Após desbravar inverno do Ártico sozinha, Tamara Klink revela desafios e “quase morte”
O inverno da navegadora Tamara Klink, 27, foi longo e gelado. Três meses sem ver o sol, quatro meses sem ver humanos e um semestre inteiro presa no gelo do Ártico, com temperaturas na casa dos -40ºC. Cercada pela natureza gélida, ela precisou derreter pedaços de icebergs para beber água e ainda descobriu uma alergia de pele ao frio extremo — bem ali no cenário mais glacial possível.
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Essa jornada toda foi encarada por Tamara durante os oito meses em que viveu sozinha a bordo do Sardinha 2, seu veleiro de 10 metros, construído ainda em 1992, que agora a acompanhou em sua terceira — e histórica — grande aventura nos oceanos.
“Eu sabia que o inverno tinha acabado, porque chegou a luz do sol e o mar começou a derreter. Foi a primeira vez que vi alguém. Ele começou a falar comigo em groenlandês, achou que eu fosse local”, relembra Tamara.


“A primeira pergunta que me fez foi ‘onde estão os animais?’. A partir daí eu não era mais a viajante. Eu era a pessoa que conhecia o lugar. Eu disse ‘que estranho ver você, faz muito tempo que eu não vejo ninguém’. E ele respondeu ‘como foi o inverno?'”, contou Tamara Klink, entusiasmada, à reportagem da NÁUTICA, em sua primeira entrevista após a jornada gelada.
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Tamara atravessou o Mar do Norte em solitário, da Noruega à França, em 2020, e se tornou, em 2021, a mais jovem brasileira a cruzar o Atlântico em solitário — da França ao Brasil. Esses percursos abriram caminhos para que a navegadora escrevesse, também, sua própria história — que acaba de ganhar o mais novo capítulo.


Assim como o mar lhe sopra o vento que a faz chegar cada vez mais longe — seja nas águas ou nas linhas de seus livros –, essa mesma imensidão a levou, em julho de 2023, a cruzar o Círculo Polar Ártico em solitário — a primeira brasileira a conquistar tal façanha.
Partindo da França, após 2.500 milhas náuticas Tamara Klink atracou na Baía Disko, na costa Oeste da Groenlândia. Cercada pelo gelo, este foi o local onde a navegadora ficou invernada (ou seja, passou a estação congelante) dentro de seu barco, por oito meses. Assim, ela alcançou mais um marco: o primeiro registro feminino de uma invernagem em solitário no Ártico.
Vida no gelo: perrengues, silêncio e perigos
“Ao longo do dia eu tinha um grande encontro com o silêncio. Era um silêncio tão absoluto que eu me incomodava com o som do sangue correndo pelas minhas veias, com os sons do meu próprio corpo, que parecia muito barulhento. Numa vastidão de quilômetros e mais quilômetros, eu podia andar sem ouvir nada além do que saía dele.”


Nesse cenário, Tamara vivia uma rotina sem acesso às redes sociais, sites de busca ou internet ilimitada. Podia apenas enviar e-mails curtos e diários à sua equipe.
Sua rotina, como ela conta, era imposta por suas condições enquanto ser humano. Seu banheiro, de repente, passou a ser um balde. Todas as mangueiras e tanques de água do barco estavam congelados. Foi nesse momento que ela entendeu: “o maior desafio do inverno é que, para que a gente viva como seres humanos, precisamos de água, comida e calor”.


A alimentação de Tamara Klink incluía grãos (arroz, feijão, grão de bico e lentilha), féculas (macarrão de trigo ou feijão, pão feito no barco e tapioca), sementes (girassol, papoula, chia e abóbora), conservas de legumes e frutas desidratadas (uva, damasco, ameixa e tâmara). Para evitar a produção de lixo, Tamara também pescou — ao menos enquanto as raposas não roubavam seus peixes.
A navegadora enfrentou temperaturas que chegaram à casa dos -40ºC. “Não bastava eu levar água e comida quando saísse do barco, se eu não tivesse como transformá-los em coisas líquidas. O elemento calor, fazer calor, era definitivo para eu continuar viva.”
Para beber água eu buscava icebergs, os quebrava em pedacinhos. Trazia para o barco e derretia no aquecedor — ou fazia fogo e derretia em uma panela– explica Tamara
Seus dias eram baseados em buscar meios de garantir a sobrevivência — e isso inclui “fabricar” energia. Enquanto havia sol, dois painéis solares davam conta do recado. Quando tudo se transformou em escuridão, seu aliado, mais uma vez, foi o vento — graças a um gerador eólico.
Se tinha mais vento, eu podia fabricar mais energia. Mas se tinha vento demais, eu tinha que prender o gerador eólico para não quebrar. Eu vivia sempre em função de produzir energia e alimento– conta
Ao sair do barco, contudo, a imensidão gelada reservava não apenas a fonte de água, mas também, de perigo.
Queda na água congelante e desafios físicos
“Uma das coisas que fez a viagem divertida e feliz foi estar sempre antecipando que as coisas iam piorar. Toda vez que tinha um problema, eu pensava ‘não tenho outra outra escolha senão aprender a me adaptar o máximo ao contexto de agora, porque eu sei que as coisas vão ser cada vez piores até chegar a primavera’”.


Tamara enfrentou uma invernagem na Groenlândia sabendo que carregava consigo o fenômeno de Renault, uma condição vascular em que o corpo tem uma reação exagerada ao frio, deixando todas suas extremidades sem circulação, o que causa, principalmente, dor nos dedos — que podem ficar sem movimentos.
Eu sabia e estava preparada. Usava luvas grossas, sei o que fazer quando isso acontece. O que eu não sabia é que tinha urticária ao frio– revela Tamara
A urticária ao frio é uma reação alérgica que ocorre quando a pele é exposta a baixas temperaturas, seja através do ar, água ou objetos. As principais características e sintomas incluem manchas, inchaço e coceira.
Os meus dedos do pé coçavam tanto que eu não conseguia andar ou dormir. Ficava completamente refém dos meus pés– explica
Tamara começou a sentir os sintomas da urticária em novembro, quando fazia cerca de -26ºC. “Eu sabia que precisava achar soluções para aquilo, não tinha como deixar de lado. Se eu não conseguisse andar não poderia sair para buscar água, esvaziar o balde. Não conseguiria fazer nada”.
A partir daí, a navegadora criou estratégias para driblar a condição. Entre elas estava o uso de uma bolsa de água quente nos pés, dentro do saco de dormir, e a movimentação contínua dos dedos. Tamara também evitava ao máximo pisar no chão do barco: caminhava pisando no sofá, na mesa ou nas escadas, para o pé não ficar frio.
Me adaptei a isso, estava sempre com o pé em cima do aquecedor — até queimei algumas meias– brinca ela
Ursos, hipotermia e outros perigos
Entre os potenciais perigos de uma invernagem tão longa no Ártico estão encontrar ursos, perder os dedos pelo frio, hipotermia, avalanches, nevascas, depressão e até loucura. Mas um deles, em especial, assombrava Tamara: cair na água congelante. “Era para mim a pior coisa que poderia acontecer, a forma mais perigosa de morrer”. E foi justamente o que aconteceu.
O que mais me surpreendeu foi não ter sentido medo, aflição ou raiva. Eu estava simplesmente absolutamente concentrada em sobreviver e em sair do mar, custe o que custasse– destaca Tamara
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Tamara conta que estava indo da placa de gelo para a terra, quando percebeu que a maré tinha subido muito, deixando as bordas podres e o gelo mais fino e frágil. Ela, então, encontrou um pedaço que parecia mais firme, ideal para seguir seu caminho.
Quando pisei, ele quebrou e eu caí na água instantaneamente– descreve
A causa de sua queda, contudo, acabou sendo também sua salvação. Isso porque, ao mesmo tempo em que o gelo podre a fez cair na água, a condição precária da placa a permitiu, com a força das mãos, fazer buracos em sua camada. “Com esses buracos eu conseguia me segurar e me arrastar em cima do gelo. Foi isso que me permitiu sair da água”, explica a navegadora.
Fui correndo para a terra a tempo de chegar no barco. As roupas, quando eu cheguei, já estavam congeladas, mas o corpo não. Então eu sobrevivi– conta Tamara sobre o susto
Medos, às vezes, vem dos outros
Cair no gelo foi talvez o único momento em que a corajosa Tamara Klink questionou suas escolhas. Passar tantos meses em um frio fora do comum, sem ver ninguém, nem mesmo a luz do sol, para ela, são apenas “dados do contexto”.
“Eu sabia em qual parte da França ficaria só e eu não poderia mudar o sol. Eu simplesmente me adaptei à ausência dele, à distância dos humanos. O mais difícil foi encontrar um barco, poder pagar pela preparação, encontrar parceiros técnicos e financeiros que me permitissem comprar os materiais, pagar as despesas logísticas do caminho e lidar com os medos dos outros.”
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Lidar com o medo dos outros. Esse foi um dos grandes desafios de Tamara. Apesar de entender que, muitas vezes, as pessoas ao redor queriam apenas alertá-la ou protegê-la, a viagem se tornou mais difícil com tantos novos temores em sua bagagem mental. Alguns que nem ela mesma ousou ter.
“Eu tinha alguns medos, mas ao longo do caminho as pessoas iam me dando novos: de que o barco fosse esmagado, de eu cair no mar e morrer, de eu ter um problema médico que não previa… Esses medos que eu não tinha foram todos na minha bagagem mental, muito mais pesada e difícil de carregar ao longo do caminho”, relata ela.
Para um provável desespero de quem tentou alertá-la sobre os perigos de uma aventura como essa, os argumentos precisarão melhorar, porque Tamara Klink não esconde:
Eu gostei de estar só, me diverti muito. Tenho vontade de fazer viagens mais longas, passar mais tempo em solitário– revela
A navegadora incontestavelmente sabe que, na vida, a adaptação é essencial. Depois de cair no gelo, ela se adaptou ao novo risco, encontrou novas maneiras de sair e aumentou seus critérios de segurança. “Era fácil morrer, mas eu tinha que me adaptar”, comenta.
Além da cabeça fria para solucionar os problemas que apareciam, Tamara também teve êxito em sua invernagem graças a uma preparação difícil — mas muito bem-feita. “Outros navegadores me deram recomendações, relatos de problemas, soluções. Um deles foi meu pai (Amyr Klink), mas não apenas”.


Entre os navegadores que a aconselharam estão Jerome e Sally Poncet, Guirec Soudée, France Pinczon du Sel e Eric Brossier, todos essenciais para ajudá-la a, principalmente, lidar com “os fundos” da Groenlândia, raramente cartografados.
“Eu naveguei muitas vezes sem saber se tinha pedra no fundo. Se a profundidade era de 10, 200 ou mil metros. Eu não tinha acesso à internet, não podia ver imagens de satélite. Eu usava um pequeno comunicador por onde podia mandar textos e isso ajudava. Mas eles [equipe] não estavam comigo no barco e, muitas vezes, eu tinha que tomar decisões sozinha”.
Tamara também contou com um equipe composta por profissionais como psicoterapeuta, nutricionista, médicos e meteorologista.
Mudar o imaginário do que uma mulher pode fazer em solitário
A cada decisão que tomava sozinha, Tamara reunia mais uma prova para algo que já está mais do que convencida: “não há nada num barco que impede as mulheres de comandarem, de navegarem em solitário”.
Um barco é feito para permitir que humanos, que não são feitos para estar no mar, naveguem e cruzem oceanos. É o objeto que permite que naveguemos, não nossas capacidades físicas– destaca
Tamara relata ter ouvido que não daria conta, não teria força física o suficiente, não saberia lidar com a solidão, que enlouqueceria. São justamente esses discursos, muitas vezes velados de conselhos que, para ela, acabam freando o acesso da mulher ao risco, ao perigo, ao desejo, ao sonho… e ao mar.
Isso nos impede de descobrir até onde podemos ir com a nossa competência, com o nosso saber, com os objetos que preparamos, que escolhemos, com as decisões que tomamos– enfatiza
“Discursos protetores muitas vezes dificultam, limitam, criam empecilhos para que as mulheres naveguem. Não há nada no corpo de uma mulher que a impeça de velejar, de navegar”, completa.
Reencontros
No início deste texto, Tamara Klink descreve seu primeiro encontro com um humano: Peter, um caçador de focas, logo após o fim do inverno na Groenlândia. Apesar de surpreendente, um outro encontro — ou melhor, reencontro –, quando os primeiros raios de sol voltaram a aparecer com o início da primavera, foi ainda mais instigante.
“Durante muitos meses eu não vi o sol. Eu parei de vê-lo no começo de novembro e voltei a vê-lo no começo de fevereiro. A coisa mais estranha que aconteceu, quando o sol apareceu, foi ver uma mancha escura na neve, logo abaixo do meu pé. Eu andava e a mancha me seguia. Eu tinha esquecido completamente como era ter uma sombra.”
O lugar que eu conheci no inverno, que só tinha noite, tempestade o tempo todo e temperaturas muito baixas estava mudando. O lugar estava em transformação– explica Tamara
“Primeiro chegaram as gaivotas, os patos… e os humanos. Foi quando eu percebi que o inverno já tinha acabado, e que esse retorno não seria um fim definitivo, abrupto e súbito. Seria um fim gradual, chamado primavera, entre o inverno e o verão. As coisas iam acabando aos pouquinhos… o silêncio, o gelo, a solidão.”
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Atualmente, Tamara ainda está na Groenlândia, concentrada em concluir o projeto a bordo da Sardinha 2. Ela retoma aos poucos a vida em conjunto e acompanha a chegada do verão no Ártico.
Quando eu chego [no Brasil] não sei ainda. Mas quando chegar, quero abraçar minha avó– revela Tamara
Ana, avó de Tamara, sempre a apoiou como navegadora. Como ela mesma diz em sua dedicatória no livro “Mil Milhas”, avós são “aquelas que guardam nossos segredos enquanto abrem caminhos”. Mas, para essa viagem em específico, Ana relutou em apoiar a neta, mas de forma bastante compreensível.
“Ela achava que era muito arriscado e estava preocupada em como seria ficar muito tempo separada. Eu acho que é uma preocupação que aparece sempre quando a gente tem família, quando somos amados. A gente se preocupa com as pessoas que ficam em terra quando escolhemos correr riscos.”
Sempre fica a pergunta ‘qual é o mundo e quem são as pessoas que vamos encontrar quando voltar? Qual é o mundo e as pessoas que a gente não vai poder encontrar?’ Simplesmente porque muita coisa acontece no tempo de um ano e meio– explica Tamara
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O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!




