Regatas Preben Schmidt e Neptunus aconteceram no último fim de semana no Rio de Janeiro


No último final de semana de Vela do Oceano na temporada, um tempo lindo e o sol de rachar desafiaram os competidores que caíram na água para as disputas da 23ª edição da Preben Schmidt, no Rio Yacht Club, em Niterói (RJ), e a 24ª edição da Neptunus, no Rio de Janeiro, com largada na Escola Naval e premiação no Iate Clube do Rio de Janeiro. Lars Grael, com duas medalhas de Bronze em Olimpíadas, brilhou e faturou títulos nas duas competições. Kiko Pelicano, medalhista olímpico com Lars, ganhou uma das categorias na Neptunus. André Mirsky e o caratinense Ricardo Tolentino levaram títulos em Niterói e no Rio de Janeiro.
O grande destaque foi Lars Grael. Bronze nos Jogos de Seul, na Coreia do Sul, em 1988, e Atlanta, nos EUA, en 1996, ele superou o irmão Torben Grael usando o barco Marga, de 1933, na disputa da 23ª da Preben Schmidt, na categoria Clássicos. Torben, que vinha do título no ano anterior e tem duas Medalhas de Ouro em Olimpíadas, competiu com o Aileen, barco de 1912 de seu avô, Preben Schmidt, o homenageado da regata, barco medalha de prata na Olimpíada de Estocolmo em 1912. No domingo, na categoria Cruzeiro, a RGS, Lars voltou à Baía de Guanabara na 24ª edição da Neptunus, levando o troféu na categoria com o barco Tangará II, deixando o Xequemat, de César de Oliveira na segunda colocação com três minutos de vantagem.
“Foi um final de semana muito agradável, muito feliz, a Preben homenageia a origem de nossa família e do nosso querido clube Rio Yacht Sailing e uma regata de confraternização com medalhistas olímpicos, campeões mundiais, velejadores de várias gerações e poder velejar no Marga de 1933 e ganhar a regata eu com Renata, Samuel e Daniel e hoje de novo com nosso Tangara II. O Torben compete direto conosco, às vezes um ganha, outro leva, é natural ter uma certa rivalidade com o Torben, ano passado foi a vez dele ganhar e esse ano a nossa vez”, comemorou Lars que comentou sobre a vitória na Neptunus.
“A Neptunus é também uma homenagem ao Sérgio Mirsky, grande velejador, o filho dele o André Mirsky continuou essa tradição para homenagear aqueles que no passado fizeram a vela no Brasil acontecer. Foi uma regata de muita adversidade pois no princípio o vento estava bem forte na Baía de Guanabara, mas foi passar a ilha do Pai fora da Baía, o vento ficou muito fraco, os barcos andaram muito lentamente, foi preciso muita estratégia e paciência até passar por Copacabana e entrar de novo na Baía, chegava na Escola Naval. O Tangará II é um barco de Cruzeiro e dada a circunstância foi muito gratificante poder vencer essa regata”, disse Lars que encerrou seu ano disputando a classe Star onde foi vice-campeão Europeu, Sul-Americano, campeão Nacional, quatro na Bacardi Cup, em Miami, e nono lugar na Star Sailings Cup, nas Bahamas, finalizando a temporada entre os quatro melhores do mundo no ranking.
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Na Neptunus, Henrique Pelicano, o Kiko Pelicano, Bronze junto com Lars na classe Tornado em Atlanta 1996, faturou o título na classe IRC no barco Duma, do comandante Haakon Lorentzen, superando o barco Fita Azul da regata, o Sorsa III com o tempo de 3h27min41s contra 3h30min05s. “Regata importante pois foi a última do ano, no sábado teve a Preben, hoje a Neptunus, ótimo, vento que achamos que era forte, depois diminuiu, mas deu tudo certo. Final de semana muito bom, junta todo mundo da Vela, de vários lugares, pessoal de Florianópolis”, disse Kiko. “Velejei por muitos anos com o Lars na Tornado, hoje em dia gosto mais de Vela de Oceano, sempre gostei mais de regata mais longa, de Oceano, sempre aprendi com isso”, completou.
André Mirsky, filho do homenageado Sérgio Mirsky, ficou com o segundo lugar com o barco Neptunus HP na categoria ORC ficando atrás do barco Lady Milla, mas levantou o título na Preben com o barco Sorsa. Ele saiu com o sentimento dividido, mas contente por realizar por mais uma temporada a homenagem a Sérgio Mirsky que detém o recorde de milhas navegadas somando 28 fitas Azuis. “Foi ótimo, queríamos ganhar neste domingo também onde vínhamos muito bem, mas na parte final ficou sem vento e daí o Lady Milla que vinha atrás nos passou e foi abrindo, fizeram uma regata perfeita e faltou um pouco de sorte pra gente. Ficou um gostinho esquisito. No sábado foi uma regata que encalhamos no começo, mas depois não tivemos erro nenhum, foi perfeito”, disse Mirsky que em seu barco contou com a parceria de Eduardo Penido, medalha de Ouro nos Jogos Olímpicos de Moscou, na Rússia, em 1980. “A gente recebe o parabéns pela Neptunus logo cedo e isso não tem preço, minha mãe que nunca vem ao clube, veio hoje. É uma data perfeita com sol, calor, horário de verão e todos curtem, estamos bem felizes e buscando ainda melhorar para o próximo ano”.
O barco campeão da ORC, o Lady Milla, viu o comandante catarinense Ricardo Tolentino ficar surpreso com o triunfo. “Demos um pouco de sorte, acertamos na primeira boía, depois na do fundo, no fim complicou um pouco, mas estávamos com boa vantagem. Velejar nesse paraíso é incrível, estamos muito felizes”, celebrou.
Campeões Brasileiros e Estaduais definidos – A 24ª edição da Neptunus definiu os últimos barcos campeões Brasileiros através da Copa Brasil realizada pela ABVO, a Associação Brasileira de Veleiros do Oceano, e Estaduais. Na ORC o título nacional ficou com o barco do Espírito Santo, Bravíssimo e o título estadual com o Maestrale que chegou em sexto, mas ficou a frente do Santá Fé no ranking que chegou em quarto na regata. “A Neptunus é muito importante, o Maestrale foi o campeão de 2017 e soma três títulos, estatísticamente nunca conseguimos vencer dois anos seguidos. Esse ano largamos razoavelmente bem, fizemos negociação boa com as correntes, mas no fim faltou vento e os barcos que estavam mais a frente conseguiram conectar e abrir diferença maior e tivemos resultado abaixo da expectativa. Nosso concorrente o Santa Fé foi quarto e ficamos com o tetracampeonato estadual”, disse o comandante Adalberto Casaes.
Outros campeões nacionais foram o Rudá, de Santos (SP), na IRC, e o título estadual ficou com o Esculacho do comandante Walcles Osório. Na RGS o título ficou com o Zeus, de Ubatuba/Ilhabela (SP) e o estadual com o Dorf de Roberto Schnarndorf. Nos Clássicos o troféu nacional ficou com o Madurgada e o estadual com o Cairu III. Na Mocra o troféu nacional ficou com o Aventureiro III.
Campeonato Nacional de 2019 confirmado para Búzios (RJ) – Após a última etapa do ano da Copa Brasil, Adalberto Casaes, que também é comodoro da ABVO, confirmou Búzios (RJ) como sede do Campeonato Brasileiro de Vela do Oceano. A data ainda está a confirmar. “O Brasileiro está confirmado para Búzios, com data a confirmar, mas possivelmente em abril. Estamos fazendo um esforço fantástico com o apoio da BR Marinas e o Opportunity e vamos fazer um belíssimo Campeonato Brasileiro ABVO e tenho certeza que os velejadores vão ficar encantados com o local que é muito belo para se velejar além da Copa Brasil com várias etapas pelo país na temporada”.
Fotos: Fred Hoffmann
Resultados Finais com os respectivos pódiums da 24ª Neptunus (16/12):
Classe IRC
1 – Lady Milla – Comandante: Ricardo Tolentino – Tempo: 3h35min55s
2 – Neptunus HP – Comandante: André Mirsky – 3h43min59s
3 – Temiminos – Comandante: 3h50min21s
Classe ORC
1 – Duma – Haakon Lorentzen – 3h27min41s
2 – Sorsa III – Celso Quintella – 3h30min05s
3 – Vesper IV – João Marcos Mendes – 3h32min29s
Classe RGS
1 – Tangará II – Lars Grael – 3h36min58s
2 – Xequemat – Clovis Oliveira – 3h39min58s
3 – Dorf – Roberto Schnarndorf – 3h40min12s
Resultados com os respecitovs pódiuns na 23ª Preben Schmidt (15/12):
Classe ORC
1º Sorsa III – Celso Quintella – 2h59min48s
2º Santa Fé – Nelson Thomé – 3h05min
3º Duma – Haakon Lautzen – 3h08min48s
Classe IRC
1º Força 12 – Alejandro Martinez – 3h05min40s
2º Farandola II – Otto Assis – 3h06min45s
3º Saravah – Pierre Joullie – 3h08min28s
Classe RGS
1º Mahalo – Ricardo Silveira – 2h54min53s
2º Borimbora – Ricardo Lebreiro – 3h02min01s
3º Dorf – Roberto Schnardorf – 3h03min14s
Clássicos
1º Marga – Lars Grael – 3h12min43s
2º Aileen – Torben Grael – 3h45min19s
3º Cagrejo – Ricardo Carvalho – 3h46min34s
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Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.
O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!
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