos faciais até aulas de ioga e meditação.
Com áreas espaçosas, o Gemini consegue evitar grandes multidões, ao mesmo tempo em que oferece todas as comodidades que os navios de cruzeiro maiores possuem, diz a companhia.
Trabalhar e morar em um navio
A Life at Sea Cruises afirma que o MV Gemini está totalmente equipado para ser o escritório itinerante de qualquer pessoa. Assim, quem tem a possibilidade de trabalhar de casa, agora pode também trabalhar “do mar”.


De acordo com o site da empresa, o navio pode acomodar “tarefas de escritório de qualquer lugar do mundo”, já que conta com Wi-Fi Starlink, salas de reunião, escritórios, lounge, impressoras e até biblioteca.
Atividades para quem topar morar em um navio
Apesar dos vários destinos que o cruzeiro oferece, passar até três anos em alto-mar pode se tornar entediante.


Pensando nisso, a embarcação conta com diversas atividades para entreter seu público no dia a dia, que vão desde piscina, academia e spa, até simulador de golfe e auditório, para garantir que a saudade da casa térrea não vai vir tão cedo.
O pacote vem com uma série de outras comodidades incluídas no preço, como todos os itens essenciais, cozinha de “classe mundial” e um serviço de lavanderia. Além disso, o Gemini conta com hospital 24 horas.
“Pensamos em tudo o que você precisa no dia a dia para viver sua vida ao máximo”, afirma a empresa.
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O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!
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