Brasil pode ser referência em tecnologias marítimas não tripuladas, diz vice-almirante Zampieri

Em entrevista à NÁUTICA, Comandante do 2º Distrito Naval ressaltou o papel da Aramuss, evento realizado pela Marinha do Brasil, em Salvador (BA)

28/10/2026
Foto: Marinha do Brasil/ Divulgação

Entre os dias 9 e 13 de novembro de 2026, a Marinha do Brasil realizará, na Base Naval de Aratu, em Salvador (BA), a segunda edição da Aramuss (Aratu Maritime Unmanned Systems Simulation), iniciativa voltada à demonstração, experimentação e discussão de sistemas marítimos não tripulados e tecnologias de emprego dual aplicadas ao ambiente marítimo.

Após o sucesso da edição inaugural, realizada em 2025 e visitada por mais de 2 mil pessoas, a Aramuss retorna com uma programação ampliada, reunindo demonstrações operacionais em condições reais, exposição tecnológica, simpósio especializado, palestras técnicas e atividades voltadas à integração entre governo, academia, centros de pesquisa e indústria.

Foto: Marinha do Brasil/ Divulgação

O evento consolida-se como uma das principais iniciativas brasileiras dedicadas ao desenvolvimento de tecnologias autônomas para aplicações navais, científicas, ambientais e de segurança marítima.

Inspirada em iniciativas internacionais de experimentação de sistemas não tripulados, a Aramuss busca fortalecer o ecossistema nacional de inovação, estimular o desenvolvimento de capacidades tecnológicas estratégicas e ampliar a participação brasileira em um setor cada vez mais relevante para a defesa, a economia do mar e a proteção da chamada Amazônia Azul.

Vice-almirante Carlos Henrique de Lima Zampieri, Comandante do 2º Distrito Naval. Foto: Marinha do Brasil/ Divulgação

Para compreender a importância da Aramuss 2026, seus objetivos estratégicos e as perspectivas para o futuro dos sistemas marítimos não tripulados no Brasil, NÁUTICA entrevistou o vice-almirante Carlos Henrique de Lima Zampieri, Comandante do 2º Distrito Naval e anfitrião desta segunda edição do evento.

Confira a entrevista de NÁUTICA

NÁUTICA: A Aramuss chega à segunda edição após reunir mais de 2 mil visitantes em 2025. Quais são os principais objetivos para este ano e o que mudou em relação à edição inaugural?

Almirante Zampieri: A segunda edição da Aramuss representa a consolidação de uma iniciativa que nasceu com o propósito de aproximar a Marinha do Brasil, a academia, a indústria e os centros de pesquisa em torno do desenvolvimento de sistemas marítimos não tripulados. Em 2025, demonstramos que havia uma demanda concreta por um ambiente nacional dedicado à experimentação, à demonstração de capacidades e ao intercâmbio de conhecimento nessa área.

 

Para 2026, nossos objetivos permanecem alinhados a três pilares fundamentais: explorar, integrar e inovar. Buscamos ampliar as oportunidades de experimentação em condições reais, fortalecer a interação de usuários operacionais e desenvolvedores de tecnologia e fomentar a construção de soluções que atendam às demandas da Marinha do Brasil.

Foto: Marinha do Brasil/ Divulgação

Em relação à edição inaugural, a Aramuss deste ano apresenta uma expansão significativa. Houve aumento da participação de empresas, universidades e instituições de pesquisa, ampliação das atividades técnicas e a inclusão do Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Marinha do Brasil, organizado pelo Estado-Maior da Armada, além de uma programação mais robusta de demonstrações operacionais.

O evento evolui de uma iniciativa pioneira para um verdadeiro laboratório de inovação marítima, contribuindo para acelerar o desenvolvimento de capacidades nacionais em tecnologias autônomas e de emprego dual

 

NÁUTICA: Sistemas marítimos não tripulados podem ser usados em atividades como vigilância, monitoramento ambiental e proteção de infraestruturas. Quais são as aplicações mais promissoras dessas tecnologias para a Marinha e para a segurança marítima brasileira?

Almirante Zampieri: Os sistemas não tripulados vêm transformando a forma como as nações exercem a vigilância e a proteção de seus espaços marítimos. No caso brasileiro, com uma área marítima de grande extensão e relevância econômica, essas tecnologias possuem enorme potencial para ampliar nossa consciência situacional e a capacidade de monitoramento da chamada Amazônia Azul.

 

Entre as aplicações mais promissoras podemos destacar a vigilância marítima de longo alcance, a proteção de infraestruturas críticas offshore, as operações de contramedidas de minagem, a inspeção de estruturas submersas, o apoio às missões de busca e salvamento e o monitoramento ambiental.

Foto: Marinha do Brasil/ Divulgação

Além disso, os sistemas autônomos permitem ampliar a persistência operacional, reduzir riscos ao pessoal em determinadas missões e otimizar recursos. O emprego integrado de veículos de superfície, subaquáticos e aéreos não tripulados possibilita a obtenção de informações em tempo real e apoia a tomada de decisão de forma mais rápida e eficiente.

 

Estamos acompanhando uma tendência mundial que demonstra que essas capacidades tendem a desempenhar um papel cada vez mais relevante tanto em operações militares quanto em atividades ligadas à segurança marítima e à proteção dos interesses nacionais no mar.

 

NÁUTICA: A Aramuss contará com demonstrações operacionais em condições reais. Qual é a importância desses testes para avaliar as capacidades dessas tecnologias e como os resultados podem contribuir para sua futura adoção pela Marinha?

Almirante Zampieri: A experimentação em ambiente real é um dos principais diferenciais da Aramuss. Testar uma tecnologia em condições operacionais permite avaliar aspectos que muitas vezes não podem ser plenamente observados em laboratórios ou ambientes controlados.

 

Durante as demonstrações, é possível verificar desempenho, confiabilidade, interoperabilidade, qualidade das comunicações, autonomia dos sistemas e sua integração com os meios já empregados pela Marinha. Além disso, operadores e desenvolvedores passam a trabalhar lado a lado, gerando um ciclo extremamente valioso de aprendizado e aperfeiçoamento.

Foto: Marinha do Brasil/ Divulgação

Os resultados obtidos fornecem subsídios importantes para o amadurecimento doutrinário, para a definição de requisitos futuros e para a avaliação de possíveis aplicações operacionais. Mais do que demonstrar equipamentos, a Aramuss permite validar conceitos de emprego e identificar oportunidades de evolução tecnológica.

Esse processo contribui para reduzir riscos, acelerar a inovação e aproximar as soluções tecnológicas das necessidades reais das operações marítimas

 

NÁUTICA: O evento reúne Defesa, universidades, centros de pesquisa e empresas. Como essa integração pode impulsionar a inovação no Brasil e reduzir a dependência de tecnologias estrangeiras?

Almirante Zampieri: A inovação em áreas tecnológicas estratégicas depende da capacidade de conectar diferentes competências. Nenhuma instituição desenvolve sozinha todo o conhecimento necessário para enfrentar os desafios atuais. Por isso, a integração entre governo, academia e indústria é um elemento central da Aramuss.

 

As universidades e centros de pesquisa contribuem com conhecimento científico e formação de recursos humanos altamente qualificados. A indústria possui capacidade de transformar conhecimento em soluções escaláveis e competitivas. Já a Marinha e os demais usuários operacionais apresentam demandas concretas e fornecem o ambiente para validação das capacidades desenvolvidas.

Foto: Marinha do Brasil/ Divulgação

Esse modelo favorece a criação de um ciclo virtuoso de inovação, estimulando a formação de uma base tecnológica nacional mais forte e capaz de gerar soluções adaptadas às necessidades brasileiras. Quanto maior for a capacidade do País de desenvolver, testar e produzir tecnologias estratégicas internamente, menor será sua dependência de fornecedores externos em áreas consideradas sensíveis para a soberania nacional.

A Aramuss foi concebida justamente para atuar como um catalisador desse ecossistema de inovação

 

NÁUTICA: Além da Defesa, os sistemas não tripulados têm aplicações civis, como pesquisa científica, monitoramento ambiental e inspeção de estruturas marítimas. Como essas tecnologias podem contribuir para a economia do mar e abrir oportunidades para a indústria brasileira?

Almirante Zampieri: As tecnologias não tripuladas possuem um forte caráter de emprego dual, ou seja, podem atender simultaneamente demandas da Defesa e aplicações civis. Essa característica amplia significativamente seu potencial de geração de valor para a sociedade.

 

Na chamada Economia do Mar, essas soluções podem ser utilizadas em monitoramento ambiental, levantamentos hidrográficos, inspeção de dutos e estruturas offshore, apoio à atividade portuária, pesquisa oceanográfica e acompanhamento de áreas ambientalmente sensíveis.

Foto: Marinha do Brasil/ Divulgação

Além dos ganhos operacionais, existe uma importante dimensão econômica. O desenvolvimento dessas tecnologias cria oportunidades para startups, empresas de base tecnológica, centros de pesquisa e indústrias de alta complexidade, gerando empregos qualificados e estimulando novos negócios.

 

Ao fomentar a inovação nacional nesse segmento fortalecemos nossa capacidade de participar de iniciativas em rápida evolução, ligadas ao ambiente marítimo.

 

NÁUTICA: Considerando o potencial do litoral brasileiro e a importância estratégica do Atlântico Sul, qual é o papel do Brasil no desenvolvimento dessas tecnologias? Que legado a Marinha espera deixar com a Aramuss para a inovação marítima nacional?

Almirante Zampieri: Possuímos um extenso litoral, uma vasta área marítima sob jurisdição nacional, valiosas hidrovias interiores conectadas, um complexo sistema portuário, importantes reservas energéticas offshore e uma comunidade científica cada vez mais capacitada.

O Brasil reúne condições singulares para se posicionar como uma referência no desenvolvimento e na aplicação de tecnologias marítimas não tripuladas

Nesse contexto, o Atlântico Sul representa uma região de grande relevância estratégica, econômica e geopolítica. O desenvolvimento de soluções tecnológicas voltadas ao ambiente marítimo não deve ser visto apenas como uma necessidade operacional, mas também como uma oportunidade de geração de conhecimento, desenvolvimento industrial e fortalecimento da soberania nacional.

Comandante do 2º Distrito Naval, vice-almirante Carlos Henrique Zampieri, no 2ª Fórum Náutico Internacional da ANB, em Salvador (BA). Foto: Divulgação

O principal legado que buscamos construir com a Aramuss é a consolidação de um ecossistema permanente de inovação marítima no Brasil. Queremos criar conexões duradouras entre pesquisadores, empreendedores, universidades, empresas e usuários operacionais, incentivando o desenvolvimento de tecnologias nacionais e a formação de talentos.

 

Mais do que um evento, a Aramuss pretende ser uma plataforma de transformação, capaz de contribuir para que o Brasil ocupe uma posição cada vez mais relevante no cenário internacional das tecnologias marítimas autônomas e não tripuladas.

 

Náutica Responde

Faça uma pergunta para a Náutica

    Tags

    Relacionadas

    Brasil pode ser referência em tecnologias marítimas não tripuladas, diz vice-almirante Zampieri

    Em entrevista à NÁUTICA, Comandante do 2º Distrito Naval ressaltou o papel da Aramuss, evento realizado pela Marinha do Brasil, em Salvador (BA)

    Carro-barco? Em 2027, Brasil terá SUV que navega por até 30 minutos

    Modelo U8 da Yangwang será trazido ao Brasil pela BYD e promete modo flutuante

    Ao expor lancha de 77 pés, Schaefer terá o maior barco do Salvador Boat Show 2026

    Schaefer 770 estará ladeada pelas Schaefer 660, 600 e 450 no evento que acontece de 5 a 8 de novembro

    Teste Real 37 Cabriolet: não tem nada igual

    Com visual esportivo, navegação acima da média e cockpit ótimo para quem valoriza a vida ao ar livre, a nova Real 37 Cabriolet desperta desejo à primeira vista

    Tecnologia a bordo: Volvo Penta está confirmada no Salvador Boat Show 2026

    Empresa sueca, especialista em soluções para energia, levará equipamentos que facilitam a vida do navegador