Chegou o vento

Por: Redação -
08/07/2016

O que um vento mais forte não faz? O quinto dia da Semana de Vela de Ilhabela 2016 teve média de 18 a 22 nós e rajadas de até 28 nós (52 km/h) em quase todas as 13 classes inscritas no maior evento de vela oceânica da América Latina, realizado no Yacht Club de Ilhabela (YCI). A frente fria chegou ao litoral norte de São Paulo, apesar do sol e da sensação térmica de 28 graus. ”Em condições como as de hoje é preciso fazer mais força. O barco aderna mais e a possibilidade de avaria cresce”, disse Paulo Freire, comandante do Miragem, que disputa o evento na classe ORC.

A ORC – abreviação de Offshore Racing Congress – tem 19 barcos na água na Semana de Vela de Ilhabela. Com mais provas no campeonato, mais pontos entraram em jogo – sem contar o descarte do pior resultado. O melhor desempenho do dia no tempo corrigido foi do San Chico 3, de Francisco Freitas, que venceu as duas provas. O Carioca, de Roberto Martins, no entanto, é o líder do geral. ”Ventou bastante! Não estamos acostumados com essas condições em Ilhabela, com vento e sol. Geralmente fica frio e chove em situações parecidas aqui. Fomos Fita Azul na primeira e fomos mais conservadores na segunda”, disse André Mirsky, tático do Carioca.

Na IRC, que conta com 10 barcos na Semana de Vela de Ilhabela, destaque para o duelo entre quatro equipes: Rudá, BL3 Urca, Asbar IV e Itajaí Sailing Team, respectivamente primeiro, segundo, terceiro e quarto colocados. ”Nas duas largadas fomos bem e cruzamos em primeiro lugar. Abrimos mão da preferência na largada para ter um ângulo melhor, aproveitando bem as rajadas do começo ao fim. Mas no corrigido não ficamos entre os líderes”, relatou o tripulante Alexandre Santos, regulador de velas do Itajaí Sailing Team.

A quinta-feira teve apenas uma regata de Clássicos. ”O mais importante é velejar bonito e a gente está conseguindo”, contou Alex Calabria, comandante do Áries III, líder da competição entre os Clássicos empatado com o Cangrejo. A regata foi de percurso médio até o Farol dos Moleques. Os barcos da Bico do Proa também fizeram apenas uma regata, que foi vencida pelo Bacanas III, líder do campeonato.

Na RGS A, o Kalymera fez a melhor média do dia e segue na liderança. Na versão B, o Asbar II está na ponta do campeonato após cinco regatas, seguido pelo Fantasma, com três pontos atrás. Na RGS C, o Zephyrus ganhou as duas do dia e lidera com folga. Na Silver, o dia foi do BL3 que também chegou em primeiro.

Além da entrada do descarte do pior resultado, (menos para Clássico e Bico de Proa) a quinta-feira também foi marcada pela estreia da Star na competição, levando todos os 135 barcos das 13 classes participantes para a água. Classe mais tradicional da vela olímpica, a Star já rendeu seis medalhas ao Brasil nos Jogos – dois ouros, uma prata e três bronzes. ”A classe Star é uma tradição e nada mais legal do que velejar na categoria aqui em Ilhabela. Na Semana de Vela a raia é um pouco menor do que nos campeonatos mundiais, mas vale a disputa”, disse Ronald Seifert, parceiro de Marcelo Fuchs.

Entre os competidores em Ilhabela está Jorge Zarif, representante brasileiro da Finn na Olimpíada do Rio 2016. O atleta, que faz dupla com Arthur Lopes, lidera com duas vitórias em duas regatas.

Entre os monotipos de oceano, a classe HPE 25 tem o Ginga sobrando. Após as duas vitórias da quinta, a equipe de Breno Chvaicer tem seis pontos de frente sobre o Takra. Na versão 30 pés do HPE, o Phoenix segue com 100% de aproveitamento. A C30 é a mais equilibrada da Semana de Vela de Ilhabela. Do líder Loyal ao quarto colocado Caiçara a diferença é de apenas dois pontos entre eles. Já na J70, o ponteiro Cloud Nine não fez um dia bom e o Viking encostou com um ponto atrás.

Programação da Semana de Vela

De segunda (4) à sábado (9), mais de 100 regatas estão programadas para o Canal de Ilhabela. Durante o período também será definido os vencedores dos campeonatos Brasileiro de IRC e Sul-Americano de ORC.

Em paralelo com o evento esportivo também haverá diariamente uma programação cultural completa com shows musicais, espetáculos culturais, palestras e gastronomia no centro histórico da ilha. No sábado (9), haverá o tradicional desfile das embarcações com a presença do Navio Veleiro “Cisne Branco”, embarcação utilizada no treinamento de formação nas Forças Armadas, a partir de 10h. No mesmo dia, à noite, será realiza a premiação dos campeões.

Fotos Fotop/Divulgação

Os resultados completos estão disponíveis no site oficial do evento: svilhabela.com.br/2016/resultados.

 

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    Quem fala pela náutica?

    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

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