Único iate a vapor americano ainda existente é relançado após reforma
Batizada de Cangarda, embarcação de 125 anos de história já serviu à Marinha Real Canadense na 2ª Guerra Mundial e foi afundada em 1999


Quem achou que ele estava derrotado, achou errado. Após mudar de mão diversas vezes, hospedar líderes mundiais e passar um ano e meio afundado, o lendário superiate a vapor Cangarda, o único americano da categoria ainda existente no mundo, acaba de ser reestruturado e relançado ao mar. Depois de reformado, o barco foi levado ao Museu Rahmi Koc, em Halic, na Turquia, onde ficará em exposição permanente.
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Sejamos honestos: esta histórica embarcação merecia um novo capítulo mais digno. Construído pelo estaleiro Pusey & Jones, nos EUA, o Cangarda foi entregue originalmente em 1901 para o magnata da madeira Charles Canfield. Desde então, foram 125 anos de vida desse que ainda é considerado um dos melhores iates a vapor do início do século 20 ainda existentes.
O que também aumenta o status de raridade é o fato de que este é um dos três navios semelhantes restantes no mundo, segundo o Museu Rahmi Koc. No entanto, ele teve que passar por poucas e boas para ficar novinho em folha, como está agora.
Um bravo guerreiro
O design é bem característico da época em que foi construído. Projetado por H.C. Wintringham durante a era de ouro da náutica, o barco de 138 pés (42 metros) de comprimento apresenta uma silhueta clássica e dois mastros imponentes, sendo um dos destaques de um modelo que demonstrava uma engenharia avançada para a época, incluindo a propulsão a vapor.


Sua história, no entanto, tomou alguns rumos curiosos. Ao longo do último século, o Cangarda mudou de posse diversas vezes e passou por pequenas e grandes reformas. No seu auge, o clássico iate a vapor recebeu líderes mundiais e até serviu como navio-escola para a Marinha Real Canadense durante a Segunda Guerra Mundial.
Entretanto, próximo da virada do século, em 1999, a embarcação afundou lentamente no seu próprio cais em decorrência do abandono e da falta de manutenção. O evento foi considerado o estopim para que o barco fosse resgatado do fundo do oceano, por onde ficou por cerca de um ano e meio.
O resgate foi conduzido por equipes de salvatagem marítima e demorou tanto tempo por conta das condições do barco. Nesses casos, quando a embarcação já é antiga e se encontra bem deteriorada, as equipes buscam não “puxá-lo” de uma vez, mas sim trazer o casco de volta à flutuação natural, com o mínimo de estresse estrutural.


Desde então, o iate foi resgatado e passou pela mão de alguns donos. Em 2002, o Dr. Robert McNeil adquiriu o iate com o objetivo de restaurá-lo. Dois anos depois, sob comando de McNeil, a Rutherford’s Boat Shop, na Califórnia (EUA), iniciou um projeto de reconstrução completo, que seria finalizado em 2009.
Atualmente, o Cangarda pertence ao empresário turco Rahmi M. Koc, fundador do museu onde hoje a embarcação é exibida, que adquiriu o modelo em 2024. Foi ele o responsável pelo mais recente upgrade, que teve o objetivo de transformar o navio em uma peça de exibição.
Novinho em folha
A última repaginada foi comandada pelo estaleiro RMK Yachts, de Istambul, começando ainda em 2024 e sendo finalizada apenas em 2026. Entretanto, a proposta dessa nova reforma não era tão simples: “proteger o seu espírito, não reinterpretá-lo”, conforme detalhou Cunyet Okcu, diretor da empresa turca.


Desde o início, não encaramos o Cangarda como um projeto de reforma, mas como uma responsabilidade com o patrimônio marítimo global-contou o diretor
Tanto é que a mudança foi concentrada meticulosamente na conservação de todos os acessórios de latão e bronze. Os espaços interiores, por sua vez, foram considerados um “documento vivo” de sua época, tendo seus móveis, materiais, acabamentos e arranjos originais mantidos.


Contudo, alguns retoques foram necessários. Logo ao chegar em Istambul, em outubro de 2024, o Cangarda enfrentou reforma mecânica, renovação interior e atualização no equipamento de mastreação, convés e sistemas de segurança — tudo com a mentalidade de conservação de nível museológico.
Como era de se imaginar, eles também revitalizaram o sistema de propulsão a vapor, consultando até especialistas internacionais em engenharia naval do século 20. Embora a configuração inicial tenha sido mantida, componentes selecionados foram reconstruídos para atender aos padrões de segurança operacional.
Devidamente reformado e testado nas águas, o Cangarda vai “descansar” no museu como um testemunho vivo dos primórdios da navegação a vapor. Inclusive, esse barco será tema de um novo documentário, previsto para ser lançado até o final de 2026.
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