Aventura na Colômbia

Por: Redação -
09/01/2015

Quando você recebe um convite para participar  de uma prova de Endurance de motonáutica com travessia de 1 025 quilômetros de um certo rio na Colômbia, você acha que será uma aventura fácil onde apenas a sua resistência física e a resistência do motor da sua embarcação irão contar, mas quando você chega em Puerto Boyaca, cidade da Colômbia onde aconteceu a largada de um dos principais campeonatos de motonáutica de endurance do mundo, a “Maratona do Rio Magdalena”,  e começa a conversar com outros pilotos e equipes que já haviam participado de outras edições e escuta os mais diferentes relatos e histórias inacreditáveis que aconteceram durante  outros anos, você toma um susto e descobre que não era nada daquilo que imaginava e começa a expectativa do que vai acontecer e se você vai sobreviver.

Tudo começou quando eu, Lebos Chaguri recebi um convite do Ministério de Esportes da Colômbia a alguns dias do início da prova e automaticamente, quando você está envolvido com corridas, a sua resposta é “sim” e só depois você vai pensar.

Como o tempo era muito curto para os tramites alfandegários, a Federação Colombiana de Motonáutica disponibilizou um barco para o Brasil e para alguns dos outros países participantes.

O evento começou no domingo dia 2 de novembro em um desfile de 13 países participantes com quase 30 barcos de corrida das categorias 2.000 e 3.000 e cerca de 60 embarcações da categoria turismo, todos enfeitados e com os integrantes das equipes fantasiados parecendo um grande desfile de carnaval do interior com direito a spray de espuma, banho de farinha, distribuição de balas, pirulitos e muito mais. Durante as 3 horas de desfile as ruas ficaram lotadas com a população local e turistas.

A competição que percorreu 1 025km, foi dividida em sete etapas durante seis dias com a primeira etapa de Puerto Boyaca a Puerto Berrio, no segundo dia de Puerto Berrioca a Barrancabermeja. Já no terceiro dia foram duas etapas, Barrancabermeja a El Banco e El Banco a Mompox e no quarto dia foi o dia tão esperado de descanso, mas apenas como título, pois na realidade os trabalhos em cima das embarcações foram intensos devido as avarias tanto de casco como de motor. No quinto dia foi a etapa de Mompox a Barranquilla onde apenas cruzaram a linha de chegada cinco barcos e no sexto e último dia foram as duas últimas etapas com a primeira de Barranquilla a Pasacaballos e a etapa final de Pasacaballos terminando na baía de Cartagena, no mar do Caribe, finalizando assim a XXIX Travessia do Rio Magdalena.

Na categoria turismo, aproximadamente 60 embarcações incluindo jets apenas acompanharam a prova, largando duas horas antes dos barcos de corrida, desfrutando do turismo do Rio Magdalena e aproveitando a infraestrutura da competição. Ao total o evento contou com 450 pessoas participantes dentre as equipes de apoio, equipes de corrida e técnicos.

A preparação dos motores era livre e a velocidade final não era muito alta fazendo com que os barcos chegassem a marca dos 115 km/h pois o que importava não era apenas a velocidade final e sim o torque para retomadas e a durabilidade do motor até o final da corrida. O rio Magdalena apresentava diversas ramificações durante seu percurso onde você tinha que adivinhar qual braço do rio era o caminho correto. Não adiantava fazer um mapeamento com antecedência ou seguir pelo GPS, pois o que descobri durante conversas com outras equipes foi que o curso do rio mudava de tempos em tempos, fazendo com que o braço do rio que era navegável seis meses atrás, se tornava inavegável no decorrer dos meses e aquele que há seis meses não era navegável passava ser navegável fazendo algumas equipes perderem meia hora até que finalmente descobriam que estavam no caminho errado, depois era preciso voltar todo o caminho para retomar o rumo certo.

Uma das maiores dificuldades eram os bancos de areia. Em alguns trechos do rio, de quase 2 quilômetros de largura, restavam apenas 10 metros de largura para poder passar sem encalhar, pois o navegador, que acabou sendo a Jacqueline Chaguri, tinha que ser muito rápido em diferenciar a 115 km/h uma rajada de vento de uma movimentação na água que indicava um banco de areia, pois eram semelhantes, e foi em um desses que terminou a corrida para nossa equipe no segundo dia. Quando percebi lá estava o famoso banco de areia segurando o barco. O trim do motor estava quebrado o que impediu o levantamento da rabeta para o desencalhe. Foi preciso esperar a equipe de resgate, só aí desencalhamos, mas o motor, que já apresentava problemas desde o começo da prova, acabou de quebrar. Então só nos restou continuar com o barco de resgate durante as outras etapas.

Foi neste momento que começou a nossa verdadeira aventura, pois começamos olhar a corrida por outro prisma. O próprio piloto do barco de resgate, que trabalhava com barcos de passageiros no Rio Magdalena há 15 anos, encalhou algumas vezes. O segredo do rio era seguir a parte da correnteza onde tinha mais sujeira, como objetos sobrenadantes e troncos de árvores, o que tornava perigoso, tanto que quase todos os dias apareciam barcos avariados sem contar que um barco acabou afundando.

A experiência deu às equipes colombianas clara vantagem. Com os barcos de resgate fazíamos o resgate de todas as embarcações quebradas que ficavam pelo caminho e também a busca dos barcos que se perdiam nos braços do rio que em alguns trechos se tornavam um enorme labirinto. Quando você entrava nos braços à procura de embarcações perdidas, você descobria que não estava mais em uma competição e sim participando de um turismo ecológico nativo onde vários pescadores com suas canoas de madeira indicavam qual a direção que os barcos haviam tomado e se haviam realmente passado por lá ou retornado ao rumo certo. O caminho também revelou pequenos povoados ribeirinhos que pareciam nunca terem saído daquela região. Vamos lembrar que o rio Magdalena corta a Colômbia ao meio, do sul ao norte onde termina no mar do Caribe e que foi por lá que os espanhóis entraram desbravando o rio e formando sua civilização nascendo assim o país. Em alguns trechos escutávamos relatos de sequestros que, ainda bem, não ocorrem mais.

Mas voltando à competição, como os potentes barcos utilizam gasolina de avião, combustível controlado pelo Exército, era comum ver representantes das Forças Armadas colombianas ao longo rio. A gasolina era distribuída antes da largada, porém os barcos de resgate e das equipes técnicas eram abastecidos durante o percurso pelos mais diferentes modos, como por exemplo você achar no meio do nada um barranco atrás de uma moita de mata fechada na beira do rio e um homem com vários tambores de combustível a sua espera, ou atracar em um píer improvisado onde várias pessoas curiosas corriam e cercavam os barcos como se estivessem vendo um óvni. E lá, no alto do barranco, finalmente, havia um frentista com um tanque de uns 5 000 litros ligado a uma mangueira de esguicho de água por onde era feito o abastecimento. Como a quantidade de barcos para resgatar era grande, em algumas etapas chegávamos durante a noite, horário que a navegabilidade se tornava perigosa.

Outra curiosidade é que em todas as etapas havia uma festa de recepção envolvendo jantares com comidas típicas de região e apresentações culturais. No último dia voltamos à civilização moderna quando entramos na baía de Cartagena ao escurecer com a presença de enormes arranha céus todos iluminados na orla e vários veleiros e iates ancorados. E foi assim que terminou não uma simples corrida e sim uma enorme aventura.

Classificação:

Categoria 3000 c.c.
1º – Andrés Botero (piloto) e Rafael Ramos (navegador)
2º – Álvaro Rincón (piloto) e Nicolás Rincón (navegador)
3º – Jorge García (piloto) e Oscar Vélez (navegador)

Categoria 2000 c.c.
1º – Gustavo Jimeno (piloto) e Richard Tejedor (navegador)
2º – Fernando Díaz (piloto) e Julio Galezo (navegador)
3º – Maria Luisa Botero (piloto) e Lina Botero (navegador)

 

Lebos Chaguri é piloto e especialista em barcos de corrida

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