“A Odisseia” de Christopher Nolan resgata uma das maiores histórias náuticas da literatura
Muito antes dos superiates, dos motores modernos e dos instrumentos eletrônicos de navegação, “A Odisseia” já colocava o mar no centro de uma das aventuras mais famosas da história. Agora, com a superprodução dirigida por Christopher Nolan, lançada na última quinta-feira (16), o épico de Homero volta aos holofotes — e ajuda a lembrar por que essa narrativa é uma das obras mais ligadas ao universo náutico.
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Descrito pela Universal como um “épico de ação mitológico”, o filme leva para as telas a saga de Odisseu — ou Ulisses, na tradição latina — em sua longa tentativa de retornar para casa após a Guerra de Troia. A produção foi filmada ao redor do mundo com nova tecnologia em película IMAX e marca a chegada da obra de Homero ao formato IMAX pela primeira vez.


Na essência, A Odisseia é uma história sobre navegação. O retorno de Odisseu a Ítaca não acontece por estradas ou campos de batalha, mas pelo mar. Ao longo da jornada, o herói enfrenta tempestades, ilhas desconhecidas, criaturas míticas, deuses contrariados, perdas de tripulação e sucessivos naufrágios. O oceano, nesse contexto, não é apenas cenário: funciona quase como um personagem, capaz de conduzir, atrasar, ameaçar e transformar o destino dos navegadores.
Essa ligação com o mundo náutico também passa pela própria cultura grega antiga. Em uma civilização profundamente conectada ao Mediterrâneo, navegar era uma necessidade comercial, militar e cultural. Barcos, portos, ventos e rotas faziam parte da vida cotidiana — e também do imaginário mitológico. Por isso, a jornada de Odisseu pode ser lida como uma grande travessia marítima, marcada por liderança a bordo, resistência, tomada de decisão e sobrevivência em condições extremas.
No poema atribuído a Homero, o barco representa muito mais do que um meio de transporte. Ele é a possibilidade de retorno, a ligação entre o herói e sua casa, e também o espaço onde se revelam os limites da tripulação. Cada parada em uma ilha, cada desvio de rota e cada perda no mar reforçam uma ideia ainda familiar a qualquer navegador: no oceano, planejamento e coragem importam, mas a natureza sempre tem a palavra final.


A nova adaptação de Nolan amplia essa dimensão grandiosa. O elenco reúne nomes como Matt Damon, Tom Holland, Anne Hathaway, Robert Pattinson, Lupita Nyong’o, Zendaya e Charlize Theron, em uma produção da Syncopy, de Nolan e Emma Thomas.
O lançamento também chegou cercado de expectativa comercial. Segundo a Reuters, The Odyssey arrecadou US$ 264,1 milhões em bilheteria mundial no fim de semana de estreia, incluindo US$ 124,5 milhões nos Estados Unidos e Canadá e US$ 139,6 milhões nos demais mercados, de acordo com a Universal.


Para o universo náutico, porém, o interesse vai além dos números de Hollywood. A Odisseia permanece atual porque traduz uma relação antiga entre o ser humano e o mar: fascínio, medo, aventura e respeito. Antes de qualquer tecnologia embarcada, a obra já mostrava que navegar é enfrentar o desconhecido — e que toda grande travessia depende tanto da embarcação quanto da capacidade de quem está a bordo.
Mais de dois mil anos depois, a jornada de Odisseu continua a ecoar porque fala de algo essencial à navegação: sair ao mar é sempre aceitar um desafio. E, nesse sentido, poucos clássicos são tão náuticos quanto A Odisseia.
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O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!
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