O que os palestrantes disseram no segundo dia do 4º Congresso Náutica de Investimento em Turismo Náutico

Por: Redação -
30/09/2018

Para discutir os entraves ao desenvolvimento do turismo náutico no Brasil — e as maneiras de superá-los —, especialistas de diversas áreas participaram do 4º Congresso NÁUTICA, que indicou os caminhos a percorrer, durante o São Paulo Boat Show 2018. O evento, exclusivo para convidados, aconteceu nos dias 27 e 28 de setembro, e é o único encontro nacional do setor que promove a cadeia náutica por meio das prefeituras com o objetivo de gerar renda e desenvolver o turismo náutico local. O congresso serviu também para a troca de cartões e experiências, visando a ajuda mútua a fim de implantar e, em seguida, incrementar o turismo náutico, atividade que tem tudo a ver com um país com as dimensões — e volume de água — que o Brasil possui. Veja o que alguns palestrantes disseram no segundo dia do 4º Congresso Náutica de Investimento em Turismo Náutico:

“O primeiro folheto turístico da cidade de São Sebastião, no litoral de São Paulo, foi feito por conta de um evento náutico, a chegada da regata Whitbread na cidade, em 1998”.

Ícaro Aronovich, professor de gestão ambiental na Universidade de Rio Grande

“Por que não somar os atrativos do turismo rural com o turismo náutico? Com base nisso, pesquisamos o potencial das represas do Paraná e descobrimos que este casamento entre campo e água é perfeitamente viável”.

“O nosso projeto Angra Doce, na represa de Chavantes, está trazendo benefícios concretos para 15 municípios daquela região”.

“Em Chavantes, surgiram praias onde antes só havia mato. E, além de gado, barcos”.

“É a iniciativa privada que faz as coisas acontecerem. É preciso cobrar os órgãos públicos continuamente”.

Angela Soares, Paraná Projetos

“O primeiro resort brasileiro da rede Hard Rock ficará numa ilha de uma represa, e longe do mar”.

“Apesar do nome “Hard Rock”, nosso resort será 100% náutico”.

“O interior de São Paulo e do Paraná é o maior emissor de turistas do país”.

Bernardo Sperandio, diretor operacional do futuro Hard Rock Ilha do Sol

“O Brasil é o país número 1 do mundo em recursos naturais para o turismo. E isso abrange também as nossas águas”.

“O turismo é setor que mais rapidamente pode gerar empregos para o país, porque não depende nem da implantação de indústrias”.

“O Prodetur+ garante prioridade no andamento de projetos de financiamento para o turismo. Os recursos saem mais rápido e com menos burocracia”.

Eduardo Madeira, coordenador do projeto Prodetur+, do Ministério do Turismo

“É preciso promover o turismo, mas sem afetar quem vive no local”.

“Em breve, Ilhabela ganhará o primeiro Museu da Vela do país”.

“Se o morador do local não entender a importância do visitante, todo esforço será em vão. É preciso que a população esteja envolvida nos projetos. Se não, não dará certo”.

“O turismo é a única fonte de renda de Ilhabela. E o mar reponde por boa parte disso”.

Ricardo Fazzini, secretário de Desenvolvimento Econômico de Ilhabela

“Este congresso traz órgãos públicos e empresas privadas para a mesma sala. E isso encurta barbaramente os caminhos”.

“Depois das nossas ações, a Marina da Glória voltou a ser uma atração turística no Rio de Janeiro”.

“O turismo é outra oportunidade para as marinas, que se devem se limitar a guardar barcos”.

Gabriela Lobato, presidente do grupo BR Marinas

“Turismo é economia, não simples lazer, como é tratado pela maioria das pessoas”.

Michael Nagy, presidente do Rio Convention Bureau

“Na questão dos licenciamentos, os órgãos públicos precisam agir com mais agilidades e, acima de tudo, sem atrasos.

Jomar Carvalho, diretor operacional do Opportunity

“Búzios sempre teve muita afinidade com a água, mas não tinha turismo náutico. Isso vai mudar com o Aretê”.

“Búzios é um bom exemplo de um lugar onde o turismo sempre foi da terra para o mar. Agora, faremos com que também seja também do mar para a praia”.

Pedro Bulhões, diretor do empreendimento imobiliário Aretê

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    Quem fala pela náutica?

    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

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