Despedidas e recomeços

Por: Redação -
14/01/2015

Dez dias navegando…

– Querida, vai lá na proa ver se está tudo bem… As águas por aqui são muito rasas…

– Mas, meu Bem… Estamos a 10 pés de profundidade! Ok… vou!

Booommmmmmmmmmm!!!

– Alô… preciso contar algo a vocês… Passando pelo norte de Samana Cay, nas Bahamas, batemos em um coral que não apareceu no GPS! Chegamos com o barco em Luperón porque conseguimos tapar a rachadura maior com epóxi marinho, mas Sea Lion sofreu graves avarias…

Depois dessa notícia recebida do skipper que contratamos para levar Sea Lion de Bahamas para Luperón, enquanto estávamos trabalhando no Brasil, tudo ficou escuro…

Não foi esse o motivo que nos levou a vender o Sea Lion… Nossa história tinha terminado ali por vários outros motivos… Um casal de 30 anos, larga tudo para viver uma vida no mar. Se não houver um querer muito grande em viver essa experiência juntos, nenhum porto será seguro. Uma vez lendo Beto Pandiani, ele declarou que o que o fez chegar seguro na travessia do Pacífico foi a parceria e a preocupação um com o outro entre ele e o Igor. Bingo!

Dizem que quando se trata de ter um barco existem duas alegrias. Uma quando se compra e outra quando se vende. Não posso dizer que desfrutei das duas porque a segunda me doeu muito.

Foi como perder um filho. Se barcos têm almas, com certeza a do Sea Lion também sentiu um pouco em nossa despedida.

Nesse post escrevo sobre minha despedida de meu veleiro. Sim, eu me despedi dele! Com direito a brinde, música alta… Só eu e ele… Digo ele porque nunca senti Sea Lion como ela. Sua alma era masculina. Tirei tudo dos armários, roupas, equipamentos de mergulho, eletrônicos, cabos, utensílios de cozinha, ferramentas, livros… Uns eu dei, outros deixei e alguns trouxe ao Brasil. Foi uma faxina geral, mas fiz questão de entregar Sea Lion ao novo dono todo limpinho e arrumadinho por dentro também.

Vivi os últimos 10 dias a bordo do Sea Lion de uma forma bastante intensa. Lembranças de quando navegamos pelos mares do Caribe vinham a todo momento em minha mente, dificuldades que fazem você pensar em desistir da vida a bordo, mas que crescem e viram orgulho quando você volta a pisar em terra firme.

Foram dez dias de preparo para entregar Sea Lion ao novo dono. E dizem que é o barco que encontra o dono. Eu também acredito nisso. Jeff, o novo proprietário, tem uma história com Gulfstar 37. Seu pai teve um e chegou a bater em um coral com o barco, sendo salvo pela robustez do casco de um Gulfstar 37, construído com fibra e núcleo de madeira. Sea Lion também passou por isso, não em minhas mãos, mas passou… E isso me fez acreditar que a alma do Sea Lion buscou um dono que o valorizasse mesmo com rombos no casco, sabendo que aquilo seriam apenas cicatrizes que ficariam para sua história.

Muita gente quando foi ver Sea Lion para comprar, desistiu quando viu a situação do casco e leme… Jeff, não! Lembrou-se do pai, sorriu e disse: negócio fechado! Meu coração chorou, mas se encheu de emoção por Sea Lion ter encontrado alguém que o valorizasse e mais do que isso, o colocasse na água de novo.

A reforma do Sea Lion custou-me muita preocupação. Teria muito o que fazer em pouco tempo. Refazer o skeg, reformar o leme, tapar os buracos do casco, lixar, pintar, passar venenosa… Organizando tudo isso sozinha, em uma terra sem lei. Não escrevo isso porque acho que mulheres não são capazes de tocar um projeto assim sozinhas, mas sim porque em um lugar com língua estrangeira, cultura machista e sem policiamento nenhum, a situação fica um pouco mais delicada. A sensação era de que teria uma tempestade para encarar e sem chances de rizar a vela.

No começo, como toda brasileira, era simpática com todos trabalhadores da marina. Depois que comecei a receber mensagens anônimas obscenas no celular, tive que virar “macho”. Já não andava mais “bonitinha”, era curta e grossa, porém sem deixar de ser educada, claro!

A Marina em Luperón fica num lugar bastante inóspito. Era só eu morando a bordo no seco, sem moradores também nos barcos que estavam atracados. Não tinha luz à noite, o gerador parava às 17 h, o banheiro era o mesmo que todos trabalhadores usavam. Se chovesse à noite, era impossível chegar à Marina de moto ou carro, só com o bote por mar e a caminhada até o barco era com lanterna na mão e frio na barriga…

Depois de dez dias… Missão cumprida! O que tinha ficado sob minha responsabilidade, estava finalizado. Um dia de despedidas. Amigos queridos que fazemos em nossa vida de cruzeirista. Muitos que me deram força para cumprir essa missão, muitos que riram e que lamentaram também minha partida. Afinal, será que um dia terei novos motivos para voltar a esse porto?

Luperón é apaixonante. Fácil de chegar, difícil de partir. Quase uma Bahia onde se fala espanhol. Música alta na porta de todos os estabelecimentos, gente “cuca fresca”, motoqueiros alucinados, cerveja o dia inteiro, cinema com pipoca no bar de cruzeiristas, lagosta a R$ 5. Muitos que chegam de barco pensando em ficar um mês, ficam dez anos e sem exagero! Uma comunidade cruzeirista bastante ativa. Fiz amigos muito queridos por lá. Espero um dia voltar, por mar ou por terra, nem que seja apenas para visitá-los e sentir um pouco daquele brilho no olhar e simplicidade que preenchem o coração de vida. O pouco lá é muito, demasiada felicidade!

Recebi fotos esses dias de um de meus amigos. Sea Lion está quase pronto para ganhar as águas. Fiquei feliz e a sensação foi de missão cumprida.

Todo dono de veleiro que quer vendê-lo não quer apenas passar pra frente, quer ter a certeza de que o novo dono irá cuidá-lo, colocá-lo na água e fazer dele um pássaro flutuante.

Agora estou de volta à terra firme, não sei até quando… Mas pronta para começar uma nova história e poder sentir novamente a alegria de comprar minha próxima casa no mar. Sigo sonhando, mesmo que distante, não deixemos de sonhar, pois mesmo sem realizar, é o sonhar que nos faz seguir em frente! E marinheiro que é marinheiro tem que seguir em frente!

 

 

 

Marcela Rocha é instrutora de mergulho, jornalista, locutora de rádio, velejadora nas horas vagas e, acima de tudo, muito feminina

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