Campeonato de vela

Por: Redação -
27/01/2016

O Campeonato Brasileiro da classe 420 2016 terminou no Veleiros do Sul com a vitória dos paulistas André Fiuza e Marcelo Peek. Eles lideraram os cinco dias de competição e, neste sábado, 23, confirmaram o título ao não ser disputada a última regata por falta de vento em Porto Alegre.  Em segundo lugar, ficaram os gaúchos Tiago Brito e Pedro Zonta e, na terceira colocação, Ricardo de Castro Paranhos e Gabriel Tolentino, de Brasília. A dupla do Yacht Club Santo Amaro conquistou o seu segundo título da classe 420 no espaço de um mês. Em dezembro, eles venceram a III Copa Brasil de Vela e, agora, veio o Brasileiro e começaram a velejar em setembro, se dedicando forte aos treinos.

“Tudo isso foi reflexo de muito tempo na água. Nós velejamos em Ilhabela (SP) e no Rio de Janeiro, quase todos fins de semanas. No Brasileiro, depois de três dias sentimos que nossa chance de sermos campeões era grande”, disse o timoneiro André, 15 anos. Eles também tentaram ir para o Mundial da Juventude da Federação Internacional de Vela (ISAF) na Malásia, no início de janeiro, mas na seletiva nacional perderam a vaga para a dupla do RJ Leonardo Lombardi e Rodrigo Luz, que conquistou a medalha de prata em Langkawi. No Brasileiro os cariocas ficaram com o quarto lugar. “Na minha opinião a Vela Jovem brasileira está numa ótima fase, muita gente mostrando o seu talento e ganhando títulos. É muito promissor”, avalia o timoneiro André que não contará mais com o seu proeiro. “Eu irei estudar engenharia na Alemanha e precisarei largar por um tempo a vela”, conta Marcelo, 18 anos.

O sábado foi de muito calor com a temperatura chegando aos 38ºC em Porto Alegre. A décima regata estava prevista para largar as 13 horas, os velejadores foram até a raia da Pedra Redonda onde um vento de noroeste soprava na intensidade de 10 nós. No entanto, ao se aproximar do começo da regata o vento enfraqueceu e ficou rondado, não dando condições técnicas para a disputa. A Comissão de Regatas esperou até às 16 horas, tempo limite para largar. Já perto de estourar o horário o time do Yacht Club Santo Amaro gritava na raia: “é campeão” comemorando os títulos geral e feminino. Os gaúchos Tiago Brito e Pedro Zonta, que estavam apenas dois pontos atrás dos paulistas, viram suas esperanças de uma vitória em casa murcharem como as velas dos barcos na raia, e Tiago, bicampeão brasileiro (2014 e 2015) alcançar o seu terceiro título consecutivo.

Na categoria feminina as paulistas Olivia Belda e Marina Arndt foram as campeãs, seguidas pelas argentinas Clara Videla Sofia Videla. Olívia, 15 anos, e Marina, 14, já velejaram no Guaíba, mas dessa vez conforme a timoneira, o clima ajudou bastante a dupla na conquista do bicampeonato brasileiro feminino. “A gente prefere velejar no calor, frio a gente não gosta. E o vento forte também ajudou, deu pra aproveitar bem tudo o que costumamos treinar”. A dupla também se prepara para o Mundial, onde, diferente do Brasileiro, velejarão só entre as garotas. “Velejar com os meninos é bom, mas só entre as meninas é muito mais legal porque a gente se sente mais confiante. Especialmente lá na Itália, onde o vento vai ser mais forte, como tivemos aqui, o que fez valer como treino. Só vamos ter que fechar a boca para ficarmos mais leves”, brincou Olívia que aproveitou para agradecer os familiares, destacando Bernardo Arndt, o Baby (técnico  da dupla e pai de Marina).

O Veleiros do Sul competiu com três tripulações formadas por jovens velejadores alguns saídos no ano passado da classe Optimist. Tiago Quevedo e Erik Hoffmann terminaram em 10º Iugar e subiram no pódio da categoria Júnior onde ficaram em terceiro lugar. Os outros dois representantes do Clube foram: Iagor Franco e Philipp Rump, em 18º e Nicolas Mueller e Gabriel Mueller em 19º. Veja a súmula final.

No início da noite de sábado ocorreu a premiação do Brasileiro da classe 420 com uma festa no Veleiros do Sul. Participaram 21 duplas do RS, SP, RJ. DF e Argentina. O Brasileiro da classe 420 de 2017 será em janeiro, Ilhabela.

Classificação Geral
1º André Fiuza e Marcelo Peek  (YCSA – SP)

2º Tiago Brito e Pedro Zonta (CDJ – RS)

3º Ricardo Paranhos e Gabriel Tolentino (ICB/ICJG – DF/RJ)

4º Leonardo Lombardi e Rodrigo Luz (ICRJ – RJ)

5º lugar geral – Cláudia Mazzaferro e Andrei Kneip (YCSA/CDJ – SP/RS)

Categoria Feminina
1º Olivia Belda e Marina Arndt (YCSA – SP)

2º lugar –  Clara Videla e Sofia Videla (YCA – ARG)

3º lugar – Clara Penteado e Mariana Rittscher (ICRJ – RJ)

Categoria Júnior
1º Gustavo Luis e Pietro Motta (ICRJ – RJ)

2º Olivia Belda e Marina Arndt (YCSA – SP)

3º Tiago Quevedo e Erik Hoffmann (VDS – RS)

Foto: Divulgação

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    Quem fala pela náutica?

    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

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