Como no cabelo humano, carapaças de tartarugas guardam informações e fornecem “visão” do passado
Estudo analisou como o casco desse animais pode ajudar a entender os efeitos das mudanças ambientais em espécies marinhas


Você já deve ter ouvido falar que o cabelo humano funciona como a “memória física” do corpo, uma vez que os fios armazenam informações sobre o nosso organismo — não à toa, podem revelar a presença de substância no corpo ou deficiência de nutrientes. Pois bem, algo parecido acontece nas carapaças das tartarugas, e estudiosos estão analisando como elas podem ajudar a entender os efeitos das mudanças ambientais nesses animais.
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A semelhança com o que acontece nos fios de cabelo vem das placas ósseas que formam a carapaça das tartarugas. Isso porque elas são compostas de queratina, o mesmo material que compõe o cabelo humano. Essa proteína fibrosa é capaz de armazenar informações sobre a saúde, dieta, ambiente e exposição a substâncias químicas ao longo do tempo de crescimento capilar.


Na prática, deficiências de vitaminas, minerais ou proteínas podem alterar a estrutura da queratina produzida, registrando, assim, períodos de desnutrição ou doenças. Logo, tanto os fios quanto os cascos atuam como “cápsulas do tempo” biológicas. Nas tartarugas, a queratina cresce em camadas sucessivas.
Ao longo do tempo, pesquisadores usaram esses registros para entender a ecologia desses animais. Agora, porém, um novo estudo, publicado na revista Marine Biology, se debruça sobre rastrear como as mudanças ambientais afetam as tartarugas marinhas.
A pesquisa, liderada por Bethan Linscott e Amy Wallace, em colaboração com pesquisadores da Universidade da Flórida, da Universidade de Bristol e da Earth Sciences New Zealand, aplica técnicas de radiocarbono para contextualizar historicamente esses registros químicos.
Como foi conduzido o estudo com as carapaças das tartarugas
Para determinar a rapidez com que as camadas se formam, os estudiosos removeram pequenas biópsias circulares das placas ósseas de tartarugas marinhas encalhadas, das espécies tartarugas-cabeçudas (Caretta caretta) e tartarugas-verdes (Chelonia mydas), coletadas ao longo da costa da Flórida entre 2019 e 2022.


As placas foram cortadas em seções ultrafinas, de aproximadamente 50 micrômetros de espessura. Cada uma delas foi datada por radiocarbono e comparada com o “pulso da bomba” do século 20 — técnica que considera o aumento repentino de carbono na atmosfera da Terra devido às centenas de testes nucleares acima do solo, atuando como um indicador ambiental no ambiente marinho.
Em seguida, os pesquisadores utilizaram a modelagem bayesiana de idade-profundidade — abordagem estatística comumente usada em arqueologia — para datar as camadas de sedimentos e estimar a rapidez com que o tecido da carapaça se acumulou.


Os resultados revelaram que o crescimento das placas ósseas, considerando cada camada de 50 micrômetros, variam entre as espécies, mas representam, em média, de sete a nove meses de crescimento.
Com essa informação em mãos, a equipe pôde reconstruir uma espécie de linha do tempo, correlacionando as taxas de crescimento mais lentas com distúrbios ambientais nas águas da Flórida, a exemplo de eventos como a proliferações de algas nocivas, conhecidas como “marés vermelhas”, e grandes acúmulos de algas Sargassum.
Essas carapaças registram, na prática, o estresse ambiental no oceano. É como uma perícia forense com tartarugas marinhas. Podemos usar as impressões digitais químicas preservadas nas placas para detectar mudanças ecológicas– explicou Bethan Linscott
Ainda de acordo com a pesquisadora, o estudo pode ajudar os cientistas a entender com mais clareza como os ecossistemas marinhos estão mudando e como as espécies respondem a essas mudanças.
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