Bebê a bordo
Hoje escrevo sobre as milhares de mamães que topam encarar o desafio de criar seus filhos vivendo a bordo. Aos olhos de muitos parece algo bastante arriscado ou até mesmo loucura, mas quem tem essa experiência sabe o quão especiais são essas crianças que têm a oportunidade de crescer e viver no mar – e do mar.
O melhor exemplo real é a história de uma grande amiga, Sabrina Duncan, de Luperón, na República Dominicana. Há quase 20 anos, sua mãe, Veronique Duncan, decidiu encarar a vida a bordo com o marido e uma pequenininha de apenas 5 anos.
Em meados dos anos 1990, a família Duncan vivia em Durban, na África do Sul, e não conseguia ter uma rotina saudável dentro do cotidiano corrido e estafante de uma cidade grande. Foi então que a vontade de ver o crescimento de Sabrina (hoje com 24 anos) de perto venceu, e a consequência foi a tentativa de uma vida a bordo: Sabrina cresceu aprendendo a subir no mastro, sabendo a importância dos ventos alísios, conhecendo os diversos tipos de barcos e motores.
Crianças que crescem a bordo aprendem a identificar as estrelas no céu e se encantam muito mais com a bioluminescência do que com as luzes de Natal. No mínimo, desenvolvem uma autoconfiança que as que crescem em prédios da cidade grande, com certeza, jamais terão. Não quero criticar quem cresceu assim, eu mesma fui uma delas, mas, se puder, darei aos meus filhos a oportunidade de uma infância não convencional e de preferência a bordo.
Hoje, Sabrina Duncan tem seu próprio veleiro, o Sweet Water. A partir de 2009, ela teve a opção de escolher se ficaria com sua casa no mar ou se seguiria a vida em terra, como os adolescentes convencionais. A resposta foi imediata: “Essa é minha casa, minha casa no mar!”
Em torno de 15% dos cerca de 10 mil cruzeiristas que vivem velejando o mundo são famílias com bebês ou crianças a bordo, praticamente uma nação dos oceanos. E uma nação muito unida!
Os riscos existem. A melhor opção é aceitá-los e encontrar uma solução. Mas quem vive a bordo sabe: a recompensa sempre acaba superando os riscos.
Também conheci Karen Wood, avó de um bebê a bordo. O pequeno Connor de nove meses vive com sua filha em um barco a motor. Karen é sua vizinha de marina, ela e o vovô de Connor vivem no veleiro Valkyrie.
Karen é da Carolina do Norte, Estados Unidos, e atualmente mora em Maryland. Ela é uma avó de mente aberta e sabe que, nos tempos de sua mãe, seria loucura criar um bebê num barco e até mesmo hoje muita gente critica quem decide assumir os riscos.
O mais difícil de administrar na vida de morar no mar com um bebê ainda é a segurança. Mas, acredite, as fraldas também podem ser um problemão. O que fazer com elas sujas? Se você estiver num “daysailing” ou numa travessia, nada de jogar no oceano!
Karen me disse algo de bastante valor sobre bebês que crescem num barco e eu tenho que concordar. Serão crianças especiais, que saberão apreciar o meio ambiente e estar à vontade com todos a sua volta, aprendendo a se relacionar rapidamente e respeitando o próximo.
Adorei o comentário final dela: “All diplomats should be sailors!”, em bom português “Todos os diplomatas deveriam ser velejadores”.
Amei conversar e saber mais sobre as mamães de primeira viagem, literalmente! Para quem vive na cidade e tem infraestrutura próxima pode parecer loucura, mas quando você conhece essas histórias mais de perto percebe que basta querer, ter amor, dedicação e acreditar que sim, você pode criar seu bebê de uma forma diferente da convencional.
Deixo aqui algumas dicas de mães que vivenciaram essa experiência:
– Durante as travessias, as crianças devem sempre usar colete salva-vidas;
– Faça apenas velejadas de um dia quando seu filho ou filha ainda for bebê;
– Quando eles saírem para o convés, durante a navegação ou velejada, devem sempre prender-se a um cabo de segurança;
– Coloque redes ao redor do barco;
– O ideal é que a mãe ou o pai fique sempre dentro da cabine com a criança enquanto estiverem velejando, alternando na função;
– Regra básica para os pequenos: uma mão no barco, uma mão para a mãe (ou pai);
– Ensine a criança a pular na água e nadar até ao barco;
Veronique Duncan completa as dicas falando sobre a importância de um bom curso a distância. Os pais tem que saber impor a disciplina como educadores, horários de cumprir responsabilidades e, ao mesmo tempo, serem transmissores de informações de uma forma sem pressão, apresentando o que há nos livros e relacionar com a realidade a sua volta. Os afazeres do barco também devem ser transferidos aos poucos aos pequenos, à medida em que evolui o aprendizado.
Por fim, se você um dia pretender ter um bebê a bordo, lembre-se que você escolheu esse estilo de vida porque você ama. Nos dias de dificuldade, respire fundo e pense: nem todos os pais têm a chance de realizar seus sonhos ao lado de seus pequenos!
Hoje, Sabrina Duncan, assim como milhares de crianças que cresceram a bordo, aprendeu a importância da família, do trabalho em equipe e da responsabilidade em garantir sua própria segurança e futuro. Fica a pergunta: o que mais falta para ela ser feliz?
Nas fotos: Sabrina Ducan, que vive a bordo desde os 6 anos, e o pequeno Connor, com sua avó e em um banho a bordo.
Fotos: Shutterstock e arquivo pessoal
Marcela Rocha é instrutora de mergulho, jornalista, locutora de rádio, velejadora nas horas vagas e, acima de tudo, muito feminina
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Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.
O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

















