Turismo Náutico e Religioso podem impulsionar crescimento econômico na Bahia
Assunto foi debatido no 3º painel do dia no Fórum Náutico Internacional da ANB; evento segue até quinta-feira (17)


“O turismo náutico na Baía de Todos os Santos e o turismo religioso têm tudo a ver desde os anos 1500”. Com essa observação, Pedro Costa, presidente do Câmara Brasileira de Turismo (CBTUR), abriu a mediação do painel Turismo Náutico e Religioso como Vetores de Desenvolvimento Regional, no 2º Forum Náutico.
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O debate contou também com a participação de Nava Castro, ex-secretária de Turismo da Galícia, que apresentou o case do Caminho de Santiago de Compostela como um modelo para Salvador. “Em uma década duplicamos nossa atividade turística”, afirmou. O número de peregrinos saltou de 9.764 em 1992 para 530 mil, em 2025.


A estratégia, segundo ela, foi usar as riquezas já que existiam e implantar planos de ação voltados para a atividade turística. Além disso, aproveitou os 1.400 km de caminho litorâneo para inaugurar em novo produto: uma rota do caminho pelo mar, hoje dividido em 52 etapas a serem exploradas como pontos turísticos.
Com foco em dados, Edicarlos Moreira (Sebrae) e Muriel Freitas (Secult) também trouxeram números da Bahia. Só em janeiro de 2026, Salvador teve 109.820 chegadas de visitantes internacionais, segundo Edicarlos, e foi registrado crescimento de 11% no turismo religioso , destacou Muriel.
De acordo com ela, este segmento, inclusive, faz o visitante permanecer mais tempo na cidade do que outras modalidades. Em todo o mundo, destacou Muriel, o turismo religioso já movimenta US$ 20 milhões por ano e só no Brasil são R$ 18 milhões, sem baixa estação. Ou seja, investir neste tipo de atração turística é um caminho de crescimento e a Bahia tem como grande atrativo todo o complexo que envolve a religiosidade em torno da Santa Dulce dos Pobres, além de igrejas importantes como Conceição da Praia e Bonfim e todo o acervo barroco disponível.
O secretário Maurício Bacelar mostrou a força do setor: a Bahia pode explorar mais de 50 segmentos turísticos sem depender de alta estação, afirmou ele. A prova disso é que só no mês de julho, a Bahia teve mais de 60% de ocupação hoteleira, em pleno inverno.


Para sustentar o crescimento, o estado investiu mais de R$ 22 milhões em capacitação para atendimento e já qualificou mais de 20 mil trabalhadores, incluindo baianas de acarajé. Além disso há investimentos em aeroportos de cidade como Bom Jesus da Lapa e Senhor do Bonfim, que tem grande potencial para impulsionar o turismo religioso.
Salvador Boat Show 2026
A agenda de conteúdo náutico também seguirá em Salvador ainda este ano. De 5 a 8 de novembro, a Bahia Marina recebe a 3ª edição do Salvador Boat Show, maior evento náutico da Bahia. Realizado na Baía de Todos-os-Santos, o salão reunirá embarcações, marcas, equipamentos e serviços ligados à navegação, aproximando o público de negócios, turismo náutico, lazer, inovação e experiências no mar.
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Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.
O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!
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