Pescador que salvou vidas nas enchentes do RS ganha motor novo para seu barco

Famosa "Sucuri do Lami", lancha que fez resgates durante a cheia do Guaíba, estava parada há quase um ano pela falta do equipamento

27/07/2025
Lauri Goettems "Neni", a bordo da sua lancha, Sucuri do Lami. Foto: Lauri Goettems/ Arquivo Pessoal

Desde cedo, aprendemos nos desenhos que heróis costumam surgir no momento em que mais se precisa deles — seja pelo ar ou por terra. No entanto, enquanto as enchentes assolavam o Rio Grande do Sul, em 2024, um homem surgiu das águas para ajudar quem mais precisava: Neni e o seu barco, a “Sucuri do Lami”.

Nas mesmas águas que destruíam o estado gaúcho, o pescador Lauri Goettems (45), mais conhecido como Neni, navegava com o seu barquinho entregando alimentos, remédios e líquidos para moradores ilhados dos bairros Lami e Belém Novo, no extremo-sul de Porto Alegre.

Lauri Goettems, o “Neni”. Foto: Lauri Goettems/ Arquivo Pessoal

Construído pelo próprio Lauri, o barco com o qual ele estima ter salvado 16 pessoas mede cinco metros e tem capacidade para transportar ao menos seis pessoas — além de levar o nome inspirado no personagem Velho do Rio, da novela Pantanal. Na época da cheia, a lancha estava equipada com um motor de 50 hp, que não resistiu.

Ficamos um mês andando aqui, sem a água baixar. De tanto bater na grade e trabalhar com o motor muito quente, o bloco bateu no ferro e rachou– relatou à NÁUTICA

Mesmo assim, ele não parou de ajudar. Com o equipamento quebrado, Neni pegou um motor de 25 hp emprestado de seu irmão e continuou a entregar alimentos, remédios e o que mais fosse preciso para as vítimas ilhadas. Dois meses depois, as águas baixaram, o equipamento foi devolvido e o barco estava até agora parado.

Foto: Lauri Goettems/ Arquivo Pessoal

À época, Lauri também perdeu sua casa para as enchentes e passou a morar na caçamba do caminhão de um amigo, onde improvisou uma barraca de lona.

Não há chuva que dure para sempre

Atualmente, o pescador reconstruiu seu lar e recebeu outra boa notícia: a doação de um novo motor para seu heroico barco Sucuri do Lami, vinda de uma pessoa que não quis se identificar.

Foto: Lauri Goettems/ Arquivo Pessoal

O motor é muito bom, novo, tem nota fiscal e tudo– avaliou o pescador

“Fiquei um ano sem motor, agora que estou começando a me recuperar”, conta ele, que está pagando o equipamento quebrado durante as enchentes até hoje.

 

A conhecida Sucuri do Lami, enfim, voltará a navegar. O motor doado é um Mercury 15 Super, de 15 hp, que permite ao pescador retomar suas atividades e passear pelas águas — embora não seja suficiente para enfrentar situações mais exigentes, como nas enchentes.

Foto: Lauri Goettems/ Arquivo Pessoal

Lauri conta que o ideal para o barco seria um motor de 40 hp, tanto para a Sucuri do Lami suportar mais pessoas quanto para aguentar águas mais violentas. Entretanto, o novo equipamento já supre uma necessidade que há tempos ele sentia: a de colocar o barco nas águas.

Já estou feliz com este– contou Neni à NAÚTICA

Sem motor? Sem problemas!

Apaixonado pelas águas, era de se esperar que o pescador não ficaria todo esse tempo sem navegar. Durante a ausência do motor, Lauri usava a lancha do irmão para visitar lugares mais afastados.

Vista ao Morro da Formiga (RS). Foto: Lauri Goettems/ Arquivo Pessoal

Foi assim que, no último mês de maio, ele navegou até o Morro da Formiga (RS), que sofria com alagamentos há 20 dias. Neni conta que, por conta das árvores caídas, o local não tinha acesso terrestre. Logo, graças a um telefone que carrega por energia solar, ele recebeu o chamado.

Não tinha como o pessoal se alimentar. Como eu já conhecia eles, peguei minha lancha e fui lá– relembrou

Num trajeto que envolveu muita correnteza, o pescador conseguiu chegar até o destino e entregar medicamentos, água e alimentos. Neni conta que encontrou casos alarmantes, como o de um idoso que sofria com problemas no coração e estava sem remédios há uma semana — além de pessoas que não recebiam comida há 20 dias.

Levei os alimentos e fui duas vezes lá com essa lancha, porque os barcos de grande tamanho não tinham pressão para passar na correnteza. Fui e voltei duas vezes, com ondas de ‘levar tudo embora’– lembra

Solidariedade fora das águas

O homem ainda conta com um galpão chamado “Barracão Amigos do Lami”, na estrada Otaviano José Pinto, montado no dia da enchente. Até hoje o local atende pessoas necessitadas dos bairros do Lami, Restinga, Ponta Grossa e Belém Novo, além de Itapuã, distrito do município de Viamão — todos na zona sul.

Galpão solidário organizado por Neni durante as enchentes, em 2024. Foto: Lauri Goettems/ Arquivo Pessoal

Não sou da zona sul, mas tenho meu galpão ali. Também temos ajuda de alimentos, cobertores, muleta, remédio e outras coisas mais– explicou

Durante a cheia, por oito meses, o local serviu aproximadamente 750 almoços diários e recebeu doações de caminhões de água mineral para distribuição no Lami. Neni também criou um grupo de ajuda humanitária no WhatsApp com mais de 480 pessoas da região.

Galpão solidário organizado por Neni durante as enchentes, em 2024. Foto: Lauri Goettems/ Arquivo Pessoal

Não ganho nada para isso, faço porque gosto. O pessoal me ajuda e um ajuda o outro– ressalta

Porém, vale lembrar que Lauri também teve perdas durante a cheia do ano passado, como o motor e, principalmente, sua casa. O pescador se endividou na reconstrução do novo lar e pede, para quem quiser e puder ajudá-lo financeiramente, que entre em contato. Para isso, basta chamá-lo direto no telefone: (51) 99564-5834.

 

Mecânico náutico, Neni aceita também doações de motores que necessitem de reparos para potencializar a Sucuri do Lami.

 

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