Após desbravar inverno do Ártico sozinha, Tamara Klink revela desafios e “quase morte”

Em entrevista exclusiva à NÁUTICA, navegadora de 27 anos dá detalhes da jornada com veleiro preso no gelo da Groenlândia

04/07/2024
Foto: Tamara Klink / Divulgação

O inverno da navegadora Tamara Klink, 27, foi longo e gelado. Três meses sem ver o sol, quatro meses sem ver humanos e um semestre inteiro presa no gelo do Ártico, com temperaturas na casa dos -40ºC. Cercada pela natureza gélida, ela precisou derreter pedaços de icebergs para beber água e ainda descobriu uma alergia de pele ao frio extremo — bem ali no cenário mais glacial possível.

Essa jornada toda foi encarada por Tamara durante os oito meses em que viveu sozinha a bordo do Sardinha 2, seu veleiro de 10 metros, construído ainda em 1992, que agora a acompanhou em sua terceira — e histórica — grande aventura nos oceanos.

 

“Eu sabia que o inverno tinha acabado, porque chegou a luz do sol e o mar começou a derreter. Foi a primeira vez que vi alguém. Ele começou a falar comigo em groenlandês, achou que eu fosse local”, relembra Tamara.

Foto: Tamara Klink / Divulgação

“A primeira pergunta que me fez foi ‘onde estão os animais?’. A partir daí eu não era mais a viajante. Eu era a pessoa que conhecia o lugar. Eu disse ‘que estranho ver você, faz muito tempo que eu não vejo ninguém’. E ele respondeu ‘como foi o inverno?'”, contou Tamara Klink, entusiasmada, à reportagem da NÁUTICA, em sua primeira entrevista após a jornada gelada.

 

 

Tamara atravessou o Mar do Norte em solitário, da Noruega à França, em 2020, e se tornou, em 2021, a mais jovem brasileira a cruzar o Atlântico em solitário — da França ao Brasil. Esses percursos abriram caminhos para que a navegadora escrevesse, também, sua própria história — que acaba de ganhar o mais novo capítulo.

Foto: Tamara Klink / Divulgação

Assim como o mar lhe sopra o vento que a faz chegar cada vez mais longe — seja nas águas ou nas linhas de seus livros –, essa mesma imensidão a levou, em julho de 2023, a cruzar o Círculo Polar Ártico em solitário — a primeira brasileira a conquistar tal façanha.

 

Partindo da França, após 2.500 milhas náuticas Tamara Klink atracou na Baía Disko, na costa Oeste da Groenlândia. Cercada pelo gelo, este foi o local onde a navegadora ficou invernada (ou seja, passou a estação congelante) dentro de seu barco, por oito meses. Assim, ela alcançou mais um marco: o primeiro registro feminino de uma invernagem em solitário no Ártico.

Vida no gelo: perrengues, silêncio e perigos

“Ao longo do dia eu tinha um grande encontro com o silêncio. Era um silêncio tão absoluto que eu me incomodava com o som do sangue correndo pelas minhas veias, com os sons do meu próprio corpo, que parecia muito barulhento. Numa vastidão de quilômetros e mais quilômetros, eu podia andar sem ouvir nada além do que saía dele.”

Foto: Tamara Klink / Divulgação

Nesse cenário, Tamara vivia uma rotina sem acesso às redes sociais, sites de busca ou internet ilimitada. Podia apenas enviar e-mails curtos e diários à sua equipe.

 

Sua rotina, como ela conta, era imposta por suas condições enquanto ser humano. Seu banheiro, de repente, passou a ser um balde. Todas as mangueiras e tanques de água do barco estavam congelados. Foi nesse momento que ela entendeu: “o maior desafio do inverno é que, para que a gente viva como seres humanos, precisamos de água, comida e calor”.

Foto: Tamara Klink / Divulgação

A alimentação de Tamara Klink incluía grãos (arroz, feijão, grão de bico e lentilha), féculas (macarrão de trigo ou feijão, pão feito no barco e tapioca), sementes (girassol, papoula, chia e abóbora), conservas de legumes e frutas desidratadas (uva, damasco, ameixa e tâmara). Para evitar a produção de lixo, Tamara também pescou — ao menos enquanto as raposas não roubavam seus peixes.

 

A navegadora enfrentou temperaturas que chegaram à casa dos -40ºC. “Não bastava eu levar água e comida quando saísse do barco, se eu não tivesse como transformá-los em coisas líquidas. O elemento calor, fazer calor, era definitivo para eu continuar viva.”

Para beber água eu buscava icebergs, os quebrava em pedacinhos. Trazia para o barco e derretia no aquecedor — ou fazia fogo e derretia em uma panela– explica Tamara

Seus dias eram baseados em buscar meios de garantir a sobrevivência — e isso inclui “fabricar” energia. Enquanto havia sol, dois painéis solares davam conta do recado. Quando tudo se transformou em escuridão, seu aliado, mais uma vez, foi o vento — graças a um gerador eólico.

Se tinha mais vento, eu podia fabricar mais energia. Mas se tinha vento demais, eu tinha que prender o gerador eólico para não quebrar. Eu vivia sempre em função de produzir energia e alimento– conta

Ao sair do barco, contudo, a imensidão gelada reservava não apenas a fonte de água, mas também, de perigo.

Queda na água congelante e desafios físicos

“Uma das coisas que fez a viagem divertida e feliz foi estar sempre antecipando que as coisas iam piorar. Toda vez que tinha um problema, eu pensava ‘não tenho outra outra escolha senão aprender a me adaptar o máximo ao contexto de agora, porque eu sei que as coisas vão ser cada vez piores até chegar a primavera’”.

Foto: Tamara Klink / Divulgação

Tamara enfrentou uma invernagem na Groenlândia sabendo que carregava consigo o fenômeno de Renault, uma condição vascular em que o corpo tem uma reação exagerada ao frio, deixando todas suas extremidades sem circulação, o que causa, principalmente, dor nos dedos — que podem ficar sem movimentos.

Eu sabia e estava preparada. Usava luvas grossas, sei o que fazer quando isso acontece. O que eu não sabia é que tinha urticária ao frio– revela Tamara

A urticária ao frio é uma reação alérgica que ocorre quando a pele é exposta a baixas temperaturas, seja através do ar, água ou objetos. As principais características e sintomas incluem manchas, inchaço e coceira.

Os meus dedos do pé coçavam tanto que eu não conseguia andar ou dormir. Ficava completamente refém dos meus pés– explica

Tamara começou a sentir os sintomas da urticária em novembro, quando fazia cerca de -26ºC. “Eu sabia que precisava achar soluções para aquilo, não tinha como deixar de lado. Se eu não conseguisse andar não poderia sair para buscar água, esvaziar o balde. Não conseguiria fazer nada”.

 

A partir daí, a navegadora criou estratégias para driblar a condição. Entre elas estava o uso de uma bolsa de água quente nos pés, dentro do saco de dormir, e a movimentação contínua dos dedos. Tamara também evitava ao máximo pisar no chão do barco: caminhava pisando no sofá, na mesa ou nas escadas, para o pé não ficar frio.

Me adaptei a isso, estava sempre com o pé em cima do aquecedor — até queimei algumas meias– brinca ela

Ursos, hipotermia e outros perigos

Entre os potenciais perigos de uma invernagem tão longa no Ártico estão encontrar ursos, perder os dedos pelo frio, hipotermia, avalanches, nevascas, depressão e até loucura. Mas um deles, em especial, assombrava Tamara: cair na água congelante. “Era para mim a pior coisa que poderia acontecer, a forma mais perigosa de morrer”. E foi justamente o que aconteceu.

O que mais me surpreendeu foi não ter sentido medo, aflição ou raiva. Eu estava simplesmente absolutamente concentrada em sobreviver e em sair do mar, custe o que custasse– destaca Tamara

 


Tamara conta que estava indo da placa de gelo para a terra, quando percebeu que a maré tinha subido muito, deixando as bordas podres e o gelo mais fino e frágil. Ela, então, encontrou um pedaço que parecia mais firme, ideal para seguir seu caminho.

Quando pisei, ele quebrou e eu caí na água instantaneamente– descreve

A causa de sua queda, contudo, acabou sendo também sua salvação. Isso porque, ao mesmo tempo em que o gelo podre a fez cair na água, a condição precária da placa a permitiu, com a força das mãos, fazer buracos em sua camada. “Com esses buracos eu conseguia me segurar e me arrastar em cima do gelo. Foi isso que me permitiu sair da água”, explica a navegadora.

Fui correndo para a terra a tempo de chegar no barco. As roupas, quando eu cheguei, já estavam congeladas, mas o corpo não. Então eu sobrevivi– conta Tamara sobre o susto

Medos, às vezes, vem dos outros

Cair no gelo foi talvez o único momento em que a corajosa Tamara Klink questionou suas escolhas. Passar tantos meses em um frio fora do comum, sem ver ninguém, nem mesmo a luz do sol, para ela, são apenas “dados do contexto”.

 

“Eu sabia em qual parte da França ficaria só e eu não poderia mudar o sol. Eu simplesmente me adaptei à ausência dele, à distância dos humanos. O mais difícil foi encontrar um barco, poder pagar pela preparação, encontrar parceiros técnicos e financeiros que me permitissem comprar os materiais, pagar as despesas logísticas do caminho e lidar com os medos dos outros.”

 


Lidar com o medo dos outros. Esse foi um dos grandes desafios de Tamara. Apesar de entender que, muitas vezes, as pessoas ao redor queriam apenas alertá-la ou protegê-la, a viagem se tornou mais difícil com tantos novos temores em sua bagagem mental. Alguns que nem ela mesma ousou ter.


“Eu tinha alguns medos, mas ao longo do caminho as pessoas iam me dando novos: de que o barco fosse esmagado, de eu cair no mar e morrer, de eu ter um problema médico que não previa… Esses medos que eu não tinha foram todos na minha bagagem mental, muito mais pesada e difícil de carregar ao longo do caminho”, relata ela.

 

Para um provável desespero de quem tentou alertá-la sobre os perigos de uma aventura como essa, os argumentos precisarão melhorar, porque Tamara Klink não esconde:

Eu gostei de estar só, me diverti muito. Tenho vontade de fazer viagens mais longas, passar mais tempo em solitário– revela

A navegadora incontestavelmente sabe que, na vida, a adaptação é essencial. Depois de cair no gelo, ela se adaptou ao novo risco, encontrou novas maneiras de sair e aumentou seus critérios de segurança. “Era fácil morrer, mas eu tinha que me adaptar”, comenta.

 

Além da cabeça fria para solucionar os problemas que apareciam, Tamara também teve êxito em sua invernagem graças a uma preparação difícil — mas muito bem-feita. “Outros navegadores me deram recomendações, relatos de problemas, soluções. Um deles foi meu pai (Amyr Klink), mas não apenas”.

Foto: Tamara Klink / Divulgação

Entre os navegadores que a aconselharam estão Jerome e Sally Poncet, Guirec Soudée, France Pinczon du Sel e Eric Brossier, todos essenciais para ajudá-la a, principalmente, lidar com “os fundos” da Groenlândia, raramente cartografados.

 

“Eu naveguei muitas vezes sem saber se tinha pedra no fundo. Se a profundidade era de 10, 200 ou mil metros. Eu não tinha acesso à internet, não podia ver imagens de satélite. Eu usava um pequeno comunicador por onde podia mandar textos e isso ajudava. Mas eles [equipe] não estavam comigo no barco e, muitas vezes, eu tinha que tomar decisões sozinha”.

 

Tamara também contou com um equipe composta por profissionais como psicoterapeuta, nutricionista, médicos e meteorologista.

Mudar o imaginário do que uma mulher pode fazer em solitário

A cada decisão que tomava sozinha, Tamara reunia mais uma prova para algo que já está mais do que convencida: “não há nada num barco que impede as mulheres de comandarem, de navegarem em solitário”.

Um barco é feito para permitir que humanos, que não são feitos para estar no mar, naveguem e cruzem oceanos. É o objeto que permite que naveguemos, não nossas capacidades físicas– destaca

Tamara relata ter ouvido que não daria conta, não teria força física o suficiente, não saberia lidar com a solidão, que enlouqueceria. São justamente esses discursos, muitas vezes velados de conselhos que, para ela, acabam freando o acesso da mulher ao risco, ao perigo, ao desejo, ao sonho… e ao mar.

Isso nos impede de descobrir até onde podemos ir com a nossa competência, com o nosso saber, com os objetos que preparamos, que escolhemos, com as decisões que tomamos– enfatiza

“Discursos protetores muitas vezes dificultam, limitam, criam empecilhos para que as mulheres naveguem. Não há nada no corpo de uma mulher que a impeça de velejar, de navegar”, completa.

Reencontros

No início deste texto, Tamara Klink descreve seu primeiro encontro com um humano: Peter, um caçador de focas, logo após o fim do inverno na Groenlândia. Apesar de surpreendente, um outro encontro — ou melhor, reencontro –, quando os primeiros raios de sol voltaram a aparecer com o início da primavera, foi ainda mais instigante.

 

“Durante muitos meses eu não vi o sol. Eu parei de vê-lo no começo de novembro e voltei a vê-lo no começo de fevereiro. A coisa mais estranha que aconteceu, quando o sol apareceu, foi ver uma mancha escura na neve, logo abaixo do meu pé. Eu andava e a mancha me seguia. Eu tinha esquecido completamente como era ter uma sombra.”

O lugar que eu conheci no inverno, que só tinha noite, tempestade o tempo todo e temperaturas muito baixas estava mudando. O lugar estava em transformação– explica Tamara

“Primeiro chegaram as gaivotas, os patos… e os humanos. Foi quando eu percebi que o inverno já tinha acabado, e que esse retorno não seria um fim definitivo, abrupto e súbito. Seria um fim gradual, chamado primavera, entre o inverno e o verão. As coisas iam acabando aos pouquinhos… o silêncio, o gelo, a solidão.”

 


Atualmente, Tamara ainda está na Groenlândia, concentrada em concluir o projeto a bordo da Sardinha 2. Ela retoma aos poucos a vida em conjunto e acompanha a chegada do verão no Ártico.

Quando eu chego [no Brasil] não sei ainda. Mas quando chegar, quero abraçar minha avó– revela Tamara

Asa Klink, avó de Tamara, sempre a apoiou como navegadora. Como ela mesma diz em sua dedicatória no livro “Mil Milhas”, avós são “aquelas que guardam nossos segredos enquanto abrem caminhos”. Mas, para essa viagem em específico, Asa relutou em apoiar a neta, mas de forma bastante compreensível.

 

“Ela achava que era muito arriscado e estava preocupada em como seria ficar muito tempo separada. Eu acho que é uma preocupação que aparece sempre quando a gente tem família, quando somos amados. A gente se preocupa com as pessoas que ficam em terra quando escolhemos correr riscos.”

Sempre fica a pergunta ‘qual é o mundo e quem são as pessoas que vamos encontrar quando voltar? Qual é o mundo e as pessoas que a gente não vai poder encontrar?’ Simplesmente porque muita coisa acontece no tempo de um ano e meio– explica Tamara

 

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