Estados Unidos discutem isenção de imposto sobre juros no financiamento de barcos

Projeto federal propõe dedução de até US$ 10 mil por ano em juros de financiamento de barcos, seguindo o modelo do setor automotivo

Por: Otto Aquino -
26/01/2026
Foto: Ilustração criada com IA

Nos Estados Unidos, o debate sobre a indústria náutica voltou ao centro da política pública. Em 23 de janeiro, a deputada americana Nancy Mace, da Carolina do Sul, apresentou no Congresso o projeto No Tax on Boat Loan Interest Act, que propõe a isenção de imposto sobre juros de financiamento de barcos de lazer.

Ao divulgar a proposta, Nancy Mace destacou, como exemplo, o peso econômico da náutica na Carolina do Sul. Segundo a deputada, o estado conta com mais de 350 mil barcos registrados e 187 milhas de litoral, sustentando mais de 27 mil empregos, cerca de 650 empresas e um impacto econômico anual de US$ 6,5 bilhões.

 

 

De acordo com Mace, a nova legislação pode gerar empregos bem remunerados na indústria de barcos, ampliar o acesso das famílias à navegação e tornar a compra de barcos fabricados nos Estados Unidos mais acessível. “A navegação não é um luxo, é um meio de transporte essencial e um importante motor econômico”, afirmou.

 

Apesar de ter sido apresentada por uma deputada da Carolina do Sul, a proposta tem alcance federal e vale para todo o território dos Estados Unidos. A lógica é simples: atualmente, os juros pagos no financiamento de um barco entram no cálculo do imposto de renda federal.

 

O projeto propõe que esses juros passem a ser dedutíveis do imposto, nos mesmos moldes do financiamento de automóveis. Na prática, o comprador poderá abater até US$ 10 mil por ano em juros pagos, reduzindo o imposto devido ou aumentando a restituição anual.

Foto: Ilustração criada com IA

O texto também estabelece critérios claros. O benefício fiscal se aplica exclusivamente a embarcações de lazer fabricadas nos EUA, conectando o incentivo tributário ao fortalecimento da indústria naval americana e à geração de empregos em toda a cadeia produtiva.

 

O argumento central da proposta é direto: barcos não são apenas lazer. Eles representam indústria, inovação, turismo, transporte e cultura marítima. Segundo dados da National Marine Manufacturers Association (NMMA), cerca de 95% das embarcações vendidas nos Estados Unidos são fabricadas no próprio país. Isso significa que incentivar o consumo de barcos impacta diretamente estaleiros, marinas, fornecedores, serviços e comunidades inteiras ligadas à economia do mar e das águas interiores.

 

O movimento chama atenção também pelo contraste com experiências recentes de outros países. Um exemplo recente é o Canadá, que em 2022 criou um imposto adicional sobre bens considerados “de luxo”, incluindo embarcações acima de determinado valor.

Foto: wirestock / Envato

O resultado foi negativo. As vendas de barcos caíram, estaleiros reduziram produção, empregos foram perdidos e compradores migraram para outros mercados, principalmente os Estados Unidos. A arrecadação ficou abaixo do esperado e os prejuízos ao setor foram evidentes.

 

Diante da pressão da indústria náutica, o próprio governo canadense reconheceu os efeitos colaterais da medida e, no fim de 2025, revogou o imposto sobre barcos. A lição foi clara: penalizar a náutica não gera justiça fiscal, gera retração econômica.

Incentivar funciona

O exemplo dos Estados Unidos segue na direção certa. Ao reduzir o custo do financiamento de barcos, o governo amplia a base de consumidores, fortalece a indústria local e aumenta a arrecadação indireta em toda a cadeia produtiva.


No Brasil, ainda persiste a visão de que barco é sinônimo de supérfluo ou luxo tributável. Essa leitura ignora que a indústria náutica brasileira movimenta estaleiros, marinas, oficinas, turismo e milhares de empregos diretos e indiretos.

 

Barco precisa ser tratado como o que realmente é: um ativo econômico, industrial e cultural. O que os Estados Unidos mostram agora (e o que o Canadá aprendeu da forma mais dura) reforça uma verdade simples: incentivar o setor náutico gera crescimento. Talvez seja hora de o Brasil olhar com mais atenção para os exemplos que funcionam. As águas fazem parte da solução.

 

Náutica Responde

Faça uma pergunta para a Náutica

    Relacionadas

    "Barco hotel"? Iate italiano usa energia solar para operar sem geradores por até 9 horas

    Novo Ardadia A96, da Arcadia Yachts, é equipado com painéis solares que podem gerar cerca de 4,5 kWh de energia

    Surpresa da Copa, Cabo Verde tem cerveja produzida a partir de água do mar

    Com ilhas espalhadas pelo Atlântico, Cabo Verde combina paisagens costeiras, esportes aquáticos e turismo náutico

    Do Brasil para o mundo: NX Boats mira 50% da produção no mercado global

    Estaleiro pernambucano planeja que metade de sua fabricação seja destinada ao exterior. Expansão da marca envolve três continentes

    Copa Mitsubishi 2026: confira os primeiros resultados da 2ª etapa

    Quarenta e uma tripulações participaram do circuito, que contou com um feito inédito. Regatas decisivas acontecem no próximo sábado (20)

    Ventura anuncia novos pontoons, barcos de pesca e parcerias inéditas com Yamaha e Volvo Penta

    Marca comemora 43 anos durante a Convenção Mundial Ventura, evento que reúne dealers nacionais e internacionais para a apresentação de lançamentos