Tubarão mais velho do mundo pode ajudar a aumentar a longevidade humana

26/07/2024

Nas águas do Oceano Ártico e Atlântico Norte, existe um animal capaz de atingir até quatro séculos de vida. Ao estudarem os segredos de tamanha longevidade, pesquisadores esperam obter evidências que ajudem os humanos a também viverem algumas primaveras a mais. Estamos falando do tubarão-da-Groenlândia (Somniosus microcephalus), o mais velho do planeta!

Para se ter noção, é possível que um tubarão-da-Groenlândia contemporâneo de Tiradentes (1746-1792) esteja vivo e nadando até hoje. Ele teria passado pela Independência do Brasil, duas guerras mundiais, revolução industrial e outros acontecimentos históricos.

Foto: NOAA/ Divulgação

Porém, o motivo do tubarão mais velho do mundo ter tamanha longevidade ainda é um mistério. Algumas teorias — que ainda estão em andamento — sugerem que a lenta taxa de crescimento do animal, junto de sua baixa taxa metabólica, interfiram neste envelhecimento que acontece extremamente devagar.

 

Descobrir o motivo desse fenômeno não seria meramente curiosidade. Afinal, os cientistas esperam que, ao desvendar o mistério do tubarão-da-Groenlândia, a resposta para aumentar a longevidade da vida humana esteja mais perto — embora bem longe dos 400 anos.

Devagar e sempre

Para tentar compreender como funciona as fases da vida deste tubarão, é necessário evitar os comparativos com os ciclos humanos — já que são muito diferentes. Por exemplo: os animais da espécie atingem a maturidade sexual aos 150 anos de vida, quando atingem os quatro metros de comprimento.

Foto: Ewan Clampisson/ Universidade de Manchester/ Divulgação

Considerados nadadores calmos e tranquilos, os tubarões-da-Groenlândia podem atingir entre 2,5 e 7 metros de comprimento e pesar quase duas toneladas, de acordo com o National Geographic. A espécie ainda pode passar longos períodos entre suas refeições, que vão desde salmões e enguias à focas e baleias-beluga.

 

Segundo nova pesquisa do cientista Ewan Camplisson, apresentada na Conferência Anual de Sociedade de Biologia Experimental (SEB), a taxa metabólica do tubarão mais velho do mundo pode não diminuir enquanto ele envelhece — o que influencia tanto sua lentidão ao nadar, quanto sua longevidade.

Inclusive, velocidade não é o ponto forte desse animal. Considerado um dos tubarões mais lentos do mundo, a espécie alcança “incríveis” 0,3 metro por segundo — ou 1,08 km/h, segundo o Observatório de Tubarões de St. Lawrence (ORS). No entanto, essa letargia não o coloca como o mais lento do planeta, de acordo com o grupo.

 

Como não dá para ter tudo na vida, segundo Camplisson, a lentidão e a velhice podem prejudicar a adaptação do animal frente às mudanças climáticas e outros fatores estressantes. Inclusive, essa espécie pode estar se recuperando até hoje do período de pesca excessiva após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

 

Tanto é que a espécie é considerada como “decrescente”, de acordo com a lista vermelha de espécies ameaçadas da International Union for Conservation of Nature — IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza, em português).

Na contramão da maioria

O fato de a taxa metabólica do tubarão mais velho do mundo não diminuir é anormal para a maioria dos animais — inclusive os humanos. Nosso metabolismo tende a ficar mais lento ao passar do tempo e alguns órgãos cruciais podem funcionar pior, acarretando nas chamadas doenças crônicas (pressão alta, bronquite, asma e etc).

Mapa dos habitats do tubarão-da-Groenlândia, no oceanos Ártico e Atlântico Norte. Foto: Wikimedia Commons/ Creative Commons/ Reprodução

No estudo, o cientista analisou a atividade de cinco enzimas metabólicas no tecido muscular preservado deste tubarão. Clampisson disse que, na maioria das espécies, se espera que as atividades dessas enzimas variassem conforme o animal envelhecesse — mas não foi o caso.

 

Nos tubarões observados — estimados entre 60 e 200 anos de idade –, não foram encontradas variações significativas na atividade das enzimas. Porém, um tubarão-da-Groenlândia pode estar na meia-idade com dois séculos de vida, e o cenário pode mudar caso investiguem um tubarão ainda mais velho.

Podemos chegar nessa longevidade?

A resposta é não. Como dito anteriormente, nem nosso corpo, tampouco o metabolismo pode ser comparado com o deste animal. Mas compreender melhor a anatomia deste tubarão pode “nos permitir melhorar a saúde humana”, conforme avalia Camplisson.

Foto: Wikimedia Commons/ Creative Commons/ Reprodução

Descobrir como funciona o metabolismo do tubarão mais velho do mundo pode tanto transformar nossa compreensão do envelhecimento, quanto abrir novos caminhos para terapias regenerativas e estimular novas tecnologias médicas. Além disso, poderia trazer uma melhoria na qualidade de vida humana.

Sem contar que a habilidade dos tubarões-da-Groenlândia de evitar doenças relacionadas ao envelhecimento também pode agregar caso isso seja levado para a saúde humana. Porém, vale salientar que tudo está em estágio inicial, restando muitas etapas até chegar na realidade hoje utópica.

O envelhecimento é um sistema incrivelmente complexo, e ainda não temos uma resposta definitiva sobre como ele funciona exatamente– Ewan Camplisson

Embora o cientista sugira que os tubarões têm mais a nos ensinar no envelhecimento, a longevidade humana não depende apenas do metabolismo. Situações como instabilidade de proteínas, erros genéticos e outros processos — como a classe social que o indivíduo pertence — também influenciam.

 

Por Áleff Willian, sob supervisão da jornalista Denise de Almeida

 

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