Federação de Vela Adaptada destaca acolhimento no esporte durante Brasília Boat Show
Entidade já levou mais de 1.500 pessoas com deficiências físicas e intelectuais para velejar pelas águas da cidade


Para a Federação Brasiliense de Vela Adaptada, o verbo ‘velejar’ só faz sentido se o complemento for ‘para todos’. Nascido em 2009, o projeto comandado por Mauro Osorio vê no esporte a oportunidade de acolher seja quem for ao levar, para as águas, pessoas com os mais diferentes tipos de deficiência.
Segurança da navegação foi tópico do Brasília Boat Show através da Asbranaut
Brasília Boat Show leva ao público conscientização sobre importância do Lago Paranoá
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Ao longo de 15 anos de trabalho, a federação proporcionou a experiência da vela a mais de 1.500 alunos. Foi justamente para espalhar conhecimento e inclusão que a entidade atracou na primeira edição do Brasília Boat Show.


À NÁUTICA, o fundador do projeto contou que tudo começou com seu desejo de voltar a dar aulas de vela — algo que fez pela primeira vez por volta dos 16 anos de idade. Após assistir às Paralimpíadas de Pequim, em 2008, e ver que havia um representante brasileiro no esporte, decidiu se tornar um fomentador de atletas.
“Quis dar aula de vela para pessoas com deficiência. Inicialmente, com a ideia de alto desempenho, com participação em regatas”, conta. Na época, o projeto era vinculado ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e somente pessoas com deficiências físicas eram contempladas.


Não demorou muito para a Federação tomar uma abrangência maior. Hoje, inicia na vela pessoas com deficiências físicas, visuais, auditivas, intelectuais, com autismo e crianças com câncer.
São mais de 200 participantes nas aulas semanais — que acontecem de terça a sexta — e nos aulões aos sábados, em que todos os barcos vão para a água, incluindo os maiores, que também levam os pais na companhia das crianças atendidas.
Acessibilidade e inclusão nos veleiros
A Federação conta com 24 barcos, sendo 14 da classe Hansa — barcos universais reconhecidos pela World Sailing. “Ele foi criado com a proposta de atender à pessoa deficiente, mas o projetista sempre ressaltou que é para todo mundo velejar nele”, explica Mauro.


Em cada um, cabem duas pessoas. Isso quer dizer que, em um único dia, 28 alunos podem velejar pelas águas brasilienses nesse modelo.
Os barcos Hansa são todos australianos. Mauro conta que a Federação ganhou um edital para projetos sociais que o governo da Austrália fez no Brasil e que, a partir disso, conseguiu solicitar a compra dos veleiros.
Atualmente com 62 anos de idade, o presidente da Federação acumula 58 anos de vela — já que começou no esporte aos quatro anos, com o pai. Em sua trajetória, chegou a ser timoneiro do campeão olímpico Lars Grael ao competir, em dupla com ele, por volta dos 12 anos.
Na Federação, além de inserir a vela na vida de inúmeras pessoas, teve o prazer de ver uma de suas antigas alunas, Ana Paula Marques, a conquistar o título de campeã mundial de vela.
1º Brasília Boat Show
O 1º Brasília Boat Show reuniu, em formato boutique, grandes destaques do mercado náutico e uma programação para toda a família. O evento atracou pela primeira vez no Centro-Oeste, nas águas do belo Lago Paranoá, entre os dias 14 e 18 de agosto.


Lanchas, pontoons e jets foram expostos ao público na capital federal, inclusive com a possibilidade de test-drive de barcos. O Brasília Boat Show mostrou ainda opções de motores, equipamentos e diversos acessórios para embarcações.
E teve mais: exibição de barcos clássicos de décadas passadas, rally náutico e uma programação completa de lazer, com esportes aquáticos gratuitos, palestras e apresentações musicais.
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Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.
O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!
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