Semana Internacional de Vela de Ilhabela adapta regata inicial para os 120 barcos inscritos


A organização da Semana Internacional de Vela de Ilhabela 2019 encontrou uma solução para abrir a competição mesmo com falta de ventos em Ilhabela (SP). Com menos de 5 nós no início da tarde deste domingo (14), a comissão decidiu adiar a Alcatrazes por Boreste Marinha do Brasil e fazer uma regata de percurso médio na abertura do campeonato.
A prova de estreia teve 12 milhas náuticas para as classes ORC, IRC e C30, com largada na frente do Race Village até o Farolete 4. Para as demais categorias, a regata de abertura teve 8 milhas náuticas até o Farol dos Moleques.
A comissão de regatas definiu que a prova desta segunda-feira (15) será de percurso longo, podendo ser até a Alcatrazes por Boreste Marinha do Brasil ou para a ilha de Búzios. A previsão é de ventos de média intensidade. Também está prevista uma frente fria para a terça-feira (16).
”Nós tivemos muita sorte, mas o Cuca Sodré (comissão de regatas) como sempre está de parabéns. Havia uma previsão de que o vento talvez viesse do sul, e ele soube esperar. Quando o vento começou a soprar, decidiu não fazer a regata longa, porque senão os barcos demorariam muito a voltar, pelo horário da largada”, destacou Mauro Dottori, organizador da Semana Internacional de Vela de Ilhabela.
“Foi uma decisão acertada, porque aproveitamos o vento e foi um dia maravilhoso de vela. E o astral de todo mundo melhorou muito, principalmente o da gente, que ganhou.”
Além de diretor da competição, Mauro Dottori comanda o Caballo Loco, barco vencedor da regata de abertura na classe C30. ”A C-30 é sempre muito disputada. E numa regata de percurso, sempre tem mais decisões a tomar. Foi muito disputado”.
Os velejadores profissionais e amadores aprovaram a decisão e conseguiram disputar o evento, que chegou à sua 46ª edição e é considerado o maior da América do Sul. As regatas ocorreram após o tradicional desfile dos barcos na frente do Race Village.
”Poderia ter um pouco mais de vento, mas foi muito legal. Espero que amanhã o vento entre! A alternativa de colocar uma regata menor no lugar da Alcatrazes foi importante e todos os tripulantes puderam correr”, disse Guilherme Rafare, comandante do Danadão, barco que fez sua estreia na Semana Internacional de Vela de Ilhabela.
Estreantes
A Semana Internacional de Vela de Ilhabela conta com vários estreantes nesta edição 2019. Uma delas é a surfista de ondas gigantes Maya Gabeira, integrante do BMW Motorrad. A atleta aprovou competir pela primeira vez nas águas de Ilhabela (SP).”Foi ótima a minha primeira experiência, bom para afinar a tripulação. Amanhã tem mais”, contou Maya Gabeira.
Para Marcos Sérgio Bechtold, estreante na Semana Internacional de Vela de Ilhabela, o primeiro dia de disputas surpreendeu. O catarinense integra o Itajaí Sailing Team. “Foi um dia excelente. Havia uma previsão de vento bem ruim, mas no final entrou um vento maravilhoso, com um desfile de balões na raia. Cruzamos na frente, mas ainda não sabemos o resultado”.
Em função do adiamento da Alcatrazes, a Semana Internacional de Vela de Ilhabela vai trocar a data da realização da regata Vela do Amanhã.
”Agora estamos fazendo uma alteração para fazer a regata amanhã às 10 horas da manhã. O dia de descanso seria amanhã, mas estamos trocando. Só não sabemos o local de largada ainda, em função do vento. A condição de mar é boa, com pouca correnteza, e deu um vento excelente, todos conseguiram terminar a regata cedo”, contou Cuca Sodré.
Das provas tradicionais de abertura da competição, apenas a Renato Frankenthal foi realizada. A prova de 10 milhas náuticas reuniu a flotilha dos HPE 25, e teve como vencedor o Ginga.
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O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!




